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PSP pediu reforço policial junto à AIMA dos Anjos, devido ao elevado número de pessoas e tentativas de ultrapassar a fila

Tentativas de 'furar filas' e a grande afluência à AIMA nos Anjos levaram a PSP a pedir um reforço policial numa ação preventiva para conter tensões e garantir ordem entre centenas de pessoas.

Marta Ramos
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A PSP reforçou na manhã desta terça-feira a presença junto à AIMA, após mais uma vez se registarem grandes filas e relatos de que havia pessoas a tentar passar à frente. Ao Observador, a PSP explica, porém, que se tratou de um reforço preventivo.

Uma hora e meia depois de a delegação da AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) nos Anjos abrir (9h30) a fila de pessoas à espera de senha de atendimento ia desde a porta do edifício na Rua Álvaro Coutinho e estendia-se pela Almirante Reis até à entrada do metro dos Anjos.

O subintendente da PSP, Sérgio Soares, falava em cerca de 500 pessoas e de alguns indivíduos que tentavam ultrapassar outros. Por isso os dois polícias da PSP que estavam no local, pediram uma equipa de reforço “suficiente para ajudar a controlar as filas e o número elevado de pessoas”.

Depois desse reforço chegar, por volta das 8h00, conseguiram novamente normalizar a fila. Sérgio Soares garante que esta ‘ajuda extra’ foi feita de maneira meramente preventiva, não tendo havido qualquer ocorrência de incidentes ou altercações físicas. No local, um dos PSP apenas avançou que a equipa de reforço (composta por 3-4 polícias) esteve presente entre 30 minutos e uma hora.

Uma segurança, que preferiu manter o anonimato, explicou que desde que “a loja de Telheiras fechou”, os casos têm sido reencaminhados para os Anjos. Mas sublinha que a delegação “não tem capacidade para atender tanta gente” e que apesar de hoje [terça-feira] ter sido chamado o reforço, devido à grande afluência, garante que “ontem [segunda-feira] esteve muito pior”. A trabalhar no local desde outubro de 2025 lamenta: “Todos os dias é a mesma coisa”. 

Por volta das 10h00 foi anunciada a ‘libertação’ de 30 senhas, tendo a notícia gerado algum tumulto na fila. Um indivíduo que alegou ter saído durante uns momentos para se abrigar da chuva, voltou ao seu suposto lugar quando a fila recomeçou a mover-se, porém as reações dos que o circundavam foi imediata, com vários a acusá-lo de estar a “furar a fila”. Perante a troca de acusações e o crescente tom agressivo, especialmente entre o homem que terá saído da fila e outro que lá estava “desde ontem à noite”, um dos polícias da PSP no local teve de intervir para apaziguar a situação, tendo o primeiro sido ‘obrigado’ a ir para o fim da fila. Não houve, portanto, qualquer altercação ou incidente mais grave.

Anish Karki, nepalês de 25 anos está em Portugal há cinco anos e meio e já está bem familiarizado com as longas esperas na AIMA. Na fila desde as 5h30, relata que nos últimos tempos já esteve “cinco vezes na AIMA no Marquês de Pombal” e que esta é a segunda vez esta semana que está na dos Anjos. Anish diz estar na fila porque “o website [da AIMA] nunca funcionou” com ele, pelo que tem de tratar da questão presencialmente. E apesar de “quase sempre ter conseguido entrar”, manifesta o seu desagrado com o tempo demorado: “Esta fila é só para conseguir entrar. Lá dentro há outra fila onde temos de esperar mais duas horas só para sermos atendidos”.

Mais atrás e também à espera desde as 7h15, Marisa Fernandes, brasileira de Florianópolis, de 63 anos, chegou em 2021 a Portugal, tendo na altura tratado do seu processo em Braga, ainda “na época do SEF”, onde relata nunca ter tido de esperar em filas e ter sido “muito bem atendida”. “Hoje é que nós estamos com esta dificuldade, com a AIMA mudou tudo”, acrescenta. Embora nunca tenha vivido ou assistido a confrontos físicos nas filas de espera, Marisa qualifica a experiência como algo “constrangedor” e “humilhante”, enquanto se protege com um guarda-chuva, não da chuva, mas de detritos de um andaime que estava a ser desmontado por cima dela.  E elabora: “Há um monte de percalços que a gente passa aqui numa fila, as pessoas te empurrando, as pessoas te olhando com um olhar diferente porque você está na porta dos estabelecimentos e eu acho que ninguém se sente bem em ver-nos aqui na frente atrapalhando a entrada dos próprios comércios”.

Shahzad Ali, do Paquistão, de 38 anos, trabalha num minimercado desde que chegou há 10 anos. Na fila desde as 8h30, diz que esta tem sido uma experiência regular: “Quase duas vezes por mês nos últimos tempos”. Relata a experiência dura que é ter de estar dias inteiros à espera de senha, muitas vezes sem comer, sem beber, sem ir à casa de banho, e tudo isto sem ter a certeza se conseguirá “entrar”. Shahzad diz ainda que “às vezes as pessoas não têm paciência”, mas que geralmente tudo corre tranquilamente. Sublinha que, “porque há muita gente” nas filas de espera, a presença da polícia “também ajuda”, salientando que “até hoje nenhum polícia foi desrespeitoso” com ele ou com as pessoas que estão à espera.

E à semelhança de Marisa deixa uma crítica à AIMA, afirmando que a agência “não sabe organizar”, “não funciona mais. O SEF tem de voltar”.