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(A) :: Nunca estivemos tão bem, convém lembrar

Nunca estivemos tão bem, convém lembrar

A memória histórica não serve para ocultar as dificuldades do presente, mas para impedir a instrumentalização do passado.

Luís Nunes dos Santos
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A história, com a sua obstinada teimosia, é o argumento mais sólido contra o populismo que se alimenta da amnésia coletiva, da agitação do presente e do esquecimento do passado. Esse discurso, que insiste em proclamar que Portugal “nunca esteve tão mal”, trata cada dificuldade como se fosse uma tragédia inédita. Mas os factos desmentem essa narrativa. Basta olhar para a vida dos portugueses nos últimos cinquenta anos para perceber que a retórica da decadência não resiste à prova da memória.

Em 1974, Portugal era ainda um país onde muitas aldeias permaneciam sem eletrificação, a precariedade habitacional era regra, a mortalidade infantil era elevada e a emigração, forçada. O salário médio, mesmo corrigido pela inflação e pelo custo de vida, apenas permitia uma sobrevivência austera. As viagens de avião eram para as elites, a escolaridade mal chegava ao ciclo preparatório, o acesso à universidade era um privilégio de poucos e a saúde era inexistente em largas faixas do território.

Cinquenta anos depois, o cenário é incomparável. O SNS, apesar das suas crises, universalizou-se, o que transformou profundamente as condições de saúde. A esperança média de vida subiu de 68 para mais de 80 anos e a mortalidade infantil desceu de 38 por mil para apenas 2,6, um dos melhores índices da Europa.

A escolaridade obrigatória passou para o 12.º ano, o número de estudantes universitários multiplicou-se, de cerca de 57 mil em 1974 para mais de 446 mil, a taxa de analfabetismo desmoronou-se de 25,7% em 1974 (cerca de 1,8 milhões de pessoas, 64% das quais mulheres) para 3,1% em 2025, correspondendo a menos de 300 mil pessoas.

A transformação estendeu-se também às infraestruturas. Em 1974, a rede rodoviária era limitada e perigosa, as deslocações lentas e condicionadas pela geografia. Em 2025, Portugal conta com mais de 3.000 quilómetros de autoestradas que asseguram mobilidade rápida e segura, ligando praticamente todas as regiões relevantes do território continental.

A qualidade de vida medida no acesso a bens materiais, a eletrodomésticos, transportes e mobilidade, informação e cultura, saúde, educação e nível de vida é incomparavelmente superior relativamente à geração dos nossos pais ou avós. O que era considerado um luxo é hoje de acesso generalizado e habitual.

Claro que os problemas nacionais foram acompanhando o progresso. Não se pode negar que existem problemas com que todos nos deparamos, mas lembrar que esses problemas não se explicam pelo mito favorito da cartilha populista de que “nunca estivemos tão mal”.

A memória histórica não serve para ocultar as dificuldades do presente, mas para impedir a instrumentalização do passado. Quem disser que nada melhorou ou que tudo está perdido nega as conquistas de várias gerações de portugueses.

A história mostra-nos um percurso de progressiva conquista nacional, feito de reformas difíceis, avanços lentos, mas sempre com saldo positivo face ao ponto de partida.

Estes cinquenta anos, com todas as suas contradições, são a expressão maior da capacidade nacional de crescer, de transformar, de tornar Portugal irreconhecível para quem o conheceu durante as primeiras sete décadas do século XX.

Não há populismo que resista à experiência vivida, à evidência de que a história tem sido, para os portugueses, uma estrada difícil, mas sempre ascendente. É do reconhecimento honesto deste caminho, das suas vitórias e obstáculos ainda por vencer que deve nascer o debate político sério, livre da mentira e da manipulação.

O populismo prospera precisamente porque corta o fio da memória. O discurso que diz “nunca estivemos tão mal” alimenta-se do esquecimento do ponto de partida. A política séria, em contrapartida, não nega os problemas atuais, mas reconhece-os à luz de uma trajetória longa, inscrita num processo histórico de melhoria concreta das condições de vida.

A história é um registo contínuo. E o registo mostra que os últimos cinquenta anos foram o período de maior e mais rápido crescimento coletivo da nossa história. Quem disser o contrário não está a ler o passado, está a escrever um guião de manipulação política.

Nunca estivemos tão bem, convém lembrar.