(c) 2023 am|dev

(A) :: Ventura deveria aceitar o repto de Pacheco Pereira?

Ventura deveria aceitar o repto de Pacheco Pereira?

PP não faz mais do que confirmar, contra vontade, o argumentário do seu oponente, ao imprimir um cunho e um viés marcadamente político sobre uma pretensa neutralidade de Historiador.

Paulo Pinto
text

Foi no último programa d’O Princípio da Incerteza da CNN Portugal, que José Pacheco Pereira lançou um ardil ao líder do Chega, André Ventura, a propósito das declarações proferidas por este na Assembleia da República nas comemorações do quinquagésimo aniversário da Constituição. Trata-se de uma armadilha, de uma armadilha de um historiador a um político: um debate entre os dois, com a duração de pelo menos uma hora, onde cada afirmação proferida por qualquer das partes durante o mesmo deve ser devidamente “provada”, ou seja, fundamentada através de documento ou de testemunho. Para começar, o comentador portuense pretende situar-se no seu próprio plano, isto é, no plano da História, disciplina com uma forte estrutura documental, seja na tradição escrita seja na tradição oral – dos factos, como refere. Por isso fala profusamente em documentos e objetos. Sendo Pacheco Pereira (PP) um homem dos papéis (no feliz retrato de António Lobo Xavier) partiria em vantagem: Ventura, jurista de formação, não dispõe nem nunca dispôs de um espólio esmagador ao nível do EPHEMERA.

PP pretende dar a entender que as questões levantadas por Ventura são da ordem da simples cronologia: há um rasto único e bastará seguir as migalhas para conhecer os fenómenos ocorridos. Tem a clara intenção de despir a disciplina de qualquer tentativa de interpretação ou fenomenologia, de hermenêutica – a História, segundo PP, é pura. Nesta pureza assenta a sapiência do preponente: ele, o único historiador presente na sala, seria, simultaneamente, testemunha, advogado e juiz. No fundo, não se estaria perante um verdadeiro debate: lição seria o termo mais adequado. PP quer que nos esqueçamos de que a discussão é política, arrumando tudo nos anais da disciplina que ele domina.

Contudo, não é a única falta de lealdade intelectual que PP faz a Ventura: o primeiro faz o possível por esconder o seu lado de agente político – de político detentor de um perfil marcadamente ideológico, antes e depois da sua expressão em cargos parlamentares e afins. Nas palavras outrora proferidas pelo mesmo, não era pela prosa que se desejava expressar por alturas do 25 de Abril, mas pela força bruta das armas. Não será de estranhar o facto de ter aderido ao PCP (m-l) de inspiração maoísta, no ano de 1972. Na sua chegada tardia às hostes democráticas, via PPD-PSD, nunca superou a condição de ser um homem de esquerda que, à semelhança do seu amigo de longa data, Rui Rio, sempre protestou intensivamente quer com a estratégia e caminhos escolhidos pelos principais líderes do partido como contra a vontade da maioria do seu eleitorado, ou seja, os muitos homens e mulheres de direita que nele votam e votaram.

A sua análise às acusações do líder do Chega não deixa de transparecer esta faceta. No fundo, não faz mais do que confirmar, contra a sua vontade, o argumentário do seu oponente, ao imprimir um cunho e um viés marcadamente político sobre uma pretensa neutralidade de Historiador. PP, aliás, salta de um papel para o outro, de historiador para político, sem escrúpulos: na sua primeira intervenção no dito programa não logra manter na sombra a convicção, à semelhança da maioria dos deputados constituintes, que tudo – ou quase tudo – deve ser permitido à esquerda e nada – ou quase nada – deve ser permitido à direita.

PP repete e enumera com total indiferença e nenhuma diferença os axiomas tradicionais impostos pelos revolucionários. Para lá do número de prisioneiros, do número de torturados e da escala de perseguidos por opções políticas, antes e depois da Revolução, temos como pano de fundo uma paisagem em que o lado socialista/marxista está do lado certo, e o outro lado nos antípodas dessa bênção axiológica. Nada diz sobre o sentido da História se ter revelado contra a Constituição e, acima de tudo, contra o PREC; o biógrafo de Álvaro Cunhal assume num tom e num imediatismo que a sua amada Clio não admitiria, que uma ditadura de direita é sempre perniciosa (no que concordamos) e sempre mais perniciosa do que o seu contraponto à esquerda. Assim, releva o atentado bombista contra Salazar enquanto frisa sobremaneira as semelhantes ações da ELP; consequente com o seu pensamento, insiste que os atos terroristas da extrema-direita nos anos setenta, até 78 segundo as suas fontes, são muito mais atentatórias contra o Direito e a Justiça do que as das décadas passadas.

PP nada revela acerca do espírito ditatorial do PREC, ou seja, de que se vivia num ambiente de terror e de intimidação constantes levados a cabo pelos seus parceiros de extrema-esquerda. Segundo a sua perspetiva, o país já vivia em plena democracia, pelo que qualquer atentado contra as instituições dominantes da época, nomeadamente os partidos e os militares detentores do poder na rua e no Conselho da Revolução, equivaleria a barbárie reacionária. Parece nunca considerar que havia combatentes e não conformados com o estado de coisas e com o caminho previsto para Portugal, que eram autênticos democratas e somente desejavam um regime realmente democrático à europeia. Jamais se parece indignar contra a tentativa de implantação de um regime totalitário em terras lusas, de um sistema tenebroso decalcado da URSS (para uns) ou da China maoísta (para outros). O historiador estava satisfeito com aquela versão de Estado, onde apenas uma parte do país mandava e detinha direitos de cidadania enquanto a restante não merecia sequer tal estatuto – por razões exclusivamente políticas.

Resulta claro que a sua cabeça de intelectual não contempla a gigante disparidade entre estes anos convulsos e os anos oitenta, em que num ambiente moderado e já regido por princípios democráticos (a revisão constitucional que elimina o Conselho da Revolução é de 1982), as FP-25 de Abril abriram as suas hostes causando a mortandade que todos conhecemos. Se por um lado não olvida esses atos terroristas, prefere relativizá-los e enquadrá-los no mesmo contexto social e político da década anterior. Aqui, vai mais longe: anuncia com convicção que, ao contrário da acusação de Ventura, não faltaram homens de coragem que perseguiram e condenaram em tribunal os terroristas de esquerda. Omite um pormenor: esses condenados viriam quase todos a ser amnistiados na Assembleia da República pelo PS e pelo PCP, contando com os aplausos da ETA, das Brigadas Vermelhas e do Grupo Baader-Meinhof.

Na sua exposição omite mais um detalhe: nenhum partido de direita aceitou participantes de grupos bombistas de extrema-direita, ao contrário de partidos como o Bloco de Esquerda que aceitaram amnistiados da sua fação.

Respondendo diretamente ao título deste artigo, Ventura não deveria aceitar o convite de PP. Estar a uma mesa, enfrentado um político com ares de historiador que desempenha o papel de historiador com o carimbo da Verdade, com a conivência dos jornalistas de serviço, é uma ratoeira. Ao ouvir PP, parece que não participou na contenda daqueles anos confusos, que não tomou opções e decisões e desempenhou ações políticas. PP, tal como nenhum historiador, consegue, de resto, ser neutro. Pretender que o consegue é a sua maior falácia.