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Rosalía proíbe fotojornalistas nos seus concertos em Lisboa

Rosalía não permite que os seus concertos em Lisboa sejam fotografados por fotojornalistas dos órgãos de comunicação social portugueses. Aconteceu o mesmo em todos os anteriores concertos desta tour.

João Porfírio
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A artista catalã Rosalía não permite que fotojornalistas façam cobertura fotojornalística dos concertos que vai dar na MEO Arena nos dias 8 e 9 de abril. Esta proibição não é exclusiva a Portugal, o mesmo aconteceu em todos os anteriores concertos da Lux Tour 2026.

O Observador fez no dia 23 de março de 2026 o pedido de acreditação para um jornalista e um fotojornalista para a cobertura do primeiro concerto de Rosalía em Lisboa, dia 8 de abril. Sem aceitar ou recusar, promotora Live Nation limitou-se a informar que todos os pedidos de jornalistas teriam de ter uma confirmação posterior.

Na tarde anterior ao dia do concerto, chegou finalmente a resposta da Live Nation: “Informamos que não será permitido fotógrafos nem videógrafos nesta tour”. Um membro da promotora disse ainda ao Observador que durante a noite, após o primeiro concerto, seriam enviadas aos jornais fotografias tiradas pelo seu fotógrafo oficial.

O Observador aplicará o mesmo critério utilizado noutros concertos em que foram impostas as mesmas regras: não publicará fotografias feitas pela equipa de comunicação da artista catalã porque não respeitam os critérios jornalísticos impostos pelo código deontológico dos fotojornalistas a todos os seus trabalhos. Em alternativa publicará fotografias das tours anteriores (que a artista permitiu que se fotografasse) com a informação de que não são fotografias em causa e das partilhas que serão feitas nas redes sociais de pessoas a quem o Observador pediu previamente autorização, dando a indicação aos leitores de que aquelas imagens foram tiradas por espetadores e não por jornalistas.

Ao contrário de fotojornalistas com carteira profissional de jornalista, qualquer pessoa que estiver a assistir ao concerto pode fotografar todo o espectáculo.

A ausência de fotojornalistas levanta uma questão recorrente na relação entre artistas, promotores e órgãos de comunicação social: até que ponto pode ser limitado o acesso jornalístico a eventos culturais de grande relevância pública.

A decisão de não credenciar fotojornalistas não é inédita no circuito internacional. Vários artistas optam por restringir a captação de imagens às suas  equipas, garantindo controlo total da imagem que os seus concertos passam para a imprensa. No caso de Rosalía, essa prática traduz-se na utilização exclusiva de imagens produzidas por um fotógrafo oficial posteriormente distribuídas aos media.

Num passado não muito distante dois grandes nomes proibiram repórteres fotográficos nos seus concertos em Portugal: Kendrick Lamar no estádio do Restelo e Madonna no Coliseu de Lisboa (neste caso nem o público pôde tirar fotografias, antes de entrar no recinto teve de fechar o seu telemóvel dentro de uma bolsa fechada pela organização).

Embora legítima do ponto de vista da gestão de imagem e enquadrada no direito de organização de um evento privado, esta opção tem implicações claras para o exercício do fotojornalismo. A fotografia de imprensa não se limita a documentar um espetáculo. Procura interpretá-lo, contextualizá-lo e, sobretudo, observá-lo a partir de um olhar independente e isento. Essa autonomia é um dos pilares da credibilidade jornalística.

Um dos exemplos e que também envolveu Rosalía é o facto de não haver uma única imagem na imprensa do episódio em que a cantora se sentiu mal durante um concerto em Milão e o interrompeu. Todas as imagens oficiais desse concerto omitiram por completo este episódio relevante.

As imagens produzidas por um fotógrafo oficial tendem a privilegiar uma visão alinhada com a estética e a estratégia de comunicação do artista. São fotografias irrepreensíveis do ponto de visto técnico, frequentemente pensadas para serem utilizadas por praticamente todos os jornais do mundo e, sobretudo, para existir uma coerência de marca, nesta caso da artista em palco.

Por contraste, o fotojornalista trabalha com margem para captar momentos imprevistos, explorar ângulos alternativos e construir uma narrativa visual própria. Mesmo em eventos altamente coreografados como um grande concerto, há espaço para interpretação, detalhe e contexto que escapam a uma cobertura exclusivamente institucional. É nessa diferença que reside o valor acrescentado do fotojornalismo.

A limitação do acesso não impede a cobertura mediática do evento, mas condiciona-a. Os órgãos de comunicação passam a depender de material fornecido pela própria artista, reduzindo a possibilidade de produzir conteúdo original e independente. Num cenário em que a imagem assume um papel central na informação cultural, esta dependência levanta questões sobre pluralidade e transparência.

Importa sublinhar que não está em causa o direito de um artista definir as regras do seu espetáculo. Trata-se, antes, de reconhecer que a presença de jornalistas, incluindo fotojornalistas, contribui para um ecossistema mediático mais livre e diversificado. A cobertura independente permite não apenas documentar o evento, mas também enquadrá-lo criticamente, algo essencial num espaço público informado.

Num momento em que grandes produções musicais se afirmam como fenómenos culturais de escala global, a forma como são documentadas ganha relevância acrescida. Garantir espaço para o olhar independente dos fotojornalistas é, em última análise, assegurar que o registo desses momentos não fica reduzido a uma única perspetiva.

Como descreveu Moeh Atitar, o editor de fotografia de um dos maiores jornais do mundo, o espanhol El País, precisamente sobre este caso,“o legado que deixamos para o futuro, na forma de uma crónica gráfica de um dos melhores concertos do ano, será então escasso, monótono e, sobretudo, pobre”.