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(A) :: De Wim Wenders aos U2, da invenção da Praia Grande ao maior tanque de água salgada: 60 anos do Arribas Sintra Hotel

De Wim Wenders aos U2, da invenção da Praia Grande ao maior tanque de água salgada: 60 anos do Arribas Sintra Hotel

Cenário do filme de culto "O Estado das Coisas", pela sua piscina de 100 metros caminharam Bono e companhia. Um novo livro enquadra as origens da unidade hoteleira mais ocidental do continente.

Maria Ramos Silva
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Nas imagens desse país pós-Abril, de Almoçageme à Praia Grande, revela-se a trama, numa reflexão sobre a produção cinematográfica: a câmara segue a rodagem de um título de ficção científica de série B, Os Sobreviventes, um remake de Roger Corman com direito a cameo na longa de Wim Wenders. No ecrã, nesse filme dentro do filme O Estado das Coisas (1982), desfilam ainda, já desaparecidos, Henri Alekan, Samuel Fuller, Artur Semedo, com a sua peculiar luva preta, ou John Paul Getty III — o desafortunado neto do então homem mais rico do mundo, raptado em Itália anos antes.

Em 2023, o arquiteto José Luís Possolo de Saldanha entrevistava Wenders, o cineasta que 30 anos antes trouxera a sua equipa até ao edifício hoteleiro construído de raiz mais ocidental da Europa continental — e que admitia que sem o cenário do Arribas Sintra Hotel dificilmente teria levado a empreitada por diante. “O alemão nunca havia antes filmado em Portugal, e a sua vinda a este país foi essencialmente acidental, devendo-se a que a sua companheira de então, Isabelle Weingarten pertencia ao elenco de O Território, película que o chileno Raúl Ruiz filmava na serra de Sintra, com dificuldades de que a actriz francesa dera conta a Wenders”, escreve o autor do livro/álbum que celebra 60 anos de Arribas, Sobre a Margem (Althum), lançado a 5 de maio, e que conta as origens e histórias deste destino, que começou por conhecer em família. “Há uns anos, os meus pais foram almoçar ao hotel e acharam que era boa ideia passarem a convidar os três filhos para começarmos a passar uns cinco ou seis no Arribas, para estarmos todos juntos.” Ao longo dos 12 anos seguintes, “até há pouco tempo”, assim aconteceu. Durante uma semana em agosto, os 12 dividiam-se por três suites. Logo na estreia, num momento na piscina, “uma raridade com cem metros”, José Luís demorou-se a observar o edifício e a detetar as alterações que sofrera. “Foi por aqui que a coisa começou.”

O Estado das Coisas (1982), que regressaria de Veneza com um vitorioso Leão de Ouro, foi quase todo rodado em Portugal, num preto e branco feito de figuras errantes, encalhadas naquele destino à beira do Atlântico, que quase tocava a América com o seu nariz, um movimento pretendido pelo cineasta, num confronto entre cinema europeu e norte-americano. Uma produção até hoje tão esquiva quanto a trajetória da própria localização. “A primeira coisa que me surpreendeu mais é o considerável desconhecimento que o país tem sobre o hotel. No plano artístico e cultural, o que ali foi filmado é quase um cult movie. Eu próprio comecei por desconhecer que Wenders tinha feito este filme em Portugal”, admite o arquiteto. A empreitada despertaria em Wim Wenders parte do interesse subsequente por Portugal, do Until the End of the World (1991) a Lisbon Story (1994), passando pelo país com frequência. É num desses momentos, no âmbito do Leffest, a convite dos responsáveis do Arribas, que conversa com José Luís. “Levei uma miniatura de um BMW Isetta, que aparece em O Estado das Coisas, e depois no Lisbon Story. O meu pai teve um Isetta antes de eu nascer e tinha uma miniatura lá em casa. Oferecia-a ao Wenders e foi para o altar de memorabilia em Berlim.”

A vontade indómita de Alfredo Nunes Coelho, o inventor da Praia Grande

Também com a sua dose de experimentalismo, a região por si só daria bom filme, agora colorido pelo azul do mar e por uma expansão natural que em várias décadas precedeu o dia 5 de maio de 1966, quando o Arribas Sintra Hotel foi inaugurado pelo então Presidente da República, Américo Tomás, encetando um caminho sem retorno.

O pulo turístico e de veraneio da zona, e as raízes desta própria morada começam bem antes, com a Vila Nova da Praia das Maçãs em fundo. Começou a receber veraneantes no último quartel do século XIX, usufruindo da atração natural suscitada por Sintra, e contando com o impulso urbanizador trazido por três nomes ligados à zona: o Padre Matias del Campo (1843-1917), de origem espanhola e à época prior de Colares; o artista plástico e compositor Alfredo Keil (autor da “Portuguesa”); e de “Manuel Prego (c. 1830/1840), saloio típico da região, que ali estabeleceu o primeiro comércio. Quando pequenos carros-eléctricos começaram a chegar à Praia das Maçãs em 1904 o número de visitantes escalou, mas a Praia Grande permanecia um pérola bem guardada, de acesso discreto, quase exclusivamente trilhado por turistas estrangeiros. É aqui que entra em cena o quarto e decisivo protagonista neste projeto de desenvolvimento: Alfredo Nunes Coelho, empreiteiro de canalização nascido em Colares que realizara obras em casas de fim de semana que surgiam na área antecipou, e apostou, no potencial turístico.

“Era um tipo com a quarta classe, indomável, imparável e que devia ter um feitio muito especial, mas uma figura incrível. Ainda por cima faliu depois de montar estas coisas todas. Ele inventou a Praia Grande”, remata o autor da obra.

De acordo com o seu filho Miguel, foi ainda em 1943 que Alfredo Coelho montou um restaurante modesto, no local que mais tarde recebeu o Motel Arribas, onde servia sobretudo caldeiradas e peixe grelhado. Em 1951, ergueu o restaurante Casa da Ponte, cujo nome se deveu à estrutura em pedra — parcialmente destruída pelas cheias de 1983, e então desativada — que servia a estrada para a Praia Grande, entroncando neste local na rodovia que liga Colares à Praia das Maçãs. Mas foi em agosto de 1955 que Coelho submeteu um projeto ao município de Sintra para um novo restaurante, Casa das Arribas, a construir em anexo àqueles balneários da Praia Grande.

O seu autor não foi escolhido ao acaso: o arquiteto lisboeta Raul Francisco Tojal (1900–1969), que construíra casa de férias própria na vizinhança em 1942, era dos poucos banhistas que desciam a essa praia, juntamente com seu irmão, o construtor civil Diamantino Tojal, ambos filhos do mestre carpinteiro. “Aumentou o meu interesse pela investigação. Tojal foi o maior projetista de hotéis da geração dele, se não de todos os tempos. Se somarmos quartos de hotel o campeão é Raul Tojal, que morreu nos anos 60.”, recorda José Luís Saldanha. Tojal caminhava de facto à época para se tornar o maior projetista de hotéis do seu tempo em Portugal, cuja produção incluiu o Hotel Algarve, na Praia da Rocha, com projeto de interiores de Eduardo Anahory e do arquiteto Luís Possolo, avô de José Luís; ou do Hotel Estoril-Sol.

De acordo com o “Jornal de Sintra” de 18 de junho de 1961, o Hotel Arribas original foi inaugurado na véspera desse dia. Um quarto de século mais tarde, veio a transformar-se em aparthotel de três estrelas, em propriedade horizontal, quando este substituiu a função e herdou o nome do Hotel Arribas.

Na obra, descreve-se como duas semanas depois da inauguração do Hotel Arribas, adossado ao restaurante Casa das Arribas, podia já ler-se no jornal local que “Alfredo Coelho pensa em dotar a praia com uma piscina com água do mar”. É com esse plano em mente que em janeiro de 1963 entregou um projeto no município para uma piscina de 100 metros, com um edifício adjacente para vestiários, chuveiros, instalações sanitárias e um snack-bar no piso superior, a realizar sobre o topo norte da praia. Uma visão instrumental que faria toda a diferença na expansão turística. Como o Hotel Arribas junto à praia não assegurava um número suficiente de quartos para receber um vôo-charter completo, contratado pela agência de viagens Marcus & Harting que com ele trabalhava, crê-se que Alfredo Coelho já previsse erguer o motel junto à piscina, submetendo aquele primeiro projeto para as autoridades se acostumarem à ideia da construção sobre o larêdo sobranceiro à praia. Acresce que em maio de 1963, submeteu a substituição do projeto anteriormente aprovado para a piscina, por nova proposta, bastante modificada.

Não terá faltado controvérsia na edificação, antes de mais por ter sido licenciada em domínio público hídrico, significando que os seus terrenos eram protegidos por lei. A independência de Alfredo Coelho também não passou despercebida às autoridades, como se lê num relatório de fevereiro de 1966, no processo camarário relativo ao motel, citado no livro. Mas o certo é que levou o projeto a bom porto. “Hoje seria impossível construir ali. Eram os anos 60 e o endiabrado Alfredo Coelho conseguiu pôr o Américo Tomás a inaugurar o hotel e ficou um facto consumado. Não havia nada a fazer na câmara. O hotel só vem a ter licença de utilização nos anos 90. A singularidade do malandro Alfredo: primeiro faz o hotel lá em baixo, agora apartothel, a dizer que a praia é muito boa. Mas uma vez que faz o outro inverte o discurso para dizer que a praia é boa mas é perigosa, daí a piscina.”, comenta José Luís Saldanha.

A inauguração contou com uma grande festa com almoço, na presença de membros do governo e autoridades locais, foguetes, apresentação das bandas das corporações de bombeiros de Colares e de Almoçageme, e umas braçadas na piscina para a fotografia e mergulhos das pranchas, a cargo do então jovem Miguel Guerra Coelho, filho do anfitrião. Já os chapéus de sol foram se perdendo, tal como o mobiliário inaugural feito de propósito para o edifício, com decoração de Sebastião Cabral Lopes. Quanto à famosa piscina, à sua época afirmava-se como o maior tanque do seu tipo na Europa, servindo clientes do motel, do hotel original (junto à praia), e ainda visitantes não instalados que pagavam bilhete de meio-dia, ou de dia inteiro, para a frequentar, uma atração predileta nesses idos de 60.

Mas a década seguinte ditaria mudança de rota. Em 1973, incapaz de resistir às dificuldades económicas, Alfredo Coelho declarou insolvência, num contexto previsivelmente agravado pela crise do petróleo desse ano. Com a Revolução de Abril, as águas da piscina voltaram a agitar-se e a ser ocupadas —  até outubro de 1974 a gestão foi assegurada pela comissão de trabalhadores. O hotel serviu ainda para instalar retornados, um processo subsidiado pelo Estado. Na segunda metade de setentas, o Conjunto Turístico das Arribas assumiria a gestão.

“Estávamos no início do verão de 1995 quando o meu pai me desafiou a trabalhar no Arribas Hotel. Tinha, na altura, assumido o compromisso de deputado independente na bancada do PSD e já não dispunha da disponibilidade que a gestão do hotel exigia. Confesso que sempre gostei de desafios — e este fazia todo o sentido para mim. Por isso, não precisei de muito tempo para decidir: dois dias depois, informei a minha entidade patronal, a Price Waterhouse, que iria abraçar um novo projeto profissional/pessoal.”, escreve no prefácio da obra Paulo Amorim, sobre uma paixão hoteleira entretanto passada ao filhos Ricardo e Rita.

Há 40 anos que a família Amorim gere os destinos desta casa. Situado a 15 minutos do centro histórico, e a 40 minutos do Aeroporto de Lisboa, o alojamento passou por um styling em 2023, contando com 62 quartos e uma equipa de 75 colaboradores. Mantém as vistas sobre o atlântico, proporcionadas inclusive pelo Restaurante Arribas Terrace. Em breve preveem nova renovação integral, dedicada à restauração e eventos, incluindo a construção de uma cozinha totalmente nova, e instalação de um gastrobar anexo ao restaurante Estela, cujo nome homenageia Estela Ribeiro Amorim (1934 —2024): protagonista que, à maneira da personagem homónima da peça teatral Um Elétrico Chamado Desejo, assegurava discretamente o equilíbrio da gestão familiar. Quando às medidas recorde da piscina, mede hoje forças com rivais de peso como a piscina salgada do SantAnna, em Mykonos, na Grécia, mas em matéria de espólio cinematográfico — e de peripécias — será difícil bater a do Arribas.

Os estragos que a haviam atingido, antes do início das filmagens de Wenders, repetem-se ciclicamente, lembra José Luís Saldanha, pelo que a sua manutenção e reparação são constantes. Foi num desses momentos, esvaziada, que pôde ser calcorreada pelos elementos do grupo irlandês U2. Essas imagens testemunham-se em passagens do teledisco “Vertigo”, o primeiro single do álbum “How to Dismantle an Atomic Bomb”, de 2004. Conhecido como “Vertigo, Lisbon Version”, o videoclip foi filmado enquanto a banda era fotografada na região envolvente de Lisboa, entre 29 de abril e 1 de maio daquele ano pelo holandês Anton Corbijn. A capa do álbum seria feita no Restaurante Concha, na piscina da Praia das Maçãs. “O teledisco rodado em Portugal foi também um enésimo cruzamento de caminhos entre Wenders e os U2, pois o alemão realizou um par de telediscos para a banda”, situa o autor da obra.

Com 18 anos, “ainda miúdo”, o arquiteto saiu deslumbrado do visionamento de Paris,Texas. Acabaria por perder o contacto com a obra do cineasta alemão, mas o reencontro assumiu o seu ponto alto quando descobriu que O Estado das Coisas tinha sido rodado por causa da descoberta deste hotel. “Começo a investigar a sério há uma dúzia de anos. Ainda conversei com o senhor Amorim pai sobre o filme mas a própria família conhecia pouco o legado histórico.”, recorda. As primeiras pesquisas destinavam-se originalmente à produção de um artigo, que haveria de ser publicado na AA Files, revista da Escola de Arquitetura da Associação Britânica. O livro veio apenas depois. O projeto foi inicialmente lançado por outra pessoa, partilha, mas Paulo Amorim, atualmente ao leme, filho do hoteleiro que comprara o edifício em hasta pública, acabou por depositar a missão em Saldanha.

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“Outra coisa que me estimulou foi quando descobri que o incrível Jim Jarmusch faz o primeiro filme a partir das obras de filmes do Wim Wenders. É natural que Jarmusch se tornasse cineasta de qualquer maneira mas na altura não era, e só tinha feito uma longa metragem como projeto universitário. Vivia nas artes em Nova Iorque, tinha uma banda rock, os The Del-Byzanteens, e quando faz o Stranger than Paradise (1984), o filme é iniciado com o que sobra ao Wenders. Na entrevista disse-me que o Jarmusch tinha passado pelo escritório dele em Nova Iorque, pediu uma Coca-Cola, foi ao frigorífico, encontrou uma bobines lá dentro, perguntou o que era aquilo e o Wenders respondeu: “sobrou, queres?” Fria, húmida? Sim, era um pouco de Sintra para a posteridade.

[Ao décimo dia em Nova Iorque dá-se o homicídio brutal. As últimas horas, o que aconteceu no quarto 3416 e a confissão de Renato sobre como matou Carlos Castro. O acesso aos ficheiros da investigação permite reconstituir toda a investigação ao crime. Ouça o quinto episódio de “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, narrado pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir também aqui o primeiro episódio, aqui o segundo, aqui o terceiro episódio e aqui o quarto episódio]