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O Santo nome de Deus

O gesto de Donald Trump poderia merecer aplauso se não fosse o contexto bélico em que surge a sua mensagem de Páscoa, que a pode desvirtuar como uma forma de instrumentalização ou hipocrisia

Pedro Vaz Patto
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O presidente norte-americano Donald Trump dirigiu aos seus concidadãos uma mensagem pascal que até poderia ser considerada muito inspiradora. Falou da alegria da Ressurreição de Jesus Cristo como vitória contra o mal e a maldade e a partir da qual nada poderá separar a humanidade do amor eterno de Deus. Regozijou-se com o crescimento da prática religiosa no seu país, que não se via há décadas, afirmando que a grandeza de uma nação depende de Deus e da religião.

Ao mesmo tempo, li críticas ao facto de o rei Carlos III, que por sinal até é chefe da Igreja anglicana, ter omitido uma qualquer mensagem pascal, quando  há poucos dias havia dirigido uma mensagem aos muçulmanos por ocasião do início do Ramadão (ver www.tribunechrétienne.org, 3/4/2006).

O gesto de Donald Trump poderia merecer aplauso se não fosse o contexto bélico em que surge tal mensagem, contexto que a pode desvirtuar como uma forma de instrumentalização, hipocrisia, ou mesmo blasfémia.

É que a mesma pessoa que leu tal mensagem havia, poucos dias antes, ameaçado os seus inimigos de os «fazer regressar à Idade da Pedra de onde nunca deveriam ter saído». Uma tal afirmação inclui beligerantes (o que já seria grave) e civis inocentes. E logo no dia seguinte voltou a ameaçá-los, agora com um “inferno”. Ao que esses inimigos, que também invocam Deus continuamente, não deixaram de replicar, numa atitude de puro revanchismo, também com a ameaça de um “inferno”.

Não se trata apenas de ameaças. Donald Trump repetidamente se vem vangloriando com muito orgulho das mortes e da destruição que a guerra de agressão de que é responsável cada vez mais provoca. Nem a Páscoa cristã, nem a Páscoa judaica, nem o Ramadão, fizeram sequer abrandar essas mortes e essa destruição. Numa mais recente mensagem chega a achincalhar o nome com que os muçulmanos designam Deus.

Poderá haver maior contraste entre tais palavras e atitudes e a mensagem de Jesus Cristo, que disse: «Ouviram o que vos foi dito: “olho por olho, dente por dente”; “amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo; Eu porém digo-vos: amai os vossos os vosso inimigos, fazei bem aos que vos perseguem» (Mt 5, 43-48) ?

Diante deste comportamento do seu compatriota, o Papa Leão XIV, com a discrição e prudência diplomática que o caracteriza (não propriamente como Santo Ambrósio de Milão, que no século IV excomungou o seu imperador responsável por um grande massacre), não deixa de proferir as suas certeiras admoestações.

Na homilia da missa de Domingo de Ramos aludiu a Deus «que rejeita a guerra, que ninguém pode usar para justificar a guerra, que não escuta, mas rejeita a oração de quem faz a guerra, dizendo: “Podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não os atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue” (Is. 1,15)».

Na meditação que escolheu para ser lida durante a Via Sacra de Sexta-Feira Santa, aludiu aos que «pensam ter recebido uma autoridade sem limites e pensam poder usá-la e abusar dela à sua vontade», os quais «devem responder diante de Deus como exercem o poder que lhes foi confiado, o poder de julgar, mas também o poder de iniciar uma guerra ou de a terminar».

Já anteriormente havia afirmado na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano: «Infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo, cada vez mais, arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus».

«Uma blasfémia que obscurece o Santo Nome de Deus» – não podem deixar de vir à nossa mente estas palavras diante das palavras e atitudes do atual presidente norte-americano.

Uma marca notória da matriz judaico-cristã da cultura norte-americana é a frequente presença em edifícios e locais públicos, da representação das “Tábuas da Lei” com os Dez Mandamentos. Corrente laicistas têm contestado essa presença, mas sem sucesso, precisamente porque não são uma imposição confessional, são um sinal da cultura que rege a vida social e as instituições dos Estados Unidos no que tem de mais precioso. Mas mais do que objetos simbólicos, valem os testemunhos de coerência com os princípios desse decálogo. Assistimos agora a um grave contra-testemunho de violação, pelo mais alto magistrado dessa nação, de dois desses mandamentos: sobretudo o quinto (“Não matarás”), mas também o segundo (“Não usarás o Santo Nome de Deus em vão”).