Independente, mas figura bem conhecida no universo socialista. Tiago Antunes nunca se fez militante do PS, mas percorre os corredores do partido pelo menos há duas décadas. Começou o seu percurso político como adjunto do então secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, Filipe Baptista, seu colega de faculdade, passou por Bruxelas, regressando em definitivo a Lisboa para substituir Miguel Prata Roque, onde se tornou rapidamente um dos homens da estrita confiança de António Costa.
Depois dessa primeira experiência como adjunto de Filipe Baptista no primeiro governo de José Sócrates — com o primeiro a ser hoje advogado de Sofia Fava e a ter atualmente uma procuração do ex-primeiro-ministro para vir a defendê-lo no julgamento da Operação Marquês —, Tiago Antunes seria chefe de gabinete de João Almeida Ribeiro, o homem das “secretas” internas que se tornaria um dos colaboradores mais próximos de José Sócrates e que o antigo primeiro-ministro escolheu como secretário de Estado Adjunto (2009-2011).
Com a queda do segundo governo de José Sócrates, Tiago Antunes ruma até Bruxelas, onde trabalha de perto com o então eurodeputado socialista Pedro Silva Pereira. E é a partir do Parlamento Europeu que acompanha o regresso do PS ao poder e a formação do primeiro governo de António Costa. A saída de Miguel Prata Roque como secretário de Estado da Presidência, hoje figura conhecida do panorama mediático, abre-lhe as portas para regressar a Lisboa, passando a trabalhar diretamente com a então ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Maria Manuel Leitão Marques.
“Tem uma enorme capacidade de encontrar soluções. Há aquelas pessoas que, perante os problemas, dizem ‘não é possível’. Para o Tiago, não há impossíveis. Trabalho muito e espero dos outros o mesmo. Com ele, sabia que não precisava de estar a conferir nada. Mostrou o seu valor [num Ministério] por onde passam os diplomas que vêm de todo o governo, e onde se faz o controlo de qualidade, a simplificação e o corte da burocracia”, diria a mesma Maria Manuel Leitão Marques num perfil de Tiago Antunes publicado pela revista Visão.
No núcleo duro de Costa
A partir de 2019, no segundo governo de António Costa, Tiago Antunes tornar-se-ia secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, assumindo verdadeira centralidade no núcleo mais duro do líder socialista. Em público e nos bastidores, foi uma das peças mais importantes na resposta à pandemia de Covid-19.
“Tinha a responsabilidade da comunicação das medidas que eram decididas num ambiente onde a incerteza sobre o que se estava a aprovar foi enorme – a dúvida sobre se estávamos a fazer o suficiente ou a fazer demais. Foram anos, principalmente o primeiro, difíceis e muito pesados, com dias que não acabavam. E ainda bem que estava ali”, diria Mariana Vieira da Silva no já citado perfil de Tiago Antunes publicado na revista Visão.

Quando o PS conquista finalmente a maioria absoluta, António Costa chama a si a pasta da Europa e escolhe Tiago Antunes como secretário de Estado dos Assuntos Europeus. No papel, a escolha fazia sentido: com a invasão russa da Ucrânia, era o primeiro-ministro, de alguma forma, a dar centralidade a uma área cada vez mais decisiva. A maioria absoluta de Costa, no entanto, acabou por resistir apenas dois anos e Tiago Antunes afastou-se da política ativa desde então.
A ligação à Faculdade de Direito. Diretor da FDUL diz que cargo fica “muito bem entregue”
Ainda antes de trilhar o seu percurso político, Tiago Antunes começou a ganhar experiência na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL), na qual concluiu a licenciatura em 2001 e logo passou a professor.
Mesmo com a política a intrometer-se em vários momentos, nunca cessou a ligação à universidade, que já conta 25 anos: primeiro, como assistente entre 2001 e 2015 (terminando um mestrado em ciências jurídico-políticas em 2003 e o doutoramento em 2015, com uma tese dedicada a um “Ensaio sobre a natureza jurídica das licenças de emissão no mercado europeu de carbono”); depois, já como professor auxiliar, posição que mantém até agora.
“É um professor da Faculdade que tem tido uma presença política muito ativa, mas um professor que sempre que volta à Faculdade tem uma receção muito boa na escola”, afirma Eduardo Vera-Cruz Pinto, diretor da FDUL. Sublinhando o seu orgulho pela indicação de Tiago Antunes para o cargo de Provedor de Justiça, o responsável máximo da Faculdade de Direito considerou ter sido uma “excelente escolha” e realçou que o cargo fica “muito bem entregue”, depois do vazio deixado por Maria Lúcia Amaral desde 2025.
“[Tiago Antunes] tem colocado estas matérias dos direitos dos cidadãos na sua investigação e atividade. Tem experiência, é uma pessoa calma, gosta de ouvir e tem características adequadas para a função. Pelas características do cargo e da pessoa, parece-me um casamento feliz. Ele irá afirmar certamente os princípios do Direito, do respeito pelas regras e da interpretação do Direito a favor do mais fraco”, refere o diretor da FDUL ao Observador.
Embora defenda que “não é um cargo fácil” — até pelo seu enquadramento singular a nível institucional, isolado dos diferentes poderes (executivo, legislativo, judicial) —, Eduardo Vera-Cruz Pinto aponta para a importância da personalidade do Provedor na definição do exercício das funções.
“Tem uma tradição de ouvidor. Apesar de não ter competência para alterar decisões, é um cargo ao qual as pessoas recorrem muito com queixas, sobretudo da Administração Pública, e às vezes isso causa algum frisson e antipatia. Nenhum Governo gosta de ser criticado. Mas é um eco da cidadania. Tenho a impressão de que, pela pessoa indicada, [o cargo] vai ser desempenhado da melhor maneira possível”, resume.
Além da ligação à faculdade, Tiago Antunes, de 47 anos, tem também um percurso académico internacional. De acordo com o seu perfil no LinkedIn, é desde janeiro deste ano professor convidado na universidade Sciences Po, em Paris. Paralelamente, acumula também desde janeiro de 2025 a posição de investigador no think tank European Council on Foreign Relations e, desde setembro de 2024, de professor convidado no College of Europe, no campus de Tirana (Albânia).
Somou ainda experiências como docente na Universidade de Georgetown, em Washington, no final de 2025, e na Escola de Governança Transnacional, em Florença, que integra o Instituto Universitário Europeu. Enquanto investigador dedicou, sobretudo, a sua atenção aos temas do ambiente, do direito administrativo, do direito europeu e da energia. No início da sua carreira profissional teve ainda uma passagem pela sociedade de advogados PLMJ, entre 2001 e 2005.