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Fundador do Doutor Finanças denunciado por assédio sexual e moral. Foi aberto processo disciplinar e está impedido de entrar na empresa

Rui Pedro Bairrada foi denunciado por comportamentos impróprios que remontam a quando era CEO do Doutor Finanças. Empresa abriu processo disciplinar no final de 2025. Não pode entrar na empresa.

João Paulo Godinho
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Leonor Riso
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Rui Pedro Bairrada, cofundador e chairman da empresa Doutor Finanças, está a ser alvo de um processo disciplinar na sequência de várias denúncias de assédio moral e sexual. Estas denúncias referem-se a alegados comportamentos ocorridos quando era CEO. Foram consideradas graves o suficiente ao ponto de terem sido emitidas duas notas de culpa, em janeiro e março, com as alegações das denunciantes. E, apesar de o processo disciplinar ainda estar a decorrer, Rui Pedro Bairrada foi impedido de entrar nas instalações da empresa.

Ao Observador, fonte oficial do Doutor Finanças confirma que “foi desencadeado um processo disciplinar que tem como visado Rui Bairrada, cofundador, sócio minoritário e atual chairman da empresa”. As denúncias foram conhecidas “através dos canais internos adequados” e fizeram com que a empresa iniciasse “de imediato um processo rigoroso e independente” que levou à suspensão do agora chairman. Para já, não está prevista uma data de término do processo disciplinar.

Rui Pedro Bairrada garante estar “de consciência tranquila” e apresentou, apoiado por advogados, a contestação às notas de culpa com que foi confrontado. “Toda a verdade será reposta, é a única coisa que eu posso garantir neste momento”, salienta ao Observador. “Tudo do que estou a ser acusado não é verdade, tenho provas disso e vou demonstrá-lo em sede própria. Não podia estar mais confiante do que estou.” O chairman do Doutor Finanças acusa a atual direção de estar por detrás de “um processo de instrumentalização” baseado em “imputações falsas” e crivado de “irregularidades graves”.

O Doutor Finanças é uma empresa intermediária de crédito que conta com mais de 300 funcionários por todo o País e que está presente em Itália e em Espanha, tendo um volume de negócios de cerca de 20 milhões de euros.

"O Doutor Finanças confirma que foi desencadeado um processo disciplinar que tem como visado Rui Bairrada, cofundador, sócio minoritário e atual Chairman da empresa."
Fonte oficial Doutor Finanças

Rui Pedro Bairrada foi suspenso e proibido de entrar na sede em janeiro

Apesar de o processo disciplinar ter sido movido no último trimestre de 2025, ao que o Observador apurou, às queixas recentes somam-se algumas mais antigas e teme-se que possa haver mais. Dois conjuntos de denúncias levaram à elaboração de duas notas de culpa — que detalham o alegado assédio sexual e moral — com que Rui Pedro Bairrada foi confrontado. A primeira determinou a proibição do chairman de frequentar as instalações do Doutor Finanças.

“O processo foi desencadeado nos termos aplicáveis, na sequência de denúncias de comportamentos que, a comprovarem-se, são incompatíveis com os valores e normas de conduta da organização”, refere fonte oficial da empresa ao Observador.

Alguns dos acontecimentos reportados nas denúncias remontam ao período antes de janeiro de 2025, quando Rui Pedro Bairrada desempenhava as funções de CEO da empresa e outras dizem respeito a alegados comportamentos impróprios que ocorreram há anos. As primeiras terão sido comunicadas informalmente junto da administração, que as remeteu para os canais próprios da empresa, geridos por advogados que também investigam o processo disciplinar.

O Código de Conduta e Ética do Doutor Finanças está disponível no site da empresa, que tem como mote “Fazer o Bem Bem Feito”. Indica que “os colaboradores podem reportar situações de assédio através do Canal de Denúncia ou diretamente à equipa de compliance” e assegura que “as denúncias serão tratadas com confidencialidade, imparcialidade e celeridade, garantindo proteção contra represálias”.

Para a empresa, são considerados episódios de assédio moral os “comportamentos repetidos que visem humilhar, excluir ou desestabilizar emocionalmente um colaborador”, e “comportamentos de natureza sexual indesejados que criem um ambiente intimidatório, hostil ou ofensivo” configuram assédio sexual. “O Doutor Finanças assume um compromisso firme de tolerância zero face a qualquer forma de assédio moral ou sexual no local de trabalho”, frisa o mesmo documento.

Em resposta ao Observador, a empresa lembra que Rui Pedro Bairrada está afastado de funções executivas desde o início de 2025 e que este processo disciplinar não afeta a gestão do Doutor Finanças, atualmente a cargo dos dois co-CEO: Vanda de Jesus e Nuno Leal. “A gestão executiva [encontra-se] plenamente assegurada pela atual equipa de liderança, com foco na sua atividade, na estabilidade da organização e no compromisso com uma cultura de respeito, segurança e responsabilidade”, reitera fonte oficial.

Nesta fase, Rui Pedro Bairrada, que já é representado por advogados no processo disciplinar, entregou a sua contestação à nota de culpa. Agora deverão ser feitas inquirições às denunciantes e ao chairman da empresa sobre as alegações reportadas nas denúncias.

O Observador questionou também a Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre se tinha sido aberto inquérito a Rui Pedro Bairrada relativamente às alegações de assédio sexual e moral, mas não recebeu resposta em tempo útil.

"O processo foi desencadeado nos termos aplicáveis, na sequência de denúncias de comportamentos que, a comprovarem-se, são incompatíveis com os valores e normas de conduta da organização."
Fonte oficial Doutor Finanças

“Tudo do que estou a ser acusado não é verdade”, vinca Rui Pedro Bairrada

Confrontado com as alegações, Rui Pedro Bairrada começou por dizer que, para já, não queria falar sobre o tema. “Nada disso é verdade e está tudo provado, em resposta à nota de culpa que eu recebi, que não corresponde à verdade”, afirmou ao Observador.

Sobre os conjuntos de denúncias que levaram à elaboração das duas notas de culpa, o chairman do Doutor Finanças assegura ter “resposta para todas elas”. “Nada do que está nessas alegações constitui crime de assédio, seja moral, seja sexual, seja o que for”, sustenta. “Tudo do que estou a ser acusado não é verdade, tenho provas disso e vou demonstrá-lo em sede própria.”

A proibição de entrada nas instalações do Doutor Finanças de que foi alvo em janeiro, e que se seguiu à primeira nota de culpa, deixou-o “surpreendido”, bem como todo o processo. “Eu mantenho-me sereno, tranquilo e a responder nos sítios certos e a defender-me nos sítios certos.” “É uma montanha de nada”, afirma.

https://observador.pt/programas/a-hist-ria-do-dia/acusacoes-de-assedio-afastam-fundador-do-doutor-financas/

Num segundo contacto, Rui Pedro Bairrada visa a atual administração da empresa. “O que está em curso é um processo de instrumentalização promovido por quem me quer pressionar e afastar da empresa que criei e ajudei a fazer crescer”, acrescenta ao Observador. “Não sou pressionável por qualquer tentativa de mediatização contra mim, com base num processo interno promovido pela atual direção com base em imputações falsas.”

"Toda a verdade será reposta, é a única coisa que eu posso garantir neste momento."
Rui Pedro Bairrada

Questionado sobre porque acusa a administração, o chairman invoca “vários elementos”: “Em primeiro lugar, porque estas imputações surgem agora, em bloco, reportando-se em alegações com datas de anos atrás, sem que tenha existido antes qualquer denúncia, referência, queixa, ou qualquer procedimento. Em segundo lugar, porque a minha defesa já identificou irregularidades graves que vão da ausência das alegadas denúncias que o teriam desencadeado, até à destruição das gravações dos depoimentos e ao uso de transcrições deficientes”, diz. “Em terceiro lugar, porque o surgimento deste processo coincide com o momento em que fracassaram conversações relativas à minha saída da gestão. Tudo isso, incluindo a fuga de informação sobre o processo para o vosso meio, no meu entendimento, mostra que não estamos perante um procedimento normal, mas perante um processo instrumentalizado para me afastar da empresa que criei e ajudei a fazer crescer.” Rui Pedro Bairrada estende essa acusação “à atual condução executiva da empresa e às pessoas que, no seu interior, estão a promover e a alimentar este processo”.

A saída da gestão que refere ter desencadeado o que define como “uma operação de pressão e afastamento” é “posterior” à passagem ao cargo de chairman em janeiro de 2025, sustenta. Caso o processo disciplinar conclua pela inexistência de irregularidades, Rui Pedro Bairrada descarta qualquer “reconciliação” com a direção: “A minha prioridade é defender a verdade. O que está a acontecer é demasiado grave, aliás como se pode facilmente demonstrar pela fuga de informação sobre o processo interno, que revela uma tentativa de me condicionarem.”

Perante o processo interno que diz estar apoiado em “imputações falsas e difamatórias”, o chairman garante que “as iniciativas judiciais adequadas estão em curso e a cargo dos advogados”.

O Observador confrontou o Doutor Finanças com estas críticas de Rui Pedro Bairrada, tendo fonte oficial da empresa tomado a seguinte posição: “Não comentámos o conteúdo deste processo. O que podemos afirmar é que a empresa atuou assim que teve conhecimento de factos que exigiam avaliação e atuação, seguindo os mecanismos internos adequados e os princípios de integridade e responsabilidade que regem a organização.”

Ausência de Rui Pedro Bairrada gerou estranheza nos funcionários

Rui Pedro Bairrada sempre foi uma figura muito presente no dia a dia da empresa, nos mais diferentes departamentos e junto de todos os trabalhadores. Essa presença tornou-se menos assídua com a passagem de CEO a chairman em janeiro de 2025 (oficializada publicamente em fevereiro). Desde o início deste ano, deixou de ser visto nas instalações. Uma ausência que começou a ser notada na empresa e que, no mês passado, foi finalmente explicada.

Ao que o Observador apurou, houve uma comunicação sobre o tema num encontro geral no Doutor Finanças. Não foram dados grandes detalhes aos trabalhadores: apenas que existia um processo disciplinar em curso, que Rui Pedro Bairrada não podia frequentar as instalações da empresa nesta fase e que tudo o que tivesse de ser feito, seria feito. A situação causou desconforto interno: não só estava em causa o principal rosto da empresa, cofundador e sócio, mas também as relações pessoais que se estabeleceram entre Rui Pedro Bairrada e alguns dos elementos da cúpula diretiva ao longo dos anos.

"Eu mantenho-me sereno, tranquilo e a responder nos sítios certos e a defender-me nos sítios certos."
Rui Pedro Bairrada

“Os mecanismos de reporte e de apuramento interno do Doutor Finanças são encarados com seriedade e acionados sempre que se justifica, independentemente da função ou posição hierárquica da pessoa visada. A comissão executiva do Doutor Finanças está 100% alinhada na condução deste processo ou de qualquer outro que seja passível de pôr em causa a proteção e o bem-estar dos seus colaboradores”, garante ao Observador fonte oficial da empresa, salientando que “não tolera qualquer conduta que seja suscetível de comprometer a dignidade” dos funcionários.

Ao que o Observador apurou, as alegações de assédio contra Rui Pedro Bairrada surgem em sentido contrário às iniciativas adotadas para o conforto dos trabalhadores — como um acompanhamento psicológico disponível 24 horas por dia ou um centro de bem-estar. São-lhe apontados comentários impróprios em contexto profissional, designadamente em relação a mulheres, bem como gritos e um discurso agressivo. O Observador questionou a empresa sobre as denúncias, mas a mesma não avançou detalhes por estar a decorrer o processo disciplinar.

Rui Pedro Bairrada, o “líder de afetos” que não queria ser o típico CEO

“O Doutor Finanças ajuda as famílias em Portugal a poupar dinheiro”, afirmava Rui Pedro Bairrada num artigo publicado no site da intermediária de crédito para celebrar o segundo aniversário da empresa fundada em 2014. Na curta biografia disponível no site do Doutor Finanças, o agora chairman sublinha que criou o negócio “com o objetivo de ajudar os portugueses a tomar melhores decisões financeiras”. Doze anos depois, a empresa de intermediação de crédito e venda de seguros tem um volume de negócios no valor de cerca de 20 milhões de euros, mais de 300 colaboradores e lojas por todo o País, e está ainda ainda presente em Espanha e em Itália.

Rui Pedro Bairrada tem três livros publicados e o último reflete o cargo não-executivo que agora ocupa: De Estafeta a CEO e de CEO a Chairman (2025). Dois anos antes, quando presidia à empresa, lançou De Estafeta a CEO: na obra, tal como na sua biografia, evoca “o seu percurso profissional para desconstruir preconceitos, assumindo que não é o ‘típico’ CEO, não tem licenciatura e não fala inglês”.

Segundo o próprio, a sua carreira arrancou no Deutsche Bank, a que se juntou em 1995 como estafeta. Subiria até ao cargo de coordenador e saiu 12 anos depois “para criar o seu próprio negócio em finanças pessoais”. Tal só aconteceria em maio de 2014, quando registou, sob o NIF que agora é o do Doutor Finanças, a empresa Historyperform – Consultores Financeiros, sob gerência de Rui Pedro Bairrada, João Morais Barbosa, Paulo Pereira dos Reis e Manuel Vieira Reis. Na altura, além de Rui Pedro Bairrada, eram sócios João Morais Barbosa, Paulo Pereira dos Reis, Manuel Vieira Reis, Raquel Cabral, Patrícia Saraiva, Rui Costa e João Raposo.

"A empresa não tolera qualquer conduta que seja suscetível de comprometer a dignidade dos seus colaboradores, atuando sempre com vista ao apuramento da verdade e da proteção dos direitos de todas as partes envolvidas."
Fonte oficial Doutor Finanças

Ainda no mesmo mês, a empresa mudaria de nome para Reorganiza com Sentido, indica a informação disponível no Ministério da Justiça. De entre os sócios originais de 2014, só Rui Costa se manteve na comissão executiva da empresa onde ocupa hoje o cargo de administrador de seguros. João Saleiro e Paulo Velho Cabral, que entraram na gerência em 2017, detêm respetivamente os cargos de Chief Technology & Product Officer (diretor de inovação e engenharia) e de Chief Financial Officer (diretor financeiro). Nesse mesmo ano, a Reorganiza com Sentido mudou de nome para Doutor Finanças e a primeira denominação pertence atualmente a outra consultora financeira, criada por João Morais Barbosa e por João Raposo, dois dos sócios originais de Rui Pedro Bairrada.

Este último assumiu as funções de chairman no primeiro dia de 2025, posição anunciada em fevereiro, meses antes de avançar o processo disciplinar. Rui Pedro Bairrada tornou-se chairman devido ao “lançamento de novas áreas de negócio e o avanço no processo de internacionalização”, justificou a empresa na altura, e foram contratados como co-CEO Nuno Leal e Vanda de Jesus. “Agora somos três a liderar e a construir o futuro do Doutor Finanças”, escreveu Rui Pedro Bairrada no Instagram aquando do anúncio, que também foi celebrado ainda em fevereiro com uma viagem da Comissão Executiva e Co-CEO’s aos Açores.

Desde 2025, o “líder de afetos” Rui Pedro Bairrada (como se define na sua biografia no site) é orador em palestras sobre liderança. “Aprendi que liderar não é mandar, é ouvir, é cuidar, é servir”, afirma ainda num vídeo do seu Instagram. Tem presença marcada nas Money Talks marcadas para 11 e 12 de abril na Aula Magna em Lisboa, onde dará uma conferência sobre a importância da literacia financeira.

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