(c) 2023 am|dev

(A) :: As virgens ofendidas de José Saramago

As virgens ofendidas de José Saramago

A proposta do ministro resume-se a isto: quem quiser ensinar as obras do Nobel, ensina; quem não quiser, não ensina. Vive e deixa viver. Experimentem, há de  fazer-vos bem.

Tiago Roma Almeida
text

O fim do mês de março chegou e, com ele, uma proposta do Ministério da  Educação que abalou a área em Portugal que tutela: o fim da obrigatoriedade de lecionar  uma de duas obras de José Saramago (O Memorial do Convento ou O Ano da Morte de  Ricardo Reis), no 12.º ano.

Estaria a mentir se dissesse que não precisei de ir pesquisar sobre a proposta do Ministro Fernando Alexandre, ao ver as reações que afundaram as redes sociais de indignação. Cheguei a pensar que o Ministro tinha mesmo tomado a decisão de excluir,  de remover totalmente Saramago do plano curricular. É importante, primeiro, demarcar a  diferença entre decidir e propor e entre excluir e tornar opcional.

O que, de facto, me incomodou neste clima de acusações e indignação por parte  de, principalmente, intelectuais de esquerda muito (im)parciais e muito apaixonados pelo  valor da literatura foi a chicana de incoerências que constantemente apresentaram para  denegrir o Ministro e a mera avaliação técnica que propôs. Inicialmente, vieram afirmar que Fernando Alexandre tinha agido ideologicamente e alegavam que estava a confundir  o cargo que ocupa com a ideologia política em que acredita, que Fernando Alexandre  queria excluir Saramago (apesar de apenas ter proposto uma avaliação técnica para  determinar se o autor deve ou não deixar de ser obrigatório no plano curricular do 12º  ano) apenas porque se tratava de um fervoroso adepto e crente comunista – é que aquilo  só pode ser comparado a duas coisas: ao futebol e à religião, porque de facto, poucas  diferenças têm os três.

Foi, então, em plenário da Assembleia da República e interpelado pelos  jornalistas, que o Ministro se defendeu dizendo que nada disso estava em causa e que  jamais tomaria considerações sobre que autores tornar obrigatórios com base nas suas  orientações e carreiras políticas, usando o exemplo do escritor que, a propósito da  avaliação técnica suprarreferida, propõe como substituto a José Saramago: Mário de  Carvalho, conhecido militante do Partido Comunista Português. Se concordo com a  proposta do autor substituto, é outra questão. Quem me acompanha, está farto de saber  que o Nobel da Literatura, para mim, é um tema sensível e causador de grandes nervos.  Mas deixemos o Lobo Antunes de lado, até para não massacrar ainda mais o fantasma de  José Saramago. Enquanto este último se limitou a escrever sem pontuação, o primeiro desconstruiu completamente a maneira convencional de escrever. Quem é o maior escritor  agora, meus senhores?

Depois da resposta do Ministro, os mesmos intelectuais lembraram-se finalmente  do Nobel porque, de repente, passaram a acusar logo o Ministro de estar a esquecer o  Nobel e que o assunto não tinha nada que ver com questões políticas, mas com ser o  Nobel da Literatura. Egas Moniz, se vos ouvisse, estaria a rebolar de riso. O 1.º Prémio  Nobel Português foi constantemente esquecido por toda a gente, mas percebo que não  considerem um galardoado com o Nobel que não o tenha ganho por razões políticas.

Falemos da proposta em concreto do Ministro: o que está escrito e que Fernando  Alexandre propõe é apenas a realização de uma avaliação técnica para determinar se se  deve remover a obrigatoriedade de lecionar a obra de José Saramago. A mim, parece-me  bastante legítimo que se coloque em causa a possibilidade de Saramago deixar de ser  obrigatório nos programas escolares do secundário. Toda a gente implora aos sete ventos  por reformas, mas quando um Ministro propõe meramente uma avaliação técnica para  determinar alguma coisa, “aqui-d’el-rei” que não se pode.

Para estas pessoas, questionar um Nobel é anátema como se fosse o Nobel que  fizesse o escritor, como se a literatura portuguesa se esgotasse apenas em Saramago, e  glorificando um homem como tesouro nacional, que toda a vida espezinhou o próprio  país. Foi viver para Espanha e em Lanzarote ficou até ao fim da vida. Foi perseguido, é  verdade, mas que não se arme em virgem ofendida, porque se todos aqueles que, neste  país, já foram perseguidos, emigrassem, seria este país já uma terra deserta. Recebeu o  Nobel por, alegadamente, ter um grande compromisso com o Humanismo e pela grande  componente crítica da sociedade e enorme vertente política que a sua obra carrega. Não  me parece que alguém muito comprometido com o Humanismo teria defendido, enquanto  diretor-adjunto do Diário de Notícias, o saneamento de jornalistas que defendiam ideias  contrárias à linha comunista que o jornal assumiu no pós-25 de abril. Condenar por  discordar. Como nós sabemos, é um dos grandes mandamentos da democracia.

José Saramago é um dos grandes escritores portugueses, disso não haja dúvidas.  Contudo, defendê-lo implacavelmente ofende mais a literatura portuguesa que aquilo que  as pessoas já referidas acham. Dizerem agora que o autor em discussão está novamente a  ser perseguido, é uma piada. Fernando Alexandre propôs apenas que deixasse de ser  obrigatório lecionar José Saramago. A proposta resume-se a: quem quiser ensinar as obras do Nobel, ensina; quem não quiser, não ensina. Vive e deixa viver. Experimentem, há de fazer-vos bem.

O Ministro da Educação lá terá de continuar a ouvir estes especialistas em  literatura. A esses, permitam-me que o diga: vocês estão mesmo a ficar tolinhos. Tudo  vos serve para criticar, quando não está no governo um partido de esquerda. Tudo vos  serve, desde que seja o vosso alvo a passar na mira. Continuem, meus amigos, até porque  a democracia que conhecem, é feita disso mesmo.