Há números que deveriam envergonhar-nos. Não indignar-nos só por um dia, enquanto fazemos scrolling rápido e alheado, mas sim envergonhar-nos mesmo no nosso âmago. Durante a operação de Páscoa de 2026, a PSP e GNR registaram 18 mortos em milhares de acidentes, largas centenas de feridos e outras centenas de condutores detidos.
O que se descreve acima é um padrão. A condução em Portugal continua a ser, em demasiados casos, uma expressão comportamental de impulsividade, baixa perceção de risco e, sobretudo, de uma relação problemática com a norma. Passar no vermelho, acelerar sistematicamente acima dos limites, conduzir sob efeito de álcool, usar o telemóvel ou simplesmente adotar uma postura errática ao volante não são exceções, são práticas banalizadas.
Do ponto de vista psiquiátrico tudo isto tem uma relevância expressiva. A condução é um comportamento complexo que envolve controlo inibitório, avaliação de risco e capacidade de adiar gratificação. Quando uma sociedade falha de forma repetida nestes domínios, não estamos apenas perante infrações rodoviárias, estamos perante um problema de regulação comportamental coletiva. Portugal conduz mal porque normalizou conduzir mal. Há uma espécie de ilusão de controlo profundamente enraizada na mentalidade coletiva: “eu sei o que estou a fazer”, “só desta vez”, “não vai acontecer nada”. Esta distorção cognitiva é conhecida, estudada e previsível. O problema é que, na estrada, tem consequências fatais.
Compare-se com a Alemanha; não porque os alemães sejam intrinsecamente mais virtuosos, mas porque o sistema não permite que o erro seja barato. Lá, infrações graves como excesso de velocidade significativo, condução sob efeito de álcool, comportamentos perigosos, podem conduzir à perda da carta e à temida Medizinisch-Psychologische Untersuchung (MPU). A MPU não é um mero formulário ou procedimento simples, mas sim um processo muito exigente com avaliação psicológica, frequentemente associado a custos elevados, longos períodos sem carta e, não raras vezes, necessidade de recomeçar todo o processo de habilitação ou falhá-lo de forma irremediável sem possibilidade de tentar outra vez. Estamos a falar de milhares de euros, de tempo e de um escrutínio minucioso da aptidão psicológica e psiquiátrica para conduzir que pode ter consequências para o resto da vida do infrator, o que é proporcional à gravidade dos horrores cometidos.
Em Portugal, pelo contrário, a punição é muitas vezes percecionada como incerta, leve ou evitável. As multas são encaradas como incómodos administrativos, a probabilidade de fiscalização é sentida como baixa. E, mais importante, raramente existe uma consequência que interfira verdadeiramente com o comportamento futuro. Ora sem consequência significativa, não há aprendizagem. Do ponto de vista comportamental, isto é um fundamento básico: o comportamento persiste quando não é devidamente penalizado ou alvo constante de dissuasão, e extingue-se quando o custo é elevado, imediato e inevitável. O que vemos nas estradas portuguesas é exatamente o oposto. Há uma baixa perceção de risco, elevada tolerância social ao incumprimento e um sistema sancionatório que, apesar de existir, não produz o efeito dissuasor necessário. Para além disso, há a componente cultural, mais difícil de legislar, mas impossível de ignorar, de que a regra é “negociável”, de que o limite de velocidade é uma “sugestão” e de que a infração é “aceitável” se não houver consequências imediatas. Mas há, elas existem, apenas são proteladas. E, muitas vezes, irreversíveis.
18 mortos em poucos dias não são números numa folha de excel ou num ecrã de telemóvel, são falhas múltiplas a nível individual, institucional e cultural. São decisões erradas que se acumulam até ao ponto sem retorno. É por isso que a resposta não pode continuar a ser tímida. É necessário policiar mais, de forma visível, consistente e imprevisível, é necessário aumentar a severidade das sanções, sobretudo nas infrações de maior risco e, talvez mais importante, é necessário aplicar avaliações psicológicas estruturadas mais complexas e intransigentes para condutores reincidentes à semelhança do modelo alemão. Nem todos os condutores têm o mesmo perfil de risco e ignorar isso é perpetuar o problema.
Conduzir é uma atividade potencialmente letal. Tratá-la como um direito absoluto e pouco regulado é um erro. Portugal precisa de melhores condutores e de um sistema que não tolere sistematicamente o erro. Até lá, continuaremos a fazer o que fazemos melhor: contar mortos em operações de festas e fingir surpresa no rescaldo.