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(A) :: Não foi Salazar que inventou os Descobrimentos

Não foi Salazar que inventou os Descobrimentos

Não será já altura de a esquerda abandonar as suas visões pueris sobre a história colonial do país e de também ela se orgulhar do que, no nosso passado, é óbvio motivo de orgulho?

João Pedro Marques
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Temos assistido nos últimos anos a uma campanha tenaz contra a palavra “Descobrimentos” que, como se sabe, se usa para designar aquilo que os navegadores portugueses fizeram nos séculos XV e (parte do) XVI, abrindo novas rotas oceânicas, encontrando e ligando terras e povos que até então Portugal, a Europa e, em certos casos, todo o Velho Mundo pura e simplesmente desconheciam.

Os que atacam a palavra “descobrimento” aplicada a este acontecimento histórico avançam várias ideias para tentar fundamentar esse ataque. Dizem-nos, por exemplo, que essas terras já eram habitadas — o que nem sempre é verdade — e que, portanto, não foram descobertas pois já eram conhecidas por quem lá vivia ou por elas circulava. Dizem-nos, também, que em vez de “descobrimento” se deveria usar o termo “invasão” porque a chegada dos portugueses raramente foi bem-vinda e foi frequentemente acompanhada de violência e apropriação de pessoas e territórios. A esses há que lembrar que a violência e a escravização dos vencidos são, infelizmente, uma constante no passado (e no presente) da humanidade e que a História de Portugal não é a História da Malásia ou do Canadá, ainda que aqui e ali se cruze com elas. A História é uma narrativa construída a partir de documentos e não é possível narrar (nem olhar ou filmar) de todos os pontos de vista ao mesmo tempo. O nosso ponto de vista é o de gente que nasceu ou habita na faixa mais ocidental da Península Ibérica, que foi formada no seio de uma cultura de raíz greco-romana e cristã, e que descende dos que protagonizaram a aventura da abertura e ligação dos mundos por via marítima. Para nós o que resultou dessa aventura foram, em primeiro lugar, descobrimentos geográficos, étnicos e culturais. Devemos ter orgulho nisso e na palavra que o descreve. É claro que se fôssemos indianos, angolanos ou chineses veríamos as coisas de outra forma. Mas não o somos, e não há razão para abdicarmos da nossa própria forma de ver e de descrever as coisas.

Dito isto, o argumento mais manhoso de todos os que se usam para tentar contrariar a designação de “descobrimento” aplicada às navegações dos portugueses é o que procura ligar essa palavra ao salazarismo para assim, de esguelha, tentar condenar politica e culturalmente o conceito. Quem lança mão desse argumento transmite-nos, implícita ou explicitamente, a ideia de que a palavra tem de ser abandonada por ser uma emanação do Estado Novo e estar correspondentemente consporcada. Sucede que para além de manhoso esse argumento é profundamente ignorante e próprio de quem tem vistas curtas e não sabe do que fala. O termo “descobrimento” e o verbo “descobrir”, associados às navegações, eram há muito usados na escrita — e certamente na oralidade — dos portugueses. Eram usados por reis, políticos, diplomatas, jornalistas, poetas e prosadores, e pela gente que sabia escrever. O seu uso era algo que estava profundamente inscrito na língua e nos hábitos de quem vivia em Portugal, muito, muito antes de Salazar ter nascido. Deixem-me dar-vos um exemplo, entre mil possíveis, para ilustrar o que afirmo. Em 10 de Dezembro de 1836 foi publicado um decreto pelo qual se proibiu o tráfico de escravos feito a partir das possessões portuguesas em África. Eis um excerto do preâmbulo desse decreto (tendo eu tomado a liberdade de pôr certas palavras em bold para melhor as evidenciar):

SENHORA!

(…)

O primeiro título que os nossos grandes reis, augustos avós de V. M., acrescentaram ao de Rei de Portugal, foi o de – além mar em África, e o de Senhores de Guiné. Empunhadas pelas mãos de nossos navegadores, dirigidas pela atrevida ciência de nossos astrónomos, as Quinas Portuguesas, que desta extremidade da Europa saíram para conquistar e civilizar, primeiro foram mostrar-se nos mares de Ceuta, logo, passado o tremendo cabo Bojador, não tardaram a ganhar as férteis regiões que rega o Senegal, o Gâmbia, e o Zaire; donde, descendo e dobrando o Cabo Tormentório, passaram a descobrir a costa oriental da imensa península Africana, em cujo litoral fundaram feitorias, construíram fortes, e conquistaram povos.

Sobre vários feitos de África como em tantos outros, os Portugueses têm sido caluniados por historiadores modernos, que representaram nossos guerreiros e navegadores traficando com a espada na mão dos haveres e das vidas das Nações descobertas. E todavia, não há um só documento em toda a primeira época de nossos descobrimentos, que não prove que o principal, e quase único intuito do governo português era a civilização dos povos pelo meio do Evangelho: O comércio foi secundário, posto que meio civilizador também; e a dominação foi uma necessidade consecutiva, não um objecto.

(…)”

Supõe-se que o preâmbulo deste decreto foi escrito por Almeida Garrett. Mas seja essa suposição acertada ou não o que importa perceber é que esta linguagem era comum entre os políticos do liberalismo, e já antes deles, entre os do absolutismo, e nada tem que ver com Salazar que só viria a governar cerca de um século depois. A palavra “descobrimento” associada às realizações dos navegadores quatrocentistas e quinhentistas faz parte de uma cultura e de uma visão do mundo, tem um longo e sólido lastro histórico que transcende governantes e regimes políticos, e não há qualquer razão para abdicar dela na tentativa de agradar ao grupo de pressão A, ao partido B ou à comunidade C.

É por isso inaceitável que essa palavra tenha sido mais ou menos proscrita e tendencialmente varrida dos manuais escolares e do ensino, tal como é inaceitável a resistência ou o desinteresse face ao projecto de criação de um Museu dos Descobrimentos. Há três meses e meio, em 12 de Dezembro de 2025, o arqueólogo Alexandre Monteiro escreveu no Observador um extraordinário artigo expondo as razões pelas quais deveria haver em Portugal um Museu dos Descobrimentos com as características e a vocação que então explicitou. Depois, com base nesse artigo, Alexandre Monteiro redigiu uma petição à Assembleia da República para que, como lá se diz, o nosso parlamento “promova a discussão séria e informada sobre a criação de um Museu dos Descobrimentos, enquanto projeto nacional estruturante, científico, crítico e inclusivo, à altura da dimensão histórica global de Portugal”. Até ao momento a petição conseguiu cerca de 1600 assinaturas, o que é muito pouco, mas espelha o alheamento, quando não a aversão, que a população portuguesa foi ensinada e estimulada a sentir por essa página específica da nossa História.

Isso é muito evidente sobretudo à esquerda que não tolera nem mesmo aos seus qualquer desvio da cartilha anti-Descobrimentos. Deixem-me dar um exemplo. Em 2021, Fausto, um homem de esquerda, procurou dar, em público, uma visão mais matizada, menos amaldiçoada, da epopeia das Descobertas, mas foi ele próprio amaldiçoado ou, pelo menos, fortemente censurado. Quando afirmou que a saída de Portugal para o mundo no século XV valeu a pena, quando confessou que ao olhar o estuário do Tejo via a partida de todo um povo e nos disse que “eles foram extraordinários”, quando assumiu que pensar nessa partida o emocionava e que a História Trágico-Marítima o fazia chorar, Fausto estava a dar voz ao que significam os Descobrimentos para a identidade portuguesa, mas a desagradar profundamente à esquerda, sobretudo àquela que continua a execrar a Praça do Império e que quer demolir o Padrão dos Descobrimentos. Alguns chamaram-lhe “vendido”, outros “ignorante” ou coisas piores. E não foram só os esquerdistas radicais que o criticaram, pois também os moderados vieram apontar-lhe um dedo acusatório. Ascenso Simões, por exemplo, ao ouvir com desilusão, desgosto ou comiseração as declarações de Fausto, considerou que “há sempre um saudosista no coração de um velho revolucionário”.

Não será já altura da esquerda abandonar as suas visões pueris sobre a história colonial do país e de também ela se orgulhar do que, no nosso passado, é óbvio motivo de orgulho, como é o caso dos Descobrimentos?