Marcelo Soares começou a fazer stand-up comedy com 19 anos, era então estudante de Artes Plásticas e Multimédia na Universidade de Évora. Em festas e jantares de curso arriscava contar umas piadas, mas nunca levou o hobbie muito a sério e jamais pensou poder ganhar dinheiro dessa forma. Natural de Tavira, foi aí que começou a dar aulas de Educação Visual e Tecnológica a alunos de segundo ciclo. E foi também na cidade algarvia que, em janeiro de 2025, inaugurou uma das poucas noites de comédia regulares então disponíveis no Algarve.
Com sessões mensais no Clube de Tavira, uma associação cultural com 150 anos localizada no centro da cidade, a longevidade do Tavira Comedy Club foi curta, apesar do sucesso alcançado: a sala enchia quase todos os meses, mas um mestrado em Ensino de Artes Visuais na Faculdade de Belas Artes de Lisboa obrigou à interrupção do evento, que Marcelo espera ser temporária. “Assim que puder, vamos retomar, isso é garantido”, afirma.
Até lá, a região mais a sul de Portugal e também uma das mais turísticas do país deve permanecer um “deserto” a nível cómico, salvo as raras visitas de humoristas aos teatros locais — segundo aquilo que o Observador apurou, a sul de Évora não existem espaços com sessões de comédia frequentes, um claro contraste face à situação que se vive nas cidades do Porto e de Lisboa, onde é possível assistir a stand-up comedy diariamente (ou quase).
Um fenómeno emergente nos centros urbanos, a comédia em palco é um evento cultural cada vez mais mobilizador, nomeadamente de faixas etárias mais jovens, perante as quais concorre com a mais tradicional ida ao teatro ou ao cinema. Na capital, são várias as sessões de open mics (onde os humoristas testam material cómico, que podem aproveitar para futuros espectáculos a solo) que esgotam semanalmente, e com o aumento da procura também a oferta tem mostrado ser cada vez maior: em Lisboa, há no mínimo 15 espaços que recebem comediantes com regularidade, em português e inglês, assim como no Porto. O desafio de aproximar a comédia ao vivo das pessoas é bastante maior nas periferias e no interior do país, que, com maior ou menor sucesso, começam a seguir uma tendência que já é generalizada nas duas maiores cidades. Mas haverá futuro nesta tendência?
“As pessoas não se importam de ficar de pé a assistir”
Quando Marcelo propôs dinamizar noites de comédia no Clube de Tavira, foi recebido com entusiasmo. Já em 2017, Sandro Pires, um professor de teatro com experiência em televisão, havia organizado eventos semelhantes e alcançado algum sucesso, antes de se mudar para Lisboa. A estreia de Marcelo no espaço recreativo contou com o apoio da associação cultural Ria Inquieta e vendeu 120 bilhetes, mais do que os 108 lugares disponíveis na sala nobre. “As pessoas não se importaram de ficar em pé a assistir”, afirma. “Depois, a necessidade fez a procura e, como é uma cidade pequena, acabaram por querer mais e perguntar-me quando é que era o próximo espectáculo.”
Em pouco tempo, Marcelo conseguiu concretizar o seu objetivo inicial: dar espaço aos humoristas algarvios e permitir a um público com acesso limitado à cultura a possibilidade de ver comédia ao vivo. “Não havia sítios para atuar na região”, refere. “Existiam cerca de 5 ou 6 pessoas que gostavam de fazer [humor] com mais regularidade e não tinham possibilidade de percorrer 300 quilómetros, beber duas cervejas, falar 15 minutos e regressar”, só para irem a um open mic noutra parte do país. A iniciativa foi apadrinhada pela associação cultural, que sempre disponibilizou o material técnico necessário, desde cabos a microfones, “arranjaram tudo, as melhores condições e até refeições”, nalguns casos.

Geralmente no primeiro sábado do mês, as sessões pressupunham a compra de um bilhete no valor de 8 euros para sócios e 10 para o público em geral, com bebida incluída, além do cartaz de entertainers diversificado — que Marcelo contactava através de um grupo de WhatsApp com “centenas” de humoristas. Para cada edição, angariava quatro a cinco pessoas e apresentava-as na qualidade de MC (sigla para mestre de cerimónias, aquele que aquece a plateia e introduz as atuações). “Muitas vezes, o pessoal ficava na minha casa a passar a noite ou mesmo no próprio clube”, refere o fundador do Tavira Comedy Club, que ainda oferecia a alimentação e deslocações dos comediantes, além de lhes pagar pelo serviço prestado. “Já fui atuar a Lisboa e nem uma água me deram”, reconhece. “Isso é terrível e esforcei-me por dar alguma qualidade [ao evento]. Queria que Tavira ficasse conhecida no mapa por receber bem.”
Apesar disso, conseguiu obter lucro logo no primeiro mês, o que “foi uma surpresa incrível”. “O pior mês que tivemos foi março de 2025 e mesmo assim conseguimos 70% de lotação. Foi sempre muito bom”, reconhece o comediante amador. O próximo desafio, quando, num futuro incerto, retomar as noites em Tavira, é captar público estrangeiro. “Tenho a certeza de que, no dia em que houver comédia em inglês, vamos ter casa cheia. Os estrangeiros que não estão de férias, eles vão a todas.”
Mas, para já, as ambições de Marcelo na comédia devem permanecer na gaveta, até concluir o mestrado em 2027. Lamenta a decisão de abandonar o projeto, que ainda tentou manter à distância, sem sucesso. “Foi uma pena termos de interromper”, confessa. “Mas é difícil arranjar alguém que esteja disposto a fazer este papel todos os meses. Há falta de disponibilidade e não somos humoristas profissionais, cada um tem a sua profissão, há meses em que dá, outros meses que não.”
Um “oásis” entre Coimbra e o Porto
Em Espinho, um projeto parecido emergiu em 2021, da iniciativa de João Nuno Mendes. Natural da cidade costeira localizada no distrito de Aveiro, aventurou-se pela produção de espectáculos de comédia em julho de 2021, quando foi anfitrião da noite Humorama. O evento “encheu” a sala principal do Centro Multimeios de Espinho, com a lotação a metade devido à pandemia de Covid-19.
João Nuno trabalhava na área de formação em engenharia do ambiente quando o mundo parou, em 2020. Ficou desempregado depois do início do confinamento e, sem nada para fazer, inscreveu-se num curso de stand-up comedy. Apesar de não ter participado no espectáculo final, que não chegou a acontecer por razões óbvias, adorou a experiência e começou a planear o Humorama em Espinho. As 140 pessoas que assistiram recordam uma noite memorável, apesar de interrompida antes de chegar ao fim. “Teve de ser acabado à pressa porque os teatros e salas de espectáculos tinham limite de horário às dez da noite”, admite o anfitrião. “Um dos comediantes ia a meio de um bit e tivemos de fechar”. A recompensa pelo fim abrupto chegou instantes depois, quando distribuíram bolas de Berlim à saída da sala. “Fizemos uma parceria com uma pastelaria. Quando as pessoas saíram da sala havia 200 bolas de Berlim à porta.”

Apesar do sucesso do evento, as tentativas de João Nuno para repetir a proeza nos anos seguintes foram frustradas. “Na altura, [o projeto] foi completamente ignorado e descredibilizado porque não houve grande interesse da Câmara Municipal”, recorda. Identificando uma fatia do país, entre o Porto e Coimbra, sem acesso a sessões de comédia frequentes — mais de 100 quilómetros de “deserto” humorístico —, procurou um estabelecimento que pudesse apresentar humoristas na sua cidade.
A solução um bar situado em cima da Praia da Baía, onde João Nuno organizou cinco noites de comédia em meses consecutivos: “Acho que meti uma média de 75 pessoas por noite em pleno inverno, em cima da areia”. Depois de maio de 2023 — mês da última data do Espinho Comedy Club no espaço —, os donos do bar disseram-lhe que não planeavam abrir durante as noites de verão, decisão que se estendeu ao inverno seguinte. “Espinho é uma cidade, eu diria, quase 100% turística”, reconhece João Nuno. “Os estabelecimentos e negócios da cidade vivem para aqueles quatro meses de verão. Tudo o que não é uma necessidade, é descartável.”
Mais de dois anos passaram até que conseguisse reanimar o projeto, em outubro de 2025. Durante esse tempo, afirmou-se como humorista e atualmente é regular no FeRRO Comedy Club, um espaço de referência no Porto. Em Espinho, foi no bar Hélice, propriedade do Aeroclube da cidade, que conseguiu agendar novas sessões de comédia. O espaço era muito mais pequeno do que o precedente e não possuía o aparato tecnológico necessário, motivo pelo qual João Nuno foi obrigado a fazer um investimento significativo. Os comediantes convidados, “pessoas de confiança” do anfitrião, atuaram pro bono em três noites de casa cheia, mas foi sucesso de pouca dura. “Para sorte minha, os donos já estavam meio picados uns com os outros, então trespassaram o bar. Fiquei de novo sem noites.”
Numa cidade habituada ao verão, João Nuno desistiu de procurar um estabelecimento para fazer comédia. “É difícil, porque eu já andei quilómetros e quilómetros em Espinho, a ver se me estava a falhar alguma coisa”, sem sucesso, admite. “Tenho de andar para a frente. Não sou produtor, sou comediante.” Na eventualidade de um lugar disponível lhe cair no colo, admite retomar o projeto e ter longevidade. Um “oásis” entre Coimbra e Porto, Espinho tem tanto turismo no verão, que acredita ser possível organizar stand-up em inglês, ou até mesmo francês, durante as quatro semanas de agosto.
Escassez de espaços culturais
No Alentejo, a situação é bastante diferente. “Quando saímos da área metropolitana de Lisboa e do distrito de Setúbal [para sul], é um deserto autêntico”, confirma João Alves, humorista natural de Setúbal, que tem procurado levar a comédia ao vivo para o interior do país, menos turístico e desertificado. Um dos locais de eleição é a cidade de Évora, onde fundou o Évora Comedy Club — suspenso desde o ano passado — na Sociedade de Harmonia Eborense, uma associação situada na praça principal da localidade. A iniciativa somou-se às sessões já extintas em Faro e ao Comediem Club em Palmela, com quem organizou um circuito pelo Alentejo e pelo Algarve. “Fizemos oito espetáculos em nove noites. Desde Reguengos [de Monsaraz] até Tavira, passando por Beja, Évora, Castro Verde, Messines e Faro”, recorda.
Humorista de profissão, “full-time enquanto o público permitir”, João Alves relata o sucesso das noites na capital do Alentejo Central, que atraíam fãs de comédia de toda a região, “do Redondo, de Reguengos, de Aljustrel, pessoas que faziam uma hora de carro para ver um espectáculo semiprofissional de stand-up comedy às dez e meia da noite, numa sociedade sem alternativa”. Na sua opinião, é inegável que existe público, a maior dificuldade é a escassez de espaços culturais.

Se qualquer localidade por mais pequena que seja tem um anfiteatro ou auditório, João admite que muitas vezes os “espaços municipais funcionam como quintais das vereações e dos executivos camarários” e estão indisponíveis para prestar serviço à comunidade. “[Em Évora] estávamos a fazer serviço público, porque em todo o distrito, em Beja, em todo o Alentejo, mesmo dentro do Algarve, não há stand-up comedy de forma regular. Não existe”, reconhece o humorista.
O movimento associativo é uma alternativa — viável nos casos de Tavira, Évora e Faro —, mas pouco expressivo, pouco dinâmico e com orçamento limitado, segundo João. As sessões de Évora foram interrompidas justamente porque a Sociedade Harmonia Eborense estava com dificuldades financeiras, que, João espera, possam ser resolvidas quanto antes. “Dentro do canal Horeca [acrónimo para Hotelaria, Restaurantes e Cafetaria] e do circuito de bares, também existe pouca coisa”, afirma. Além disso, ainda que haja procura, as pessoas que habitam fora dos grandes núcleos urbanos “estão habituadas à cultura de borla”, porque não lhe associam valor económico. João viu-se obrigado a vender bilhetes a 2 euros — valor muito inferior ao praticado nas grandes cidades —, para captar audiência em sítios pequenos.
Por muito que haja vontade, o problema da falta de acesso à cultura no interior é estrutural. “Não há comediantes, mas os comediantes que participam no circuito de Lisboa estão mais do que dispostos a fazer estrada”, reconhece o humorista. “O problema é que não há espaços.” A consequência de vender bilhetes a preços baixos é a dificuldade de sustentar os projetos, uma vez que é necessário pagar o espaço, a deslocação dos comediantes, eventualmente a estadia e o jantar. “É difícil”, refere João, “e por isso é que procuramos sempre o apoio ou a colaboração com outras entidades, com os municípios de preferência, sendo que há poucos que estão disponíveis”.
“A verdade é que Évora está a 1h20 de carro de Lisboa, enfim, é super perto”, reflete o comediante, que identifica “pouquíssimas” diferenças entre os espectadores dos grandes centros urbanos e da província. No máximo, admite que o público das pequenas localidades é mais hospitaleiro: “Fazem questão de que tenhas um grande jantar, oferecem-te queijo e garrafas de vinho para levar”, afirma. Até considera o público mais disponível e, contrariamente ao esperado, menos conservador do que a de Lisboa. O público das cidades “é mais woke”, acredita, o que pode dificultar a entrega de piadas ácidas e de humor negro. “Por incrível que pareça, às vezes há mais liberdade no Alentejo profundo, ou no Algarve, do que em Lisboa”, reconhece João.
Humor negro pelo país fora
Tiago Paixão é da mesma opinião e descobriu um nicho de mercado muito lucrativo fora das grandes cidades, onde, há seis anos, apresenta o seu espectáculo de humor negro. Atualmente uma marca nómada, o Chiado Comedy Club começou por convidar humoristas para atuar no antigo ODD Trindade, o café do teatro com o mesmo nome, na capital. “Eu fazia umas noitinhas, duas vezes por semana em Lisboa, uma no Porto, e, quando comecei a olhar para fora dos grandes centros, percebi: é aqui que funciona, o pessoal fica maluco”, afirma o fundador. “Lisboa e Porto estão super saturados, [em sítios menos centralizados] noto uma adesão do público muito superior.”

Tiago estudou gestão e trabalhava como diretor financeiro de uma multinacional quando fez um workshop de comédia, “por brincadeira”. “Eu era um engravatadinho, andava de BMW, estava em reuniões com a banca e em conferências internacionais”, admite, “mas já era o tipo mais engraçado da minha equipa”. A incursão pelo mundo do stand-up comedy foi como uma “explosão em forma de cogumelo” que mudou a sua vida a 360 graus.
Descobriu o bar do Teatro Trindade num encontro do Tinder e achou-o o sítio perfeito para noites de comédia. Fez uma proposta ao dono do estabelecimento, sem pedir nada em troca, pois ainda trabalhava na área financeira e apenas desejava um local para pôr em prática o recém-adquirido hobbie. O projeto avançou e, após uma série de sessões esgotadas, começou a ser recompensado monetariamente — o que impulsionou a decisão arriscada de se despedir do trabalho. Foram tempos difíceis, durante os quais viveu às custas da namorada.
Ultrapassada a adaptação inicial, saltou para os palcos do Porto, Almada, Barreiro, Faro, Beja, Évora, Coimbra, Madeira, e por aí adiante, procurando sempre as viagens de autocarro mais baratas. O resultado está à vista: um sucesso sem precedentes no país. “Em Torres Vedras, tivemos 180 pessoas, na semana passada. 180 pessoas também no Barreiro, batemos o nosso recorde.”
Com o passar dos anos, Tiago já trilhou Portugal de norte a sul e acumulou tanta experiência, que consegue identificar padrões nas reações do público: “Leiria gosta imenso de humor negro”, admite. “Em Braga, é mais difícil de fazer, são muito religiosos. Mas também noto que às vezes as pessoas não se riem muito, mas depois comentam que adoraram.”
Apesar do êxito, identifica alguma desconfiança por parte das salas de espectáculos, que ainda não levam muito a sério a comédia stand-up. “Quem está a produzir teatro é pessoal profissional de teatro. Quem está a produzir stand-up faz outras coisas”, afirma. “E às vezes noto da parte dos locais alguma desconfiança por más experiências que tiveram.”
Os bares e restaurantes não são uma boa alternativa, porque o público está sujeito a uma série de distrações, desde a comida aos telemóveis em cima da mesa e à conversa com as pessoas do lado. “A coisa descamba muito mais vezes”, diz Tiago. “E é sempre uma produção de qualidade inferior, em que há mais trabalho, mas é difícil cobrar 12 euros às pessoas.” Além disso, as sessões têm menos escala e não permitem receber 150 espectadores, uma realidade cada vez mais comum nos eventos do Chiado Comedy Club, segundo afirma o fundador.
Kebabs, tascas e risos
Apesar do pessimismo de Tiago, não faltam exemplos de sucesso sediados em bares e restaurantes. Na Moita, distrito de Setúbal, Francisco Faustino fundou o Döner Comedy, que acontece mensalmente no restaurante King Döner Kebab. “Não é o típico restaurante de kebabs que se vê em Lisboa, com uma sala pequena, um bocado escura”, reconhece o fundador do projeto. “Aquilo é um espaço lindíssimo, fica mesmo na Praça de Touros. Já faziam alguns eventos, [antes de eu começar], mas nada deste estilo.”
Comercial numa cadeia de hotéis, Francisco pensou em vários sítios antes de se fixar naquele estabelecimento — cuja proposta inicialmente recusou. “Depois fui lá, vi o espaço, falei com o dono, e pensei ‘Porque não? Também é uma coisa diferente’”, recorda. Já na quinta sessão, o negócio vai de vento em pompa, com uma média de espectadores por noite entre os 60 e 80, desde que estreou em dezembro de 2025. Proporcionalmente, a procura da parte de comediantes interessados em atuar no espaço é enorme: “À data de hoje, eu tenho line-ups feitos até agosto”, admite o anfitrião.
O evento acontece sempre ao sábado e no final do mês, com o objetivo de responder aos principais desafios de estar situado numa zona suburbana: pertencente à área metropolitana de Lisboa, a Moita é habitada por pessoas que trabalham na cidade grande durante os dias úteis e só estão disponíveis no fim de semana, sendo que é mais fácil captar público nos últimos dias do mês, em que já acusaram a receção do salário. O espectáculo custa 3 euros, um valor simbólico que acresce ao preço do jantar. A refeição, contudo, não interfere com a performance, agendada para uma hora mais avançada da noite, já depois de os clientes terminarem de comer.
Guilherme Lima também fidelizou público na sua terra natal de Ponte de Lima (Viana do Castelo), onde organiza comédia ao vivo no S.A. Bar Galeria desde 2023. A primeira série de eventos mensais aconteceu no estabelecimento comercial com pendor para a cultura entre maio e novembro desse ano, antes de o organizador se mudar para o sul do país. Profissional de recrutamento na área de software, Guilherme trabalhava remotamente e acompanhou a noiva, professora, quando foi colocada no concelho de Barrancos e em São Teotónio durante dois anos consecutivos. Por esse motivo, viu-se obrigado a interromper o projeto, “e também porque a adesão na altura não foi muito forte”, recorda o humorista amador, “ao contrário de agora”.
O afastamento temporário do Minho permitiu a Guilherme conhecer outros circuitos de stand-up, para lá do existente no Porto — cidade onde primeiro experimentou fazer comédia. Também lhe deu tempo para refletir sobre o que tinha falhado no S.A Comedy Club. “O problema era uma mistura de má comunicação e má produção”, reconhece Guilherme. “A sala estava praticamente toda iluminada, tinha um posicionamento esquisito” e não existia estratégia de divulgação.

Regressou ao palco do bar com um sistema de som renovado e um foco de luz e, desde então, foram muitas as noites esgotadas. O anfitrião, que também organiza sessões no centro do Porto, reconhece que “é muito mais desafiante conseguir humoristas para atuarem em Ponte de Lima”. Contudo, para Guilherme, o problema do centralismo é uma das certeza da vida, e “eu não vou deixar-me angustiar por causa disso”, afirma. Encara com otimismo a evolução do distrito de Viana do Castelo, que começa a ter cada vez mais eventos do género e comediantes residentes. “Era bom expandir o circuito do Alto Minho, porque é uma zona com muita população. Se existirem espaços de stand-up, não precisamos de fazer duas horas de viagem numa noite” para atuar.
O último destino é a tasca O Sousa, em Lamego, diferente dos anteriores por não ser fundada por um humorista, mas pelo dono do estabelecimento, Fábio Sousa. Fã de stand-up de longa data, fez a primeira tentativa de trazer comédia à terra do distrito de Viseu há cinco anos, um mês depois de abrir o restaurante. “Correu horrivelmente mal”, admite, em retrospetiva. “Não tínhamos ideia de que era uma brutalidade em termos de dinheiro.” Em plena pandemia de Covid-19, convidaram o comediante Rui Xará, que atuou sem microfone e à frente de um público “um bocado embriagado”.
Na altura, Eleana, a mulher de Fábio, também ela proprietária do estabelecimento, opôs-se à iniciativa, que considerou precipitada. A ferida demorou a sarar e o casal só voltou a ponderar a ideia já em 2025, que se concretizou no quarto aniversário da tasca. Financiaram o evento com 20 patrocínios de entidades da região, uma vez que não arrecadaram bilheteira — no valor de dois euros, os bilhetes destinavam-se a ajudar a Liga Portuguesa Contra o Cancro. “Correu muito bem”, reconhece Fábio. “Nestas zonas não somos atrasados, gostamos deste tipo de coisas.”
O evento já se repetiu mais duas vezes e não fica por aqui. Em exclusivo, o casal Sousa revelou ter planos para organizar “uma coisa em grande”, quem sabe no teatro municipal da cidade. Afinal, há público, em Lamego e noutros sítios menos populosos do país. Afinal, a comédia pode resultar. Mas é preciso contornar obstáculos complicados: a dificuldade de arranjar espaços, o investimento técnico necessário, a falta de apoio público, a cultura da gratuitidade, as despesas com alojamento e deslocações e outros desafios impostos pelo centralismo.