Depois de um dia quente de pressões ao Governo, o primeiro-ministro escolheu um dia chuvoso em Tomar para uma nova versão do momento guarda-chuva. Horas antes da reunião a dois, em Tomar, Luís Montenegro fez um discurso em que tentou amaciar, com vários elogios, António José Seguro. Num momento raro, o País assistiu ao primeiro-ministro a comentar (e avaliar) as Presidências Abertas do chefe de Estado, ao registar como “positivas as intervenções” do Presidente, que classificou como “impulso construtivo“. Perante tamanhos elogios, Seguro ainda deixou margem para uma intervenção futura, mas fez uma promessa: “O meu contributo é ajudar a encontrar soluções, não é arranjar problemas”.
Montenegro não podia deixar Seguro cinco dias, sem contraditório, a dizer que os apoios estão atrasados e aproveitou a reunião desta terça-feira para marcar uma posição e dizer: São Bento e Belém pensam da mesma forma. Em vez de escolher a crítica velada, optou por uma versão elogiosa, quase melosa. Na assinatura de protocolos da Estrutura de Missão para a recuperação da Região Centro, e minutos antes do Presidente discursar, Montenegro começou por dizer que a escolha daquele local para as Presidências Abertas revelava a “especial sensibilidade social do senhor Presidente”.
Mas não ficou por aí. Acrescentaria ainda que António José Seguro, ainda antes de ser Presidente, sempre foi “uma personalidade política que há alguns anos vem cultivando variadíssimas intervenções de valorização da coesão territorial“. E, mostrando uma cumplicidade com o Presidente da República, registou as diferenças para os sofisticados jogos políticos que marcavam a relação com Marcelo: “Temos conversado os dois muitas vezes neste sentido. Nós não precisamos de nenhum jogo de passa-culpas ou responsabilidades, nem de estar à procura de querer contribuir para nenhum tipo de polémica, à volta dessa responsabilização. Queremos é resolver os problemas.”
Montenegro fez ainda questão de elogiar Seguro em matérias da gestão diária da relação entre São Bento e Belém, ao dizer que “o Presidente da República tem sido de uma cooperação inexcedível no tratamento mais célere dos procedimentos legislativos, para que possam entrar em vigor de forma mais rápida.” Lembrou ainda que desde que Seguro o informou das Presidências abertas deixou “toda a disponibilidade” do Governo para participar em ações que Belém considerasse úteis. Montenegro foi claramente além da cooperação estratégica e da cordialidade prometida com Belém.




Seguro promete que não será força de bloqueio (mas deixa margem para avaliação futura)
Depois de tantos elogios, António José Seguro falaria apenas quatro minutos, dois deles para responder diretamente aos desafios de Montenegro de darem os dois as mãos em nome do objetivo maior de ajudar as populações. E prometeu não ser uma força de bloqueio: “Bem sei que o poder Executivo pertence ao Governo, mas o meu contributo na Presidência Aberta é ajudar a encontrar soluções, não é arranjar problemas. Concentremos todos os nossos esforços, de todos os órgãos do Estado, incluindo os órgãos de soberania, para que as pessoas recuperem a sua vida normal”.
Apesar disso, experiente, Seguro não se deixou enredar na cantiga de Montenegro e quis deixar margem para uma avaliação futura ao avisar que “a solidariedade dos portugueses não pode dispensar a responsabilidade do Estado. Estamos aqui, e em particular o senhor primeiro-ministro, para assumir essa responsabilidade.” Mas logo complementou que “não é este o momento de fazermos nenhuma avaliação.”
Antes da lisonja, a pressão viva (à boleia do PS)
Antes de estar frente a frente com Luís Montenegro, António José Seguro seguia com uma manhã que mantinha a pressão alta sobre o Governo para acelerar os apoios às populações e empresas afetadas. O Presidente jurava que não era pressão, mas era. “Não se trata de pressão”, começou textualmente por dizer no único momento que falou com microfone fixo em Casais de São Bento, Mação. Mas a seguir deixava o aviso: “Se há apoio, se há dinheiro, uma das minhas obrigações é dizer: ‘Menos palavras, mais ação’. Para que o dinheiro chegue rapidamente às pessoas”. Na mesma ocasião, Seguro disse mesmo que é “óbvio que as ajudas em alguns casos tardam em relação àquilo que as pessoas precisam.“

Logo na primeira ação da manhã, em Seiça, Ourém, o Presidente aproveitara a visita a casas destruídas pela tempestade para exigir a aceleração da chegada dos fundos às pessoas: “Estamos no terreno no sentido de os apoios virem mais depressa”. O Presidente falou também com uma idosa emocionada que ainda não tinha casa e prometeu agir: “Não quero que chore. Estamos aqui para ajudar”.

“Se as câmaras tivessem mais meios, teriam feito melhor”
Pouco depois, em visita ao Centro de Saúde de Ferreira do Zêzere, o Presidente da República ouviu o presidente da câmara Bruno Gomes, eleito pelo PS, a exigir “mais celeridade” nos apoios. Seguro foi complementando as palavras do autarca com reforços positivos, que eram também mais achas para a fogueira: “Muito têm feito as câmara e as juntas de freguesia. Se tivessem mais meios, certamente teriam feito muito melhor”. Ora, se as câmaras não fizeram por não ter meios, por exclusão de partes a culpa só pode ser do Estado central. Leia-se: do Governo.
Bruno Gomes continuava depois, em tom crítico, a dizer que “falta planeamento a este país”. O Presidente da República aproveitava a deixa: “Concordo muito. Precisamos de planeamento e organização. Somos muito bons no improviso, temos de ser melhores na organização. Não há milagres, mas com planeamento pode o Estado responder de forma mais eficiente e eficaz”.
Seguro já não foi mais longe na hora em que se tinha de comprometer politicamente com políticas públicas, não fosse, em coerência, ter mais tarde de vetar (ou promulgar) algum diploma. Enquanto visitava o aeródromo de Ferreira do Zêzere, onde estavam dispositivos da Proteção Civil, Bruno Gomes voltou à carga, com nova reivindicação para o Presidente: “Defendemos a continuidade dos comandos sub-regionais, cuja extinção está prevista. O município fez um investimento grande, a comunidade intermunicipal também. Seria um retrocesso”.
O Presidente ficou pensativo e questionou: “É já falaram com o Governo sobre o assunto?” Ao que o autarca respondeu que “o secretário de Estado da Proteção Civil sabe o que pensamos e o ministro [Luís Neves] esteve cá há uma semana também”.
O Presidente continuava sem nada dizer de forma clara sobre o assunto e Bruno Gomes continuava a explicar que “a resposta à tempestade provocou que os comandos sub-regionais funcionam. Podem não funcionar noutras zonas do País, mas no Médio Tejo funcionam”. Seguro lá acabaria por responder, mas sem se comprometer: “Tomarei nota da sua posição”.
António José Seguro não quis revelar se ia levar estes temas à reunião com Luís Montenegro, pouco depois. Continuou a preferir deixar esse tema sob reserva, apesar de, no dia anterior, ter dito aos manifestantes de Pedrógão Pequeno que ia pressionar a reabertura de um troço encerrado da Nacional 2 nessa mesma reunião. Sugeriu, no entanto, que nos bastidores é mais exigente do que publicamente: “Posso garantir que o Presidente da República não deixará perguntas por fazer: umas em público, outras em privado”.
