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Timor-Leste. Um "cripto resort" que nunca foi construído levantou suspeitas sobre o branqueamento de capitais no país

Empresário da obra fez doações àquele que é um dos países mais pobres do mundo, o que provocou uma expectativa no Presidente de que a construção, até hoje nunca iniciada, pudesse trazer investimentos.

Larissa Faria
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A promessa da construção de um hotel que traria grandes investimentos a Timor-Leste levou a que o Presidente Ramos-Horta concedesse um passaporte diplomático a um homem que, mais tarde, descobriu ser suspeito de integrar um grupo acusado de “operar esquemas de fraude online em larga escala no Sudeste Asiático”. A previsão era de que a primeira fase da obra do “AB Digital Technology Resort” seria concluída até ao final deste ano. Mas em fevereiro, quando a equipa de reportagem do jornal britânico The Guardian visitou o local, encontrou apenas um terreno vazio com terra batida.

A investigação do jornal teve como foco pessoas e empresas que estariam ligadas a um ambicioso e controverso projeto: a construção de um resort “onde a elite tecnológica poderia reunir-se para discutir as mais recentes inovações digitais” — naquele que é um dos países mais pobres do mundo. Um dos do alvos do trabalho do The Guardian estaria ainda associado ao Grupo Prince, do empresário Chen Zhi, que teve sanções impostas pelos Estados Unidos, que o acusaram em setembro de “comandar um império criminoso, forçando centenas de vítimas de tráfico humano a cometerem burlas online”. Em novembro, 25 pessoas ligadas ao grupo foram detidas em Taiwan. Nesse mês, a AB anunciou uma parceria com a empresa de criptomoedas da família Trump, segundo o Projeto de Reportagem sobre Crime Organizado e Corrupção (OCCRP, na sigla em inglês).

Em janeiro, o próprio Chen Zhi foi extraditado para a China, tendo sido escoltado por agentes da força de intervenção rápida (SWAT, em inglês), que na saída do avião o conduziram algemado e com o rosto coberto por um capuz. O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que “as autoridades estão a colaborar para combater golpes transfronteiriços“, mas não esclareceu ao jornal sob que acusações Zhi está a responder em tribunal.

Há outras três pessoas que estiveram envolvidas no projeto do resort, revelou o OCCRP em conjunto com o The Guardian: Yang Jian, Yang Yanming e Shih Ting-yu. O trio foi dispensado da empreitada após terem também sofrido sanções norte-americanas em outubro, por estarem relacionados com um empreendimento do grupo Prince. Porém, não há, até ao momento, confirmação de que  Chen Zhi ou o seu grupo estejam envolvidos no projeto em Timor-Leste.

O nome de outro empresário surgiu nas investigações do jornal, o que levantou novamente as suspeitas de que o Grupo Prince poderia estar indiretamente envolvido na construção no Sudeste Asiático. Lin Xiaofan, que se tornou conhecido pela alcunha “Frank”, chegou de avião particular a Timor-Leste em novembro de 2024, por ocasião de um fórum de investimentos em turismo. Na altura, ter-se-á apresentado ao Governo  como um representante de uma fundação de caridade, chamada AB, que “explora modelos inovadores de blockchain e filantropia”. E também como o responsável pela proposta do AB Digital Technology Resort. O seu nome não consta na lista dos acionistas da empresa, pelo que se defende dizendo que as suas ações “pertenciam a um amigo próximo”.

Passaporte diplomático como “recompensa” por doações ao país

A sua visita chamou a atenção do Presidente José Ramos-Horta, que disse ao The Guardian ter recebido da AB a quantia de 500 mil dólares para investir no programa de bolsas de estudo do Governo, além de “cerca de 100 laptops, 70 desktops e vitaminas para crianças e adultos”. O “ato de caridade” rendeu a Frank um passaporte diplomático, concedido por Ramos-Horta com o título de “conselheiro especial do Presidente de Timor-Leste para assuntos económicos e comerciais, e questões sociais e humanitárias na região da Ásia-Pacífico”. O documento foi emitido no mesmo dia em que foi solicitado pelo chefe de Estado, que alega que tal facto só terá ocorrido após “seis meses de análises” e com a validade de “seis meses a um ano”. O The Guardian verificou numa cópia do passaporte que este seria válido até julho de 2030.

A emissão do passaporte terá sido uma “recompensa” pelas doações e uma forma de valorizar as intenções de investimentos, disse Ramos-Horta. “O mínimo que podíamos fazer era [oferecer] algum status, o que eles apreciam. Embora, na prática, isso não faça diferença alguma”. Uma “condecoração” deste tipo a empresários, no entanto, não é comum, o que foi negado pelo Presidente. Ramos-Horta foi convidado por Frank para ser um dos 28 consultores seniores da Fundação AB, com sede na Irlanda — onde o presidente da empresa, Bertie Ahern, negou o envolvimento em negócios em Timor-Leste e disse também desconhecer as doações, que Frank disse ter realizado através da sua conta pessoal “com a autorização de um diretor”. Wen Danjing, um dos que ocupa lugares de direção na Irlanda, reafirmou que a empresa não está relacionada com o Grupo Prince, e que apenas colaborava em atividades de solidariedade social.

O passaporte poderia ser cancelado “a qualquer momento” caso as ligações de Frank com o Grupo Prince fossem comprovadas, disse Ramos-Horta. O empresário, que não é acusado de nenhum crime nem está sob sanções, negou que tal ligação ou qualquer atividade criminosa existam. Mas admitiu ter feito uma “viagem de cortesia” para a Suíça num avião de Hu Xiaowei, o “braço direito” de Chen Zhi no Camboja que foi acusado pelo Governo do Reino Unido de envolvimento na rede financeira do Prince. Frank disse desconhecer a relação entre os dois e que o seu único contacto com Chen Zhi ocorreu num jantar “puramente casual” em Londres.

Após a investigação do jornal britânico, a página da AB blockchain com os membros da equipa foi removida. Também foi excluída uma promoção do resort nas redes sociais, que citava um ex-Presidente de um país dos Balcãs. No mesmo período, a empresa publicou um gráfico a detalhar a fundação de cada uma das suas entidades. Por fim, a AB afirmou não estar envolvida em projetos hoteleiros ou imobiliários.

O Presidente do Timor-Leste admitiu que Frank e a fundação da qual dizia fazer parte “nunca apresentaram sequer planos sérios de negócios ou estudos de viabilidade” sobre o resort, com a alegação de que estavam à espera de autorizações das autoridades locais. O empresário terá ainda oferecido equipamentos de vigilância noturna ao chefe de Estado logo que soube da sua desconfiança sobre o Grupo Prince. Na altura, a polícia internacional foi contactada pelo líder timorense para apoiar as investigações. “É realmente um resort com dinheiro limpo, ou um caso de branqueamento de capitais? É mesmo um resort ou só conversa fiada?”, questionou Ramos-Horta em conversa com o Guardian.

Frank reconhece as preocupações, mas respondeu que tanto ele quanto a empresa não estão “nem nunca estarão” envolvidos em crimes, sendo o resort uma “atividade comercial normal e lícita“. E, mais uma vez, negou ter qualquer relacionamento com o Grupo Prince. As tentativas de esconder crimes financeiros com o investimento em hotéis é uma prática comum na capital daquele país. Em setembro de 2025, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) revelou que um hotel em Díli, parcialmente detido por um governante timorense, acolheu empresas suspeitas de crimes online e jogos ilícitos. E enquanto a obra do AB Digital Technology Resort permanece sem início e nenhuma fraude foi comprovada até ao momento, meninos timorenses continuam a jogar à bola no terreno à beira-mar, que permanece sem nenhum tijolo.

[As testemunhas, os relatórios, as fotos e os vídeos que desvendam como Renato Seabra matou Carlos Castro em Nova Iorque. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir o primeiro episódioaqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]