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(A) :: Artemis II no céu, Montenegro sem cinto na terra

Artemis II no céu, Montenegro sem cinto na terra

Estamos no ano 2026. Todo o mundo tem os olhos no futuro do Irão e no progresso espacial. Todo? Não! Um país povoado por irredutíveis lusitanos discute o cinto de segurança do primeiro-ministro.

Tiago Dores
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Muita gente tem tentado definir Donald Trump. Infelizmente, a grande maioria dos que o procuram fazer está à beira da, ou já totalmente tomado por uma apoplexia. Daí resultando considerarem o presidente dos EUA um “$#%&* += %$!”, ou um “@€$%&”, ou até mesmo um “^;+(/=!”. O que, dirão alguns, não são os argumentos mais convincentes. Mas lá que são argumentos, direi eu, impossíveis de refutar disso também não há dúvidas.

Ora, não estando eu à beira da apoplexia — embora tenha de ir ver esta micose, que também não deve ser coisa boa — estou em condições de avançar uma definição mais simples do homem. Aqui vai: Donald Trump é a red pill em versão supositório. O homem que nos obriga a acordar do mundo de fantasia em que a Europa vive há largas décadas. “Sim, mas e qual era a necessidade de resvalar para a escatologia com a questão do supositório?”, perguntarão os mais sensíveis aos resvalares para a escatologia com as questões dos supositórios. É muito simples. Supositório porque, em comprimido, a red pill não nos passava na goela: nós só temos mesmo garganta para invocar uma suposta superioridade intelectual em relação aos americanos.

Quer dizer, na verdade não é totalmente infundada, a invocação. Basta ver que o rasteiro intelecto americano, em 250 anos de história, o máximo que conseguiu produzir foi uma guerrazita civil. Já o assombroso intelecto europeu foi capaz de, em míseros quê?, 70 aninhos, produzir o comunismo e, como se não fosse já obra de respeito, tumba!, ainda produziu também, de bónus, o nazismo. Ou seja, em resumo. EUA: dois séculos e meio e zero regimes totalitários. Europa: sete décadas e as duas ideologias mais assassinas da história. Se isto não é capacidade intelectual de produzir ideias que avançam a humanidade, não sei o que é. Só se for capacidade intelectual para produzir ideias que destroçam a humanidade, o que acaba por soar muito parecido e talvez daí a confusão.

Um dos vestígios da inultrapassável capacidade intelectual europeia que nos é mais próximo é a Constituição da República Portuguesa. Para quem não conhece a obra, não darei spoilers, mas estão a ver o Manifesto Comunista? Agora imaginem uma versão  destinada especificamente a ser a lei fundamental da Albânia da Europa Ocidental. Aí está a Constituição da República Portuguesa. E já ficam com uma ideia da maravilha que os nossos constitucionalistas cozinharam para governar as vossas vidas, as dos vossos avós, pais, filhos e netos, mas mais as vidas deles, claro.

De entre tais ilustres juristas destaca-se Jorge Miranda que, por estes dias, afiançou que qualquer revisão constitucional tem de ser feita com o envolvimento e consenso entre PSD e PS. Sendo que a mesmíssima constituição de Jorge Miranda exige uma maioria de 2/3 dos deputados para ser revista. Ora, neste momento, esse número é garantido por PSD, CDS, Chega e IL. Portanto, a revisão constitucional pode fazer-se? Pode, mas o PS tem de estar envolvido. Mas pode-se fazer, porque se consegue os 2/3 sem o PS. Só que tem de haver consenso com o PS. Mas pode-se rever a Constituição. Sim, mas… E por aí adiante, que acho que já deu para perceber a ideia.

Enfim, são aquelas nossas idiossincrasiazinhas. No médio oriente existe a esperança de que o bárbaro regime iraniano esteja por dias. No espaço, a Artemis II leva seres humanos mais longe do que alguma vez na história. Estamos no ano 2026. Todo o mundo alimenta a expectativa de mudanças que permitam um futuro melhor. Todo? Não! Um país povoado por irredutíveis lusitanos resiste e opta antes por discutir o cinto de segurança do primeiro-ministro.