O Holodomor de 1932/33 permanece como um dos mais brutais crime contra a humanidade alguma vez cometido em solo europeu, mas continua esquecido e silenciado nos currículos escolares e nos discursos públicos. Entre a política de coletivização forçada de Stalin e as requisições sistemáticas de cereais à Ucrânia, que então produzia mais grão do que qualquer outra região soviética, implantou-se uma fome de proporções bíblicas, onde milhões morreram de fome enquanto o Estado exportava trigo para financiar a industrialização. As estimativas oficiais variam de 3,5 a 5 milhões de ucranianos mortos, mas conferências académicas em Kiev chegaram a apontar para 7 a 10 milhões de vítimas, quando se contabilizam também crianças que nunca chegaram a nascer devido ao colapso demográfico. Apesar deste reconhecimento por parte do parlamento ucraniano desde 2006, e de mais de 30 Estados-membros da ONU terem classificado o Holodomor como genocídio, o evento raramente é lecionado fora de comunidades de origem ucraniana e só entrou no currículo obrigatório de Ontário no Canadá em 2025.
A deliberada indiferença institucional permitiu que o Holodomor fosse, por décadas, apresentado como “tragédia” ou “falha administrativa” nos manuais de história, ocultando a intenção genocida de destruir a identidade nacional ucraniana. Os arquivos soviéticos oficiais confessam um défice populacional de 1,3 milhões em 1933, mas demógrafos como Stanislav Kulchytsky, que analisou dados de nascimentos perdidos e migrações forçadas, recalcularam o impacto real em 3,2 a 3,5 milhões de mortes apenas na Ucrânia, com o total de perdas demográficas a chegar a 4,6 milhões quando se consideram todas as repúblicas afetadas. Estas discrepâncias revelam o esforço deliberado de Moscovo em suportar a tragédia para se livrar de responsabilidades, ao mesmo tempo em que promovia um discurso de laços fraternos entre povos soviéticos.
O maior escândalo moral é ver como um crime desta magnitude ficou fora das escolas europeias e norte-americanas, salvo em iniciativas isoladas de descendentes ucranianos. Até ao final dos anos 2000, grande parte dos alunos nunca passava de uma breve menção ao Holodomor, enquanto se aprofundava o estudo do Holocausto, cuja narrativa, justa e fundamental, acabou por obscurecer outras atrocidades do século XX. Em muitos países, só após campanhas de órgãos como o Holodomor Research and Education Consortium (HREC), criado pela Universidade de Alberta em 2013, é que se começou a desenvolver material didático estruturado e exercícios de reflexão crítica sobre o assunto.
Hoje, quase um século depois, a mesma Rússia que orquestrou o Holodomor continua a manipular narrativas e a apagar memórias: o governo de Putin tem promovido a remoção de monumentos às vítimas da fome e a reabilitação de heróis soviéticos, numa tentativa de reconstruir a glória de um império que justificava crimes em nome da ideologia comunista. Em simultâneo, a invasão da Ucrânia em 2022 foi legitimada pelo Kremlin com discursos de “desnazificação” e de “proteção contra o Ocidente”, ecoando o mesmo paternalismo colonial que conduziu à fome forçada. Ainda mais irónico é que, enquanto se bombardeia civis ucranianos,
Moscovo afirma-se vítima de sanções e preconceito internacional, ignorando os milhões que pereceram sob as próprias políticas soviéticas.
A hipocrisia global manifesta-se também nas “resoluções de paz” da ONU: apesar de a Assembleia Geral ter reconhecido formalmente o Holodomor como genocídio, o Conselho de Segurança continua bloqueado pelo veto russo, que impede qualquer intervenção real para proteger civis na Ucrânia. Este silêncio seletivo revela uma triste verdade: as potências preferem a conveniência dos negócios e das alianças a um compromisso consistente com a justiça histórica.
Enquanto isso, na própria Ucrânia, a reconstrução da memória continua lenta. O Museu Nacional do Holodomor, inaugurado em 2008, luta por financiamento estável, e as escolas só recentemente integraram aulas dedicadas a este capítulo negro. Sobreviventes e descendentes deslocam-se em procissões anuais para recordar os antepassados mortos de fome, mas a maioria das novas gerações europeias desconhece o significado de “Holodomor” para além de um nome estranho. E, se este genocídio continua “fora do mapa”, é porque muitos preferem ignorar a lição de que a fome fabricada é tão hedionda quanto as câmaras de gás.
Confrontar este silêncio foi o primeiro passo para quebrar o ciclo de amnésia consciente que deixa impunes os crimes de Estado. Se a comunidade internacional quisesse de facto proteger inocentes, começaria por exigir que o Holodomor fosse ensinado em cada escola, discutido em cada universidade e reconhecido em cada parlamento. Sem esse esforço, as vozes dos mortos continuarão a perder-se num vazio de indiferença, e a Rússia, que há um século violou a soberania ucraniana com a fome, continuará a repetir narrativas de vítima para justificar novos ataques.
No fim, cabe à consciência coletiva: de professores, historiadores, políticos e cidadãos, carregar o fardo da memória. Porque, como diz o ditado, “apagar o passado é condenar o futuro”. Se ocultarmos o Holodomor, estaremos a legitimar a impunidade de quem ainda hoje profana os direitos humanos em nome de ideologias esfarrapadas. E, assim, milhões de ucranianos mortos continuariam a ser meros números num livro de estatísticas, em vez de vítimas de um genocídio que jamais deve morrer na indiferença.