Enquanto a atenção internacional se concentra no Irão, na Ucrânia ou nas sucessivas crises do Médio Oriente, uma disputa mais silenciosa, mas potencialmente mais estruturante, está a desenrolar-se acima das nossas cabeças. Não ocupa o mesmo espaço mediático que os mísseis, os drones ou os tanques. Não produz, pelo menos por agora, as mesmas imagens de destruição imediata. Mas seria um erro de perspetiva histórica tratá-la como secundária. O espaço está a tornar-se um dos centros de gravidade do poder internacional no século XXI, e poucos parecem ter percebido, a tempo, o que isso significa.
Um ciclo que se fecha, outro que começa
A história recente do espaço ajuda a compreender a profundidade desta transformação. Quando Yuri Gagarin orbitou a Terra em abril de 1961, os Estados Unidos da América sofreram um choque estratégico. A resposta de John F. Kennedy foi escolher a Lua como campo de batalha, precisamente porque era o único território onde os soviéticos ainda não tinham chegado. Quando Neil Armstrong ali pousou em 1969, não foi apenas um feito tecnológico. Foi uma afirmação de poder. E, paradoxalmente, foi também o início de uma fase de aproximação: em 1975, no auge da Guerra Fria, uma nave americana e uma soviética acoplaram em órbita. O espaço fez, nesse momento, aquilo que a diplomacia dificilmente conseguia.
Dessa lógica nasceu mais tarde a Estação Espacial Internacional (ISS): um projeto que reuniu 15 países, envolveu centenas de astronautas e se tornou um dos maiores símbolos de cooperação científica da história contemporânea. Um país ficou de fora: a China. Em 2011, a Wolf Amendment tornou essa exclusão lei, proibindo a NASA de cooperar bilateralmente com Pequim sem aprovação explícita do Congresso. Pequim tirou as suas conclusões, construiu a Tiangong e desenvolveu um programa espacial inteiramente autónomo. Hoje, esse ciclo está a fechar-se. E a ser substituído por outro.
O espaço já não está fora do conflito
Durante demasiado tempo, continuámos a olhar para o espaço como um domínio de exploração, prestígio e ciência. Ainda é tudo isso. Mas já não é só isso. Hoje, o espaço é infraestrutura crítica. São comunicações, navegação, observação e alerta antecipado. É sincronização de sistemas de armas, monitorização marítima, apoio a operações militares e recolha de informação em tempo real. Em termos simples: boa parte da guerra contemporânea, da economia digital e da capacidade de projeção dos Estados já depende do que acontece em órbita.
A guerra na Ucrânia tornou isso particularmente evidente. Os satélites comerciais da Starlink transformaram a arquitetura de comunicações do exército ucraniano de
uma forma que nenhum manual de doutrina militar tinha antecipado com rigor suficiente. A capacidade de observação e targeting por satélite passou de vantagem competitiva a condição de sobrevivência operacional. E também no Médio Oriente, embora com menor visibilidade pública, os ativos espaciais integram a arquitetura de vigilância e resposta de vários atores. O espaço já não está fora do conflito. Está profundamente integrado nele.
É precisamente por isso que a nova corrida ao espaço deve ser lida com mais frieza estratégica e menos romantismo tecnológico. O que está em curso não é apenas uma competição para chegar mais longe. É uma luta por infraestruturas, por cadeias de dependência, por padrões técnicos, por alianças e, acima de tudo, pela capacidade de definir as regras do jogo. Tal como aconteceu com os oceanos, com o comércio global ou com o ciberespaço, quem molda a arquitetura de um domínio acaba por moldar também a distribuição de poder dentro dele.
A China percebeu isto antes — e agiu em conformidade
Seria um erro reduzir a estratégia espacial chinesa aos desenvolvimentos mais recentes, por mais significativos que sejam. A aposta de Pequim no espaço como domínio de poder não é uma novidade dos últimos anos. É uma escolha política que remonta a décadas, executada com uma coerência que os ciclos eleitorais ocidentais raramente permitem.
Em 2007, a China destruiu deliberadamente um dos seus próprios satélites meteorológicos com um míssil antisatélite, num teste que gerou indignação internacional e dezenas de milhares de fragmentos em órbita. A mensagem era clara: Pequim tinha capacidade para negar acesso ao espaço. Em 2020, completou o sistema de navegação BeiDou, tornando-se independente do GPS americano, não apenas para uso civil, mas para fins militares e de projeção estratégica. Através da chamada Rota da Seda Espacial, integrada na Nova Rota da Seda, a China foi construindo uma rede de infraestrutura espacial que integra países parceiros em sistemas de comunicações por satélite, estações terrestres e redes de partilha de dados. Através do BeiDou e dos satélites de observação Gaofen, Pequim partilha dados com dezenas de países, construindo dependências tecnológicas que se traduzem em capital político de longo prazo. Para completar o quadro, as empresas comerciais chinesas são encorajadas a expandir-se internacionalmente e a ajudar países do Sul Global a construir indústrias com aplicação de tecnologias por satélite, numa estratégia de exportação de modelo que vai muito além da tecnologia. Não é filantropia. É poder estrutural em construção lenta e sistemática.
Os desenvolvimentos mais recentes são o culminar visível desta estratégia, não o seu ponto de partida. Em novembro de 2025, a China National Space Administration (CNSA) publicou um plano de ação que integra formalmente o espaço comercial na estratégia nacional global, com 22 medidas para impulsionar
a inovação, expandir as capacidades industriais e reforçar a supervisão do setor. As recomendações para o 15.º Plano Quinquenal identificam o setor aeroespacial como uma das indústrias estratégicas emergentes. A CNSA criou ainda um novo departamento dedicado exclusivamente à supervisão do setor espacial comercial, num momento em que o número de empresas espaciais chinesas ultrapassou as 600. Quando um Estado planeia indústria, regula o setor, forma recursos humanos e articula objetivos de longo prazo na mesma direção, já não estamos perante entusiasmo científico. Estamos perante estratégia. Não é preciso dizer “Partido Comunista Chinês” em todas as frases para perceber quem está no centro do processo. Basta olhar para o tipo de coordenação que está em curso.
É aqui que a questão se torna particularmente desconfortável para o Ocidente. A China não está apenas a correr atrás dos Estados Unidos da América. Está a tentar construir um ecossistema próprio, progressivamente mais autónomo, em que o espaço surge como domínio central de poder e de projeção externa. E está a fazê
lo com uma vantagem estrutural que Washington dificilmente consegue replicar: coerência política de longo prazo. O programa espacial chinês não vive ao ritmo de ciclos eleitorais, bloqueios orçamentais ou mudanças bruscas de prioridade entre administrações. É tratado como política de Estado, com coordenação entre dimensões institucionais, industriais, científicas e estratégicas que o modelo democrático ocidental raramente consegue sustentar.
Enquanto o mundo olhava para a Artemis, a China já tinha ido à Lua e voltado
O que poucos percebem, e poucos relatórios de televisão mostraram, é que enquanto o mundo assistia ao lançamento da Artemis II, a China já tinha pousado sondas no lado oculto da Lua, recolhido amostras e regressado à Terra. Não uma vez, mas como culminar de uma sequência metódica de missões robóticas. A Chang’e 4 pousou no lado oculto em 2019, uma façanha inédita que exigiu um satélite de retransmissão em órbita lunar para manter comunicação com a Terra. A Chang’e 5 recolheu amostras do lado visível em 2020. A Chang’e 6, em junho de 2024, foi mais longe: pousou no lado oculto da Lua, recolheu cerca de dois quilogramas de solo e rocha lunar, e regressou à Terra, a primeira vez na história que material do lado oculto foi trazido para análise. Os basaltos analisados tinham cerca de 2,8 mil milhões de anos, oferecendo uma janela sem precedentes para a evolução geológica da Lua e, por extensão, do sistema solar primitivo.
A próxima missão, a Chang’e 7, está prevista para este ano, com destino ao polo sul lunar. O objetivo é mapear e confirmar a presença de gelo de água nas crateras permanentemente sombreadas dessa região. O interesse científico é real. Mas o interesse estratégico é ainda maior: o gelo é água em estado sólido. Dessa água pode obter-se hidrogénio e oxigénio, componentes essenciais do combustível de foguete. Quem controlar esses recursos controlará a capacidade de ir mais longe, incluindo Marte. O polo sul da Lua pode vir a ser o primeiro campo de disputa concreta por recursos extraterrestres, e a China está a posicionar-se com antecedência.
Ainda assim, esta trajetória não está isenta de fragilidades. Dois dias após o lançamento da Artemis II, a 3 de abril, o Tianlong-3, o foguete comercial mais ambicioso da China, desenvolvido pela Space Pioneer como resposta direta ao Falcon 9 da SpaceX, falhou no seu voo inaugural, sofrendo uma anomalia durante a fase de ascensão. O Tianlong-3 era considerado a peça central na estratégia chinesa para as mega-constelações de satélites, em particular a Qianfan, que pretende colocar até 15.000 satélites em órbita para competir diretamente com a Starlink, e a Guowang, a rede estatal que visa 13.000 satélites e combina funções de comunicação, posicionamento e potencialmente de duplo uso (civil e militar). Nenhuma empresa chinesa conseguiu ainda recuperar e reutilizar um primeiro estágio de foguete, o feito que tornou a SpaceX numa vantagem estrutural difícil de alcançar. O fracasso do Tianlong-3 não deita por terra a estratégia chinesa, mas revela que entre a ambição e a execução há ainda um fosso considerável. A ambição é clara. A execução é outra questão.
A reconfiguração americana e o que ela revela
O contraste com os Estados Unidos da América é real, mas merece ser lido com rigor. Os EUA não chegaram a este momento sem história própria. A NASA foi durante décadas alvo de cortes orçamentais recorrentes, mudanças de prioridade entre administrações e uma instabilidade de financiamento que tornou difícil sustentar programas de longo prazo. O programa espacial que colocou o homem na Lua em 1969 operava, no seu pico, com cerca de 4% do orçamento federal americano. Hoje, a NASA representa menos de 0,5%. A política espacial norte americana tem sido, demasiadas vezes, refém dos ciclos políticos que a deveriam servir.
Esse legado é visível nos desenvolvimentos mais recentes. A missão Artemis II foi um momento simbólico inegável, o regresso de astronautas à vizinhança da Lua pela primeira vez em mais de meio século. Mas o percurso até ao lançamento, marcado por dois adiamentos por fugas de hidrogénio e problemas de pressurização, e a subsequente reconfiguração profunda da arquitetura do programa, revelam as fragilidades estruturais do modelo. O Lunar Gateway, a estação espacial lunar que estava no centro da arquitetura Artemis, foi cancelado em março de 2026. A missão Artemis III, originalmente destinada a ser a primeira alunagem tripulada desde 1972, foi reconvertida numa missão de testes em órbita terrestre baixa para 2027, com a primeira alunagem adiada para a Artemis IV em 2028. São ajustamentos que a NASA apresenta como reforço de rigor e cadência, e que podem vir a revelar-se acertados. Mas são também o retrato de uma estratégia reescrita em plena competição.
Washington continua a ter capacidade tecnológica, mobilização internacional e uma base de inovação sem paralelo. Mas já não consegue esconder que o seu programa lunar avança com uma exposição política que Pequim nunca terá de gerir.
A ISS, a Tiangong e o fim de uma era
Há um símbolo desta transformação que merece atenção. Durante décadas, a ISS foi apresentada como o emblema máximo da cooperação espacial pós-Guerra Fria, um projeto conjunto entre antigos adversários, prova de que o espaço poderia funcionar como domínio de colaboração relativamente imune às tensões da política internacional. Essa ideia está hoje em vias de extinção.
A ISS aproxima-se do fim da sua vida útil, num processo politicamente complexo. Em fevereiro de 2026, o Congresso americano determinou que a NASA reconsiderasse formalmente o seu plano de desorbitar a estação até 2031, com o Senado a avançar com uma versão que estende a sua vida até 2032, condicionando a retirada à entrada em operação de pelo menos duas estações comerciais independentes. Os Estados Unidos da América tentam assim uma transição para um modelo de estações privadas com financiamento público, apoiando empresas como a Axiom Space, a Starlab ou a Blue Origin. Mas um relatório do Inspector Geral da NASA alertou que é improvável que uma plataforma comercial esteja pronta antes de 2030. A Rússia, por seu lado, planeia separar os seus módulos da ISS após 2030 para formar o núcleo de uma estação própria, a ROSS, reciclando o que ainda for utilizável da parceria que ajudou a construir. A transição de uma lógica de cooperação para uma lógica de competição não é apenas retórica. Está a materializar-se, literalmente, em órbita.
Entretanto, desde 2022, a China opera a sua Estação Espacial Tiangong de forma inteiramente autónoma. É tentador descrever esta situação como uma escolha chinesa de fechar a sua estação ao Ocidente. Mas a narrativa completa exige algo mais raro: honestidade. A Wolf Amendment proibiu a NASA de cooperar com Pequim desde 2011. A exclusão da China não foi uma decisão unilateral de Pequim, foi em grande medida o resultado de uma política americana que optou pela separação. Pequim tirou as suas conclusões e construiu autonomia própria. Hoje, essa autonomia é apresentada como ameaça. Mas foi, em parte, uma resposta a uma porta que Washington fechou primeiro.
É precisamente desta autonomia forçada que nasce o projeto que melhor ilustra a ambição estrutural de Pequim. A International Lunar Research Station não é apenas um projeto lunar. É um instrumento de alinhamento político e normativo, uma plataforma que permite a Pequim atrair parceiros, construir legitimidade e projetar uma visão alternativa da governação espacial, tal como os Estados Unidos da América procuram fazer. Em política internacional, isso tem um nome claro: poder estrutural. E o poder estrutural não se mede em lançamentos. Mede-se em dependências, em normas e em coligações construídas pacientemente ao longo de décadas.
O verdadeiro risco não é uma guerra nas estrelas
O mais provocador em tudo isto é que continuamos a discutir o espaço como se fosse um tema do futuro, quando na realidade já é um tema urgente do presente. O conflito moderno depende do espaço. A economia digital depende do espaço. E a autonomia estratégica dos Estados dependerá cada vez mais do acesso seguro a infraestruturas orbitais, a dados de posicionamento e a capacidades de lançamento independentes. Quem ficar dependente da arquitetura espacial de outros ficará, inevitavelmente, dependente das suas decisões políticas, mesmo que nunca se aperceba do momento em que essa dependência se tornou irreversível.
O verdadeiro risco não é, portanto, uma guerra no espaço no sentido cinematográfico do termo. É mais subtil e mais difícil de comunicar politicamente: que o espaço se torne um domínio de dependência assimétrica antes de o tratarmos como tal. Satélites podem ser perturbados, degradados ou destruídos. Sinais podem ser interferidos. Comunicações críticas podem ser comprometidas. A questão não é se isso é tecnicamente possível — é possível. A questão é se as democracias ocidentais têm capacidade para responder com a coerência estratégica que o momento exige, ou se continuarão a reagir a crises que entretanto se tornaram estruturais.
Enquanto nos fixamos nas crises que ardem à superfície, o mapa do poder global está a ser redesenhado em órbita e na trajetória para a Lua. A próxima grande disputa internacional não começará necessariamente com tropas numa fronteira. Pode começar com normas técnicas, infraestruturas orbitais e ecossistemas industriais cuidadosamente planeados por Estados que perceberam, antes dos outros, onde estará a vantagem estratégica de amanhã.
O espaço não substitui os conflitos do presente. Amplifica-os, prolonga-os e prepara os do futuro. A China já está a agir como se soubesse isso há muito tempo. Os Estados Unidos da América também, ainda que com dificuldades reais. A União Europeia terá de decidir se quer ser ator ou mera utilizadora num domínio que definirá as infraestruturas do século XXI. Para a Europa, ficar de fora terá um custo estratégico cada vez mais difícil de suportar.