1 Há uns tempos, ao ler uma reportagem numa revista estrangeira, tropecei em duas palavras ali impressas e de repente acudiu-me que talvez pudesse fazer alguma coisa com elas. E fiz. Era sobre a excelência humana, grande tema.
Fiz porque sempre olhei com atenção para os melhores. Porque é que eram melhores no que faziam, criavam, pensavam, inovavam, produziam? E como, e porquê, e onde?
2 Conheci uma notável colecção deles ao longo dos anos e de cada vez me absorvia a observar como eram de facto (muito) bons. De uma forma geral são mais invejados que apreciados – o mérito é entre nós vetado por um daqueles sinais iguais aos de “trânsito proibido” – e a “cunha”, com lugar cativo entre nós, é mais procurada que a excelência. Não importa, os excelentes, ao sê-lo, sobrepor-se-ão sempre de forma natural ao surto nacional da inveja activa, calando uma lamúria ressentida com nove séculos de idade.
Claro que os dons, já se sabe, se distribuem de forma desigual – ao contrário do que se diz, não somos todos iguais. O ponto não é porém esse. É saber que destino teriam se não fossem continuamente adubados com os ingredientes naturais do mérito? O esforço, estudo, brio, trabalho, suor e talvez lágrimas?
O destino seria modesto, a excelência parca, mas o tema prendeu-me exactamente pelo oposto: há uma excelente… excelência portuguesa! Porque não elegê-la? Recordando a de alguns “veteranos” na matéria, dando a conhecer o génio de outros, tentando chegar à matéria prima de que – parece-me indiscutível – todos eles são feitos. E com ela servindo o país, porque a excelência transmite-se e partilha-se. Consoladora certeza entre a sombra ameaçadora do perigo que ora ronda ora explode e a arrepiante certeza da deliquescência das civilizações.
3 E então fiz aquilo que talvez saiba fazer: com a ideia de um podcast na cabeça, conversei com gente formidável. Podia ser outra? Podiam sempre ser outros, por definição e por princípio: escolher é de algum modo dividir e com isso desagradar a metade do hemisfério nacional. Calharam-“me” estes porque as coisas resultam muitas vezes do fluir de uma conversa, de ouvir alguém mencionar determinado nome, de um “feito” a que se prestou atenção, mais do que de uma lista ultra pensada, ou do rigor de uma equação entre cotas e áreas.
Em resumo, olhei em volta. E escolhi.
A primeira pessoa de que me lembrei foi de Paulo Macedo que onde toca nascem invariavelmente resultados e invariavelmente ganhos, envoltos uns e outros numa postura humana sempre amistosa. Seguiram-se outros e outras tão parecidos em excelência que o título da série – “oferecido” pelo meu amigo Miguel Esteves Cardoso – foi naturalmente “Melhor era Difícil”.
Ei-los: Ana Pinho, Manuel Sobrinho Simões, Cristina Fonseca, Herman José, José Avillez, Virgílio Bento, Ricardo Reis, Catarina Lameira Grosso, António Coutinho, Sandra Tavares, Mário Laginha, Joana Gonçalves Sá.
Vão por mim: ouçam-nos.
PS: Ainda a Páscoa. Ninguém esqueceu aquela figura branca atravessando sozinha o chão escuro de uma praça deserta. Era a pandemia e Francisco, de Roma, amparava o mundo com a sua presença ali. No chão molhado de S. Pedro, sob uma pequena tenda pousada na imensidão do asfalto, implorava que o céu se abrisse sobre aqueles dias de um desconhecido sombrio. E um dia, ele abriu-se. E desta vez, nesta Páscoa de 2026 voltámos a não esquecer, e como poderíamos? Permanecerá para sempre a figura também branca, também de um Papa, deixando-se ver sozinho abraçando uma cruz a caminho da Via Sacra. Emoldurado pelo Coliseu romano, Leão XIV percorria as 14 estações carregando com ele a cruz da guerra. De todas as guerras. Crentes e não crentes viram que o Papa os ouvia. Talvez também um dia o céu se abra sobre o sofrimento e a inaudita violência desse sofrimento.