O novo filme de Carla Simón, Romaria, volta a traçar uma linha autobiográfica, não directamente exposta, após Verão 1993 (sobre a infância da realizadora) e Alcarràs (em torno das suas raízes rurais). Desta vez, temos como protagonista uma espécie de alter-ego da cineasta nos seus 18 anos — Marina/Llúcia Garcia — em viagem à Galiza, à cidade de Vigo, no verão de 2004, ao encontro dos avós paternos que ela nunca conheceu. O pai e a mãe biológicos, ambos tóxico-dependentes, morreram de sida nos anos 80, dizimados pelo “cavalo”. Marina foi então adoptada na infância por outro lar e cresceu feliz na Catalunha. De facto, Romaria traz-nos a história dos pais biológicos de Carla Simón pelo olhar de quem não os conheceu, ficção feita com coisas que vêm da vida, em que a cineasta, por interposta personagem, questiona a sua própria identidade.
Romaria é um filme mais sisudo e desorientado que os anteriores, sem a complexidade das relações familiares que Carla Simón mostrou antes — diferenças em tudo assumidas. Contra si está também um vaivém constante entre datas que revela uma estrutura ambiciosa, mas datada, que o prejudica e frustra as expectativas. Não deixa, contudo, de ser interessante pensar-se na proposta como um inquérito à memória e de ouvir a cineasta sobre o assunto. Quando o filme se estreou, no ano passado, na competição do Festival de Cannes, Carla Simón, grávida da sua segunda criança, trazia de Barcelona um barrigão de mais de oito meses. Preparava-se para abraçar um novo ciclo da sua vida, encerrando com Romaria uma trilogia autobiográfica que a firmou na última década de cinema do nosso país vizinho.
À semelhança do seu trabalho anterior, este filme, uma vez mais, está baseado na sua própria experiência de vida. O que acrescenta ele ao que já fez?
A história vem de uma parte especialmente dolorosa da minha existência por ter perdido os meus pais biológicos quando era miúda. Tal como a protagonista, também eu fiz uma viagem, no final da minha adolescência, para conhecer a família do meu pai biológico. Contudo, filme e vida são diferentes. Eu não parti da Catalunha para ir à Galiza, como a personagem da Marina, por exemplo. Fui, sim, à zona de Madrid, onde a minha família galega se instalara. A família que vemos no ecrã também não é realmente a minha. Há bastante ficção, apesar de tudo.
Ainda mantêm laços com essa parte familiar do lado paterno que só mais tarde conheceu?
Poucos laços, na verdade não os conheço assim tão bem, eram pessoas desconhecidas quando eu tinha 18 anos, são oriundos do outro lado de Espanha, não falam catalão. De facto, a coisa mais verdadeira que existe no filme é este feeling de curiosidade. Nesse ponto, Marina e eu somos a mesma pessoa. Acho que isto traz algo de realmente novo ao meu filme, um ponto de vista em que a curiosidade se sobrepõe a todas as coisas, à raiva ou à tristeza, por exemplo. Eu falava muito com os meus produtores sobre isto quando estávamos a preparar o filme: “Marina não tem conflito…”, diziam-me. É verdade. Mas ela não é uma personagem à procura de amor ou de tragédia, acho eu. Está só à procura das suas raízes. A Galiza não é apenas a terra do meu pai biológico e aquela em que os meus pais viveram a sua história de amor. É um lugar místico para mim, em que procuro algo de mim que está escondido e que, provavelmente, nunca irei encontrar.
Houve uma movida tardia na Galiza, sobretudo em Vigo, em meados/finais dos anos 80, com várias bandas rock a surgirem numa altura em que as drogas, sobretudo a heroína, faziam parte do quotidiano de muita gente. A epidemia da sida surge pouco depois. Porque decidiu retratar, mesmo em segundo plano, esta realidade que você nunca viveu?
A sensação que tenho é a de que os anos 80 foram tempos muito intensos em Espanha, pela libertação, pelo excesso, mas quase não falamos deles hoje pelo sofrimento que os anos 80 também causaram, pela destruição, pelas overdoses, pela sida e pelos mortos, que foram imensos. Ainda há um peso tremendo sobre os 80’s em Espanha. A explosão de liberdade e de felicidade após a ditadura foi tão forte que gerou também o seu lado negro. Houve um momento em que a Espanha dessa época tinha os índices mais altos de contaminação por HIV da Europa. Eu sou filha dessa geração. Este filme, mais do que uma parte da minha história, é uma tentativa de ligação com toda uma geração que teve histórias paralelas à minha. Na Vigo dos anos 80, costumava dizer-se que a cidade era a “irmã mais nova de Madrid” pela movida galega que mencionou.

Romaria é-nos apresentado como um diário, com um estilo comum ao documentário que se contamina depois pela ficção. Como é que trabalhou este aspecto?
Houve três direcções claras a explorar. A viagem de Marina, no princípo dos anos 2000, baseada na minha experiência. Aquilo que ela filma com a sua câmara de vídeo naquele tempo. E, por fim, aquilo que ela imagina que foram os anos 80. Isto foi uma experiência nova para mim. Venho de dois filmes [Verão 1993 e Alcarràs] que retrataram famílias filmadas de perto [baseadas na família adoptiva de Carla Simón], com a câmara ao ombro, muito próximas das personagens a nível afectivo, e dei-me conta de que, desta vez, não podia simplesmente repetir o mecanismo. Porque a distância não é, de todo, a mesma. Este assunto levou-me a longos debates com a directora de fotografia do filme [a francesa Hélène Louvart]. Por outro lado, Marina está sempre a mover-se de um local para outro, numa idade que a leva a descobrir-se a si própria, e ao mesmo tempo está presa entre espelhos, investigando e imaginando a vida que os pais viveram, com o diário da mãe, os lugares, os objectos, etc.
Porque detalha tanto o filme a passagem do tempo, assinalando cada dia, cada salto temporal?
Tentei fazer algo diferente a nível estrutural, uma espécie de road movie familiar que se vai desenrolando em episódios, isto é: a Marina vai conhecendo, um por um, cada interlocutor, até à cena com os avós dela, em camadas bem compartimentadas. Li algures que há qualquer coisa que geralmente se passa com os terceiros filmes em que um artista é levado a tentar algo de diferente, que o diferencie das obras anteriores. Creio que isso me tocou, de uma forma inconsciente.
Romaria também é um filme sobre o modo como a memória se manifesta em nós?
Completamente. É fascinante que o cinema possa servir para reunir as peças de um puzzle que julgávamos perdido. Acho que as nossas memórias são dinâmicas e transformam-se muito em função daquilo que, a certo momento, cada um de nós quer dizer a si próprio. Marina, por exemplo, faz perguntas, ouve o que os mais velhos têm para contar, filma lugares, a experiência é, por vezes, frustrante, não combina — lá está, há peças do puzzle que ainda não encaixaram. Ela está a procurar imagens que não tem na cabeça. Mas a câmara que ela leva consigo ajuda-a a fixar qualquer coisa. Aconteceu-me o mesmo. O cinema ajuda-nos a inventar memórias. É uma máquina de criar recordações. E, neste sentido, Romaria foi, para mim, um filme-revelação. A um nível mais pessoal, fazer este filme também me ensinou bastante sobre o vício e a toxicodependência. Marcou-me o facto de perceber que o meu pai biológico, pela sua ligação à heroína, jamais conseguiria fisicamente exercer uma função paterna. Porque a minha família adoptiva, para suavizar, dizia-me outra coisa quando eu era criança: que ele gostava de viver de uma forma diferente…
Todos os seus filmes até à data são declinações subtis da sua própria vida. Agora que está grávida, talvez se abra um novo ciclo e chegue um momento, na sua carreira profissional, em que queira contar outras coisas. Já pensou nisso seriamente? Numa “ficção sem si”?
Será o próximo passo. Quando vim para Cannes, disse-me que não era improvável, dado o estado avançado da gravidez, que acabasse por dar à luz aqui — será a minha segunda criança — fechando este ciclo para começar outra coisa. Estou a trabalhar agora num musical de flamenco, o que em parte responde à pergunta.
Acha que a Espanha está bem reconciliada com o seu passado? E as novas gerações, crê que querem falar disso? Ou preferem esquecer?
Não tenho a certeza. E não estou tão próxima quanto queria dos adolescentes de hoje, embora dê aulas, por vezes, e goste da abertura e da curiosidade juvenil. O que sinto é que a Espanha não é e nunca foi forte a lidar com a sua memória histórica. A Guerra Civil tornou-se quase uma sombra, um tema a que ninguém quer realmente voltar. Também não sinto que o país queira olhar outra vez para os seus anos 80, como se essa década — também devido ao terrorismo — rimasse agora com algo que nos incomoda profundamente.
A última questão vai para a actriz: onde encontrou Llúcia Garcia, que interpreta Marina?
É o seu primeiro papel. Procurámos uma actriz num longo casting que durou quase 9 meses. Encontrámo-la por acaso, na rua, tinha acabado de sair do autocarro e vinha de mochila às costas, de uma reunião de um agrupamento de escuteiros em Barcelona. Convidámo-la a participar nas nossas audições. A pessoa escolhida teria que interpretar dois papéis no filme: Marina, nos anos 2000, e a mãe dela, nos anos 80. Vimos muitas raparigas que nos convenceram num papel, ou noutro, mas nenhuma se adaptava aos dois. Até que Llúcia apareceu. Ela estuda filosofia, nunca tinha interpretado. Passámos um mês em minha casa, nos ensaios. Foi uma escolha minha, puramente intuitiva. Tocou-me a sua mistura entre inocência e maturidade, revi nela a pessoa que eu era aos 18 anos.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.