Foi no último programa d’O Princípio da Incerteza da CNN Portugal, que José Pacheco Pereira lançou um ardil ao líder do Chega, André Ventura, a propósito das declarações proferidas por este na Assembleia da República nas comemorações do quinquagésimo aniversário da Constituição. Trata-se de uma armadilha, de uma armadilha de um historiador a um político: um debate entre os dois, com a duração de pelo menos uma hora, onde cada afirmação proferida por qualquer das partes durante o mesmo deve ser devidamente “provada”, ou seja, fundamentada através de documento ou de testemunho. Para começar, o comentador portuense pretende situar-se no seu próprio plano, isto é, no plano da História, disciplina com uma forte estrutura documental, seja na tradição escrita seja na tradição oral – dos factos, como refere. Por isso fala profusamente em documentos e objetos. Sendo Pacheco Pereira (PP) um homem dos papéis (no feliz retrato de António Lobo Xavier) partiria em vantagem: Ventura, jurista de formação, não dispõe nem nunca dispôs de um espólio esmagador ao nível do EPHEMERA.
PP pretende dar a entender que as questões levantadas por Ventura são da ordem da simples cronologia: há um rasto único e bastará seguir as migalhas para conhecer os fenómenos ocorridos. Tem a clara intenção de despir a disciplina de qualquer tentativa de interpretação ou fenomenologia, de hermenêutica – a História, segundo PP, é pura. Nesta pureza assenta a sapiência do preponente: ele, o único historiador presente na sala, seria, simultaneamente, testemunha, advogado e juiz. No fundo, não se estaria perante um verdadeiro debate: lição seria o termo mais adequado. PP quer que nos esqueçamos de que a discussão é política, arrumando tudo nos anais da disciplina que ele domina.
Contudo, não é a única falta de lealdade intelectual que PP faz a Ventura: o primeiro faz o possível por esconder o seu lado de agente político – de político detentor de um perfil marcadamente ideológico, antes e depois da sua expressão em cargos parlamentares e afins. Nas palavras outrora proferidas pelo mesmo, não era pela prosa que se desejava expressar por alturas do 25 de Abril, mas pela força bruta das armas. Não será de estranhar o facto de ter aderido ao PCP (m-l) de inspiração maoísta, no ano de 1972. Na sua chegada tardia às hostes democráticas, via PPD-PSD, nunca superou a condição de ser um homem de esquerda que, à semelhança do seu amigo de longa data, Rui Rio, sempre protestou intensivamente quer com a estratégia e caminhos escolhidos pelos principais líderes do partido como contra a vontade da maioria do seu eleitorado, ou seja, os muitos homens e mulheres de direita que nele votam e votaram.
A sua análise às acusações do líder do Chega não deixa de transparecer esta faceta. No fundo, não faz mais do que confirmar, contra a sua vontade, o argumentário do seu oponente, ao imprimir um cunho e um viés marcadamente político sobre uma pretensa neutralidade de Historiador. PP, aliás, salta de um papel para o outro, de historiador para político, sem escrúpulos: na sua primeira intervenção no dito programa não logra manter na sombra a convicção, à semelhança da maioria dos deputados constituintes, que tudo – ou quase tudo – deve ser permitido à esquerda e nada – ou quase nada – deve ser permitido à direita.
PP repete e enumera com total indiferença e nenhuma diferença os axiomas tradicionais impostos pelos revolucionários. Para lá do número de prisioneiros, do número de torturados e da escala de perseguidos por opções políticas, antes e depois da Revolução, temos como pano de fundo uma paisagem em que o lado socialista/marxista está do lado certo, e o outro lado nos antípodas dessa bênção axiológica. Nada diz sobre o sentido da História se ter revelado contra a Constituição e, acima de tudo, contra o PREC; o biógrafo de Álvaro Cunhal assume num tom e num imediatismo que a sua amada Clio não admitiria, que uma ditadura de direita é sempre perniciosa (no que concordamos) e sempre mais perniciosa do que o seu contraponto à esquerda. Assim, releva o atentado bombista contra Salazar enquanto frisa sobremaneira as semelhantes ações da ELP; consequente com o seu pensamento, insiste que os atos terroristas da extrema-direita nos anos setenta, até 78 segundo as suas fontes, são muito mais atentatórias contra o Direito e a Justiça do que as das décadas passadas.
PP nada revela acerca do espírito ditatorial do PREC, ou seja, de que se vivia num ambiente de terror e de intimidação constantes levados a cabo pelos seus parceiros de extrema-esquerda. Segundo a sua perspetiva, o país já vivia em plena democracia, pelo que qualquer atentado contra as instituições dominantes da época, nomeadamente os partidos e os militares detentores do poder na rua e no Conselho da Revolução, equivaleria a barbárie reacionária. Parece nunca considerar que havia combatentes e não conformados com o estado de coisas e com o caminho previsto para Portugal, que eram autênticos democratas e somente desejavam um regime realmente democrático à europeia. Jamais se parece indignar contra a tentativa de implantação de um regime totalitário em terras lusas, de um sistema tenebroso decalcado da URSS (para uns) ou da China maoísta (para outros). O historiador estava satisfeito com aquela versão de Estado, onde apenas uma parte do país mandava e detinha direitos de cidadania enquanto a restante não merecia sequer tal estatuto – por razões exclusivamente políticas.
Resulta claro que a sua cabeça de intelectual não contempla a gigante disparidade entre estes anos convulsos e os anos oitenta, em que num ambiente moderado e já regido por princípios democráticos (a revisão constitucional que elimina o Conselho da Revolução é de 1982), as FP-25 de Abril abriram as suas hostes causando a mortandade que todos conhecemos. Se por um lado não olvida esses atos terroristas, prefere relativizá-los e enquadrá-los no mesmo contexto social e político da década anterior. Aqui, vai mais longe: anuncia com convicção que, ao contrário da acusação de Ventura, não faltaram homens de coragem que perseguiram e condenaram em tribunal os terroristas de esquerda. Omite um pormenor: esses condenados viriam quase todos a ser amnistiados na Assembleia da República pelo PS e pelo PCP, contando com os aplausos da ETA, das Brigadas Vermelhas e do Grupo Baader-Meinhof.
Na sua exposição omite mais um detalhe: nenhum partido de direita aceitou participantes de grupos bombistas de extrema-direita, ao contrário de partidos como o Bloco de Esquerda que aceitaram amnistiados da sua fação.
Respondendo diretamente ao título deste artigo, Ventura não deveria aceitar o convite de PP. Estar a uma mesa, enfrentado um político com ares de historiador que desempenha o papel de historiador com o carimbo da Verdade, com a conivência dos jornalistas de serviço, é uma ratoeira. Ao ouvir PP, parece que não participou na contenda daqueles anos confusos, que não tomou opções e decisões e desempenhou ações políticas. PP, tal como nenhum historiador, consegue, de resto, ser neutro. Pretender que o consegue é a sua maior falácia.