O rapper norte-americano Kanye West foi proibido pelo Governo britânico de entrar no Reino Unido devido a declarações anti-semitas que fez nos últimos anos, noticiou a BBC. Perante a proibição da entrada do ‘rapper’, agora conhecido como Ye, o Festival Wireless — no qual tinha três atuações marcadas — foi cancelado, anunciou por seu lado a organização.
“O Ministério do Interior revogou a Autorização Eletrónica de Viagem (ETA) de Ye, negando-lhe a entrada no Reino Unido”, diz o comunicado da promotora Festival Republic. “Como resultado, o Festival Wireless foi cancelado e serão emitidos reembolsos para todos os portadores de bilhetes”.
Kanye West, de 48 anos, que tem um concerto marcado para o Estádio do Algarve, em agosto, pediu na segunda-feira uma Autorização Eletrónica de Viagem para entrar no Reino Unido, mas o pedido foi negado porque “a sua presença não é de interesse público”, noticiou hoje a BBC, citando o ministério britânico do Interior.
https://observador.pt/2026/03/20/kanye-west-anuncia-concerto-no-estadio-do-algarve-a-7-de-agosto/
O rapper estava anunciado como cabeça de cartaz para as três noites do Wireless, marcado para os dias 10 a 12 de julho, no Finsbury Park, em Londres. Hoje, a Festival Republic, no comunicado sobre o cancelamento do Wireless, adianta que “foram consultadas várias partes interessadas antes da contratação de Ye e não foram levantadas preocupações na ocasião” e que “o anti-semitismo em todas as suas formas é abominável e reconhecemos o impacto real e pessoal que estas questões tiveram”.
O primeiro-ministro britânico já reagiu à decisão da proibição da entrada do artista, afirmando que “Kanye West nunca deveria ter sido convidado para ser a atração principal do Wireless”. “Este governo está firmemente ao lado da comunidade judaica e não vamos parar na nossa luta para enfrentar e derrotar o veneno do anti-semitismo. Tomaremos sempre as medidas necessárias para proteger o público e defender os nossos valores”, escreveu Keir Starmer na rede social X.
Kanye West should never have been invited to headline Wireless.
This government stands firmly with the Jewish community, and we will not stop in our fight to confront and defeat the poison of antisemitism.
We will always take the action necessary to protect the public and…
— Keir Starmer (@Keir_Starmer) April 7, 2026
A polémica com a confirmação de West neste festival deve-se ao facto de, nos últimos anos, ter não só feito várias declarações incendiárias e de conteúdo anti-semita como até ter lançado músicas como Heil Hitler em 2025 e ter tentado vender t-shirts com simbologia nazi num site entretanto removido.
Em janeiro, o rapper pediu desculpa num anúncio no Wall Street Journal, afirmando que “não era nazi nem anti-semita” e que o seu comportamento se devia a um episódio bipolar. “Lamento e fico aterrorizado pelas minhas ações nesse estado, e estou comprometido com responsabilização, tratamento e mudança significativa. Ainda assim, isso não perdoa o que fiz. Não sou um nazi ou um antissemita. Adoro pessoas judias. À comunidade negra — que me segurou por todos os altos e baixos e durante os tempos mais tenebrosos. A comunidade negra é, sem dúvida, a fundação de quem sou. Lamento imenso ter-vos deixado ficar mal. Adoro-vos”, escreveu.
https://observador.pt/2026/01/26/nao-sou-um-nazi-ou-um-antissemita-kanye-west-faz-pedido-publico-de-desculpa-por-acoes-que-destruiram-a-sua-vida/
Num novo ato de contrição, West divulgou hoje um comunicado em que afirmava estar ciente da polémica. “O meu único objetivo é ir a Londres e fazer um concerto que promova a mudança, trazendo união, paz e amor através da minha música”, lia-se no comunicado publicado na comunicação social britânica. “Gostaria de ter a oportunidade de me encontrar pessoalmente com membros da comunidade judaica do Reino Unido para a ouvir. Sei que as palavras não são suficientes. Terei de demonstrar a mudança através das minhas ações”, escreveu.
Ye says he "would be grateful" to meet members of the Jewish community in the UK after controversy over his headline booking at this year's Wireless Festival:
"To Those I've Hurt: I've been following the conversation around Wireless and want to address it directly. My only goal… pic.twitter.com/6Zfl5PfS3S
— Kurrco (@Kurrco) April 7, 2026
A reação de Starmer não foi a primeira em relação a este caso. O primeiro-ministro já tinha condenado o convite ao rapper num artigo publicado no jornal The Sun, no fim de semana, considerando “profundamente preocupante” que West tivesse sido contratado, “apesar das declarações anti-semitas e dos elogios ao nazismo no passado”.
A ministra da Educação britânica, Bridget Phillipson, alinhou pela mesma mensagem esta segunda-feira, citando as declarações “completamente inaceitáveis e absolutamente repugnantes” que o artista fez sobre judeus. O presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, criticou igualmente as declarações do músico e salientou que a autarquia não estava envolvida no festival.
A recusa à vinda de West recolheu apoio generalizado dos vários quadrantes políticos do país, à exceção da extrema-direita, com o líder do Reform, Nigel Farage, a afirmar que o Governo não deveria proibir Kanye West de entrar no Reino Unido. “Se começarmos a proibir pessoas de entrar no país só porque não gostamos do que dizem, receio saber onde isso vai parar… é um caminho perigoso a seguir”, afirmou.
???? WATCH: Nigel Farage says the Government shouldn't ban Kanye West from coming to the UK
"If we start banning people from entering the country because we don't like what they say, I worry where that ends up… it's a dangerous path to go down" pic.twitter.com/M1NFkvuND5
— Politics UK (@PolitlcsUK) April 7, 2026
Várias organizações judaicas também já tinham pedido ao governo britânico que proibisse a entrada do rapper no Reino Unido. Em resposta à confirmação de Kanye West como cabeça de cartaz do Wireless, dois dos patrocinadores, a Pepsi e Diageo, retiraram os seus apoios ao festival.
A Festival Republic, que organiza o Wireless, faz parte da Live Nation Entertainment, que se apresenta como “a maior empresa de entretenimento ao vivo do mundo” e opera em várias frentes nesta indústria, em diferentes países, incluindo Portugal.
O concerto de West em Portugal, anunciado pela BOL, está marcado para 7 de agosto, no Estádio do Algarve, em Loulé, e acontece no âmbito da digressão mundial do rapper, com várias datas na Europa, na sequência da edição do seu novo álbum, Bully.