Acompanhe o nosso artigo em direto sobre a guerra no Irão
As ameaças feitas por Donald Trump ao Irão esta terça-feira — prometendo a destruição da civilização iraniana caso Teerão não cedesse ao seu ultimato — colocaram em destaque um desconforto cada vez maior junto da direita norte-americana e da sua base de apoio quanto à forma como esta guerra está a ser conduzida. Ao mesmo tempo, um número cada vez mais alargado de políticos do espectro democrata está a pedir publicamente a destituição do Presidente dos EUA.
A nível oficial, as principais figuras do partido Republicano ora remeteram-se ao silêncio — como o líder da maioria republicana no Senado, John Thune, ou o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson — ora apoiaram a escalada retórica de Donald Trump. “O Irão faria bem em levar a sério as palavras do Presidente Trump.
Podem optar pelo caminho mais fácil ou pelo caminho mais difícil”, avisou o grupo dos Senadores Republicanos na rede social X. Numa publicação subsequente, defenderam que “já era hora de termos um Presidente disposto a defender os americanos”. Alguns políticos republicanos também defenderam a postura de Trump a título individual, como Jodey Arrington, representante eleito pelo Texas, que afirmou à Fox Business “graças a Deus que temos um comandante-chefe que não se limita a retórica vazia”.
Rep. Jodey Arrington on Iran: "Thank God we have a commander in chief that is not full of empty rhetoric, because we've delayed this inevitability for 50 years … President Trump is a man with a bias for action. Thank God for President Trump and the courage and political will to… pic.twitter.com/r81jyDUHr9
— Aaron Rupar (@atrupar) April 7, 2026
No entanto, as ameaças de Trump também provocaram reações de desconforto — ainda que tímidas — no seio do Partido Republicano. Um dos mais destacados exemplos partiu de Ron Johnson. Tido como um firme aliado do Presidente, o senador do Wisconsin admitiu numa entrevista ao The Wall Street Journal esta segunda-feira que estava contra o bombardeamento de infraestruturas civis iranianas.
“Acho que seria um erro enorme. Quero dizer, ele vai perder o meu apoio se atacar alvos civis. O que quer que façamos tem de estar dentro das leis da guerra”, afirmou, lamentando as ameaças de Trump de que bombardearia o Irão “de volta à Idade da Pedra” se o prazo para um acordo, marcado para esta quarta-feira de madrugada, não fosse cumprido (acabou por anunciar um cessar-fogo de duas semanas proposto pelo Paquistão hora e meia antes do fim desse período) . “Espero e rezo para que o presidente Trump esteja apenas a usar isto como fanfarronice. Não estamos em guerra com o povo iraniano. Estamos a tentar libertá-los”, acrescentou.
Posicionado mais ao centro do partido Republicano, Don Bacon, representante eleito pelo Nebraska, defendeu numa entrevista esta terça-feira não considerar apropriadas as ameaças de Trump, considerando-as impróprias para alguém com a sua responsabilidade. “Não é assim que o Presidente deve falar. Acho que é imprudente, mas tenho a certeza de que ele não está a falar a sério. Ele está a tentar negociar com o regime, a dizer-lhes que é hora de recuar, que é hora de fazer as pazes com os Estados Unidos. … Mas não acho que ele queira dizer que vai destruir a civilização”, defendeu.
Já Nate Moran, representante eleito pelo Texas, foi mais severo na sua análise, lembrando na rede social X que apoiou as decisões de Trump quanto ao Irão até então, mas que traçava uma linha vermelha quanto às ameaças contra infraestruturas civis porque os EUA devem conduzir operações militares “por causas justas e através de meios justos e morais”. “Isto deve continuar no futuro; caso contrário, perderemos a nossa legitimidade para liderar o mundo”m continuou. “Não apoio a destruição de uma ‘civilização inteira’. Não é isso que somos, e não é consistente com os princípios que há muito guiam a América”, frisou “A forma como protegemos as vidas dos inocentes é tão importante quanto a forma como enfrentamos o inimigo”, concluiu.
The President’s threat that “a whole civilization will die tonight” cannot be excused away as an attempt to gain leverage in negotiations with Iran.
This type of rhetoric is an affront to the ideals our nation has sought to uphold and promote around the world for nearly 250…
— Sen. Lisa Murkowski (@lisamurkowski) April 7, 2026
A senadora eleita pelo Alasca, Lisa Murkowski, alinhou pelo mesmo nível de contundência, considerando que a ameaça à destruição da civilização iraniana “não pode ser justificada como uma tentativa de ganhar vantagem nas negociações com o Irão”. “Este tipo de retórica constitui uma afronta aos ideais que a nossa nação tem procurado defender e promover em todo o mundo há quase 250 anos”, atirou, adiantando acreditar que é um discurso que “coloca diretamente em perigo os americanos, tanto no estrangeiro como no país”. “Todos os envolvidos — especialmente o Presidente e os líderes do Irão — devem moderar as suas ameaças sem precedentes antes que seja tarde demais”, alertou.
Base MAGA cada vez mais afastada: postura de Trump é “repugnante em todos os aspetos”
Se junto das instâncias oficiais do partido Republicano a postura tem sido de ou apoiar Donald Trump abertamente ou evitar acrimónia e veicular críticas ligeiras, as bases que o ajudaram a ser reeleito em 2024 — o movimento Make America Great Again (MAGA) — têm sinalizado um afastamento e um repúdio cada vez maiores por meio de algumas das suas principais figuras, todas elas ex-aliadas de Trump.
A forma como a administração Trump lidou com a investigação a Jeffrey Epstein em 2025 abriu as primeiras fraturas, com muitos apoiantes do presidente republicano a expressarem desagrado com as conclusões que a justiça norte-americana tirou do caso. O facto de ter feito uma campanha eleitoral tendo como uma das principais promessas o fim das intervenções externas dos EUA para depois entrar em guerra com o Irão veio aumentar ainda mais esse desconforto, com a frase “não foi nisto que votámos” a tornar-se cada vez mais comum junto dos seus eleitores.
https://observador.pt/especiais/guerra-no-irao-volta-a-testar-a-maxima-o-maga-e-trump/
Uma das figuras proeminentes da direita norte-americana que se tem posicionado contra a guerra no Irão é Marjorie Taylor Greene, que abandonou o Congresso justamente por ter deixado de apoiar Trump devido ao caso Epstein. Apresentando-se como uma das críticas mais vocais do presidente a partir do espectro conservador, Greene reagiu à ameaça de Trump de destruir a civilização iraniana como sendo “maldade e loucura”. “Não caiu uma única bomba sobre os Estados Unidos. Não podemos exterminar uma civilização inteira”, alertou, pedindo para que o Presidente seja removido do cargo.
https://observador.pt/2026/03/17/diretor-do-centro-contraterrorismo-dos-eua-demite-se-em-protesto-contra-guerra-contra-o-irao-trump-reage-dizendo-que-joe-kent-e-fraco/
Também Tucker Carlson, que após abandonar a Fox News firmou o seu estatuto como uma das mais importantes figuras da direita dos EUA, tem-se posicionado contra a guerra no Irão desde o seu começo, voltando a reagir perante as ameaças de Trump. “Agora é hora de dizer não, absolutamente não, e dizê-lo diretamente ao Presidente: não”, afirmou no seu programa online, pedindo aos funcionários do governo norte-americano que desautorizem o Presidente. Classificando a estratégia de Trump face ao Irão como “repugnante a todos os níveis”, Carlson lamentou que se fosse usar as forças armadas dos EUA “para matar civis desse país” quando “nem sequer um mês e meio passou após o início do conflito”.
Trump, de resto, já respondeu a Carlson, atirando-se ao seu antigo aliado. “O Tucker é uma pessoa com baixo QI e não tem nem ideia do que se está a passar. Ele está sempre a ligar-me; eu nunca atendo as suas chamadas. Não lido com ele. Eu gosto de conviver com pessoas inteligentes e não tolos”, disse ao New York Post.
Ao coro de críticas juntaram-se Candice Owens e Alex Jones, ambos comentadores de extrema-direita e teóricos da conspiração — juntando à sua recusa de intervencionismo americano crenças anti-semitas quanto ao estado de Israel. A influencer classificou Trump como um “lunático genocida” e pediu que o Congresso dos EUA e o exército intervenham. “Estamos para lá da insanidade”, alertou. Já Jones, classificou a atitude do presidente como “a loucura de um rei”.
Democratas pedem remoção de Trump e querem votação imediata para terminar guerra
Os pedidos de Greene e Owens quanto à destituição de Donald Trump do cargo da presidência devido à sua postura perante o Irão não foram casos isolados. Aliás, se foram minoritários do lado conservador, tornaram-se cada vez mais audíveis no espectro político oposto.
Segundo o Wall Street Journal, um conjunto cada vez mais alargado de políticos do Partido Democrata começou a pedir que a 25.ª Emenda da Constituição dos EUA — que prevê a substituição do chefe do Executivo em casos de incapacidade física ou mental pelo seu vice-presidente — seja evocada para que Donald Trump seja destituído.
The following members of Congress are now calling for Trump to be removed via the 25th Amendment:
Rep. Alexandria Ocasio-Cortez (D)
Rep. Diana DeGette (D)
Rep. Sydney Kamlager-Dove (D)
Rep. Mark Pocan (D)
Rep. Summer Lee (D)
Rep. Delia Ramirez (D)
Rep. Sarah McBride (D)
Rep.… pic.twitter.com/RJQB4wjPJW— Headquarters (@HQNewsNow) April 7, 2026
São já mais de 50 os políticos a pedir a sua destituição, sendo a larga maioria democratas. Entre os nomes mais proeminentes estão os membros da Câmara dos Representantes Ro Khanna, Alexandria Ocasio‑Cortez, Yassamin Ansari, Rashida Tlaib, Ilhan Omar e o senador Ed Markey.
“É doentiamente maldoso. O Donald Trump tem de ser destituído. Quando é que os meus colegas republicanos vão finalmente ganhar coragem e destituí-lo do cargo?”, escreveu por exemplo Omar na sua conta pessoal do X.
https://twitter.com/IlhanMN/status/2041516965605355736
“Esta é uma ameaça de genocídio e justifica a destituição do cargo. As faculdades mentais do Presidente estão a deteriorar-se e não se pode confiar nele”, defendeu Ocasio-Cortez, que disse a todos os membros da cadeia de comando do Presidente que “têm o dever de recusar ordens ilegais”, o que “inclui levar a cabo esta ameaça” de destruir a civilização iraniana.
https://twitter.com/AOC/status/2041563794787193194
Eric Swalwell, que além de membro dos Representantes, é o candidato dos democratas a governador da Califórnia, também pugnou pela saída de Trump, escreve o WSJ. “O Presidente tem de ser removido. Se o Congresso for demasiado cobarde para o fazer, então que seja o próprio Governo a fazê‑lo”, defendeu.
Entretanto, a liderança democrata na Câmara dos Representantes — de força minoritária neste momento — apelou ao regresso imediato dos representantes a Washington para que seja realizada uma votação destinada a pôr fim à guerra no Irão.
A declaração foi assinada por várias figuras de topo dos democratas na Câmara, inclusive pelo líder Hakeem Jeffries, acusando Trump de estar “completamente descontrolado” e que é necessária uma votação para o retirar de Presidente antes que “atire o país para a Terceira Guerra Mundial”.
Como aponta o WSJ, a Câmara dos Representantes está atualmente em pausa até à próxima segunda‑feira, 13 de abril, sendo que já tinha sido votada uma resolução de oposição à guerra no Irão em março, tendo sido chumbada com 212 votos a favor e 219 contra.
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