Se uma Miranda incomoda muita gente…imagine uma visão dupla em plena capa da edição norte-americana da Vogue. Na primeira página da revista de maio, depois de um longos meses de preparação, a estrela de O Diabo veste Prada 2, que se estreia a 1 de maio, reúne-se com a mais famosa das editoras de moda. O encontro de Meryl Streep com Anna Wintour não fica completo sem a fotografia, a cargo de outra veterana, Annie Leibovitz, e como se não bastasse, a editora de moda Grace Coddington assina o styling. A dupla no centro desta conversa moderada pela realizadora Greta Gerwig veste Prada, muito apropriadamente, claro.
“Meryl e Anna começaram, naturalmente, por falar sobre casacos, que são algo relevante no primeiro filme”, apresenta Chloé Malle, a sucessora de Wintour no rumo da publicação, e que acompanhou esta entrevista dupla, cujo excerto foi divulgado esta terça-feira no site da Vogue. Quem não se lembra das chegadas de rompante ao escritório de Miranda Priestly e da forma como ia despejando casacos sobre a secretária da assistente? E já agora, quem não se recorda de outro infame casaco que também vem à baile nesta conversa.
Questionadas por Gerwig (que dirigiu a atriz em Mulherzinhas) sobre o que é suposto as mulheres vestirem para comunicarem poder, Wintour dispensa a obrigação do power suit nos escritórios, notando como algumas mulheres conseguem manter-se fiéis a si próprias. Como exemplo, sugere o nome de Michelle Obama, revela “grande admiração” pelo estilo de Rama Duwaji, primeira-dama de Nova Iorque, fã do vintage, e admite que a atual primeira-dama dos EUA (que nunca foi uma favorita na revista, muito menos teve honras de capa) preenche os requisitos nesta matéria. “Para ser sincera, a Melania Trump também se parece sempre com ela quando se veste.”
Ainda que, logo de seguida, Streep confesse que a observação lhe merece “muitos comentários”, evocando um episódio polémico de 2018. Acho que o mais… a mensagem mais poderosa que a nossa atual primeira-dama enviou estava no casaco que disse “Eu realmente não me importo, e tu?” quando foi ver crianças migrantes que estavam presas.”
Numa conversa que passa pela idade e maturidade, pelos netos de ambas e pela moda, Anna destaca o acesso ao setor que a estreia deste título, há vinte anos, permitiu. “O que eu gostei no primeiro filme é que ele mostrou ao mundo o que é o grande mundo da moda. É uma verdadeira força económica mundial, e o primeiro filme reconheceu isso. Tanta coisa mudou. Mas eu gosto de pensar que estamos evoluindo em vez de desintegrar.” Wintour admitiu ainda que quando começou a ouvir os primeiros rumores de que uma sequela estava no horizonte ligou a Meryl Streep para apurar se era verdade. Wintour adianta ainda que é uma honra ser interpretada por Meryl, “por mais que a Miranda não se pareça comigo”, sentencia a antiga editora-chefe que em janeiro de 2025 cedeu a pasta a Malle, passando a supervisionar os títulos da Condé Nast.
Streep, que revela gostar de tricotar durante as pausas na rodagem (já que os livros a distraem) recorda ainda a sua relação com o guarda-roupa das diferentes produções, a começar pela formação que obteve na área, em Vassar. “Era o meu curso, design de figurinos, porque eu sou boa costureira e realmente adoro desenhar. Para a minha tese desenhei 60 figurinos para a Camino Real – a peça do Tennessee Williams. E todos esses personagens são tão vívidos. São tão idiossincráticos e estranhos. Toda a minha vida fui muita chata com os figurinistas porque tenho todas estas ideias muito picuinhas.
As peças de roupa e acessórios recrutados para este novo filme, que conta ainda com Anne Hathaway, Stanley Tucci, ou Emily Blunt no elenco, serão por certo um dos pontos de maior interesse. E se é de luxo que falamos, nada como deixar as antevisões nas mãos de quem segue o assunto há décadas. Quando Meryl Streep pergunta a Wintour se esta imagina que alguém possa vir a ter uma carreira tão longeva e influente como Karl Lagerfeld, Anna não hesita. “Sim! Acho que Matthieu [Blazy] encontrou o trabalho dos seus sonhos. Os donos de Chanel — Alain e Gérard Wertheimer — são muito pacientes. E eles sempre encontraram esse equilíbrio entre tradição e abertura à mudança. Essa era a magia de Karl, que conhecia a história tão completamente, mas também tinha curiosidade e inquietação e era um multitasker extraordinário. Acho que Matthieu tem a mesma vitalidade e consciência cultural”, confia, revelando ainda que o guarda-roupa de África Minha, de 1985, é o seu favorito.