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(A) :: O desporto não devia funcionar em ilhas 

O desporto não devia funcionar em ilhas 

Faz sentido facilitar a passagem de um jovem do rugby para o futebol, do futebol para o atletismo, ou qualquer outra combinação. Não é perder um atleta. É não perder uma pessoa para o desporto.

Pedro Rocha e Cunha
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É normal, E, na verdade, até é saudável: uma criança começa numa modalidade, no ano seguinte quer experimentar outra, depois outra. Vai descobrindo, vai percebendo o que gosta e onde se sente melhor. Esse caminho faz parte do crescimento.

O problema não está aí.

O problema começa quando, nesse processo, o atleta desparece do desporto.

Há muitos casos assim. Crianças que deixam uma modalidade para experimentar outra, mas que nunca chegam a integrar-se. Ficam pelo meio, deixam de treinar, deixam de competir e, pouco tempo depois, deixam de fazer qualquer atividade física.

E aqui a pergunta impõe-se: quem acompanha este processo?

No desporto de formação, cada modalidade continua a maioria das vezes a olhar apenas para o seu lado. Cada uma preocupa-se com os seus atletas, as suas equipas, o seu espaço. Quando um jovem sai, o ciclo fecha-se ali. Perde-se o resto.

Mas deve ser assim?

Se o objetivo for apenas reter atletas dentro de uma modalidade, talvez faça sentido.

Se o objetivo for formar pessoas através do desporto, claramente não.

Porque, no final aquilo que todos devíamos querer é simples: que a criança continue ativa. Sabemos que cada vez mais jovens se afastam do desporto cedo demais, e muitos não voltam. Quando isso acontece, perde-se mais do que um atleta, perde-se um hábito, uma rotina, e muitas vezes uma ligação ao próprio desporto.

E isso raramente acontece de um dia para o outro. Acontece no meio destas transições, mal acompanhadas.

Talvez fizesse sentido pensar de outra forma. Criar pontes entre modalidades. Facilitar a passagem de um jovem do rugby para o futebol ou do futebol para o atletismo, ou qualquer outra combinação. Um simples contacto, uma recomendação, uma ligação entre estruturas podia fazer a diferença.

Não se trata de perder um atleta. Trata-se de não perder uma pessoa para o desporto.

O desporto de formação não devia funcionar como um conjunto de ilhas.

Devia funcionar como um ecossistema onde o mais importante é o percurso do atleta e não a modalidade em que está naquele momento.

Porque no fim, o sucesso não está em quantos atletas ficam.

Está em quantos continuam.