Entrou diretamente para o pódio das maiores compras portuguesas em Espanha. Ao fim de dois anos, a Bondalti, empresa portuguesa química do Grupo José de Mello, conseguir vencer a luta pela compra da rival Ercros, da Catalunha. Uma cobiça que já tem muitos anos.
A Ercros é uma “velha conhecida” da Bondalti, que olhou várias vezes para a empresa espanhola. Ainda a Bondalti era CUF. O reposicionamento do negócio químico do grupo que nasceu pela mão de Alfredo Silva levou a que, em maio de 2018, se tornasse Bondalti, entrando, segundo dizia a empresa, “numa fase de mais crescimento, mais ambição, mais inovação e mais internacionalização”. Para a então CUF, a marca Bondalti permitia “uma fonética internacional de origem ibérica e permite uma ligação clara entre o vocábulo Bond, que significa ‘ligação’ em inglês, e Alti, que tem origem no latim e remete para elevação, ambição e liderança”.
Nasceu a Bondalti no seio de uma empresa que então já tinha 120 anos.
Foi pela compra, nos anos de 1980, da Uniteca, de produção de cloro-álcalis, que a família de José de Mello — cujo espólio empresarial tinha sido nacionalizado no pós 25 de Abril — voltou ao setor químico. Mas só em 1997, com a aquisição da Quimigal, a insígnia CUF voltaria a ser reativada. Hoje CUF é sinónimo de saúde e Bondalti de química.
A internacionalização da área química começou, em Espanha, pela inauguração, em 2019, de uma unidade fabril em Torrelavega, na região da Cantábria, num investimento de 60 milhões de euros. O passo seguinte no país vizinho foi a aquisição, em 2021, do grupo Águas Alfaro (com o nome comercial AEMA), que atua no segmento de tratamento de águas.
Mas para a Bondalti não chegava. Há mais de 20 anos que olhava para a Ercros, sabe o Observador.
Dois anos e uma OPA não solicitada
A 5 de março de 2024 o mercado ficava a saber que a portuguesa Bondalti pretendia a Ercros. Lançou uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a companhia espanhola, oferecendo, então, 3,6 euros por cada ação, numa operação que podia ascender a perto de 330 milhões de euros. A OPA não foi solicitada, declarou logo a administração da Ercros. O mesmo é dizer que foi uma oferta hostil, e de facto de hostilidade se foi compondo o processo que demorou dois anos a ficar concluído.
A Bondalti recusa o epíteto de hostil. Mas a gestão da Ercros não mostrou o contrário. À Europa Press, Antonio Zabalza, que era então presidente da Ercros, atacou a Bondalti por, no seu entender, estar a tentar obter o controlo da Ercros “contra a sua vontade. Está, por isso, numa posição atacante, um ataque totalmente aberto, e que na qual está a começar a usar termos que não penso que sejam os adequados”.
O capital da Ercros estava muito disperso e não havia um núcleo de acionistas controlador. A gestão era “dona e senhora” da empresa. E por isso a OPA chegou aos jornais espanhóis, onde foi visível a guerra. As críticas de Antonio Zabalza, que liderava a Ercros há 30 anos, foram ao ponto de acusar a Bondalti de coação aos acionistas e de oferta oportunista, argumentando mesmo que a própria oferta tinha infligido danos na operação. A Bondalti também avançou na sua estratégia de comunicação, com João de Mello, seu presidente, a aparecer também ele em entrevistas nos jornais espanhóis.
“Antonio Zabalza tem uma visão, na minha opinião, muito negativa da companhia e dos seus acionistas”, atirou em conversa com o El Economista, na qual garantia que o presidente da Ercros não quis falar com a Bondalti, nessa altura já única na corrida à compra da empresa espanhola.
Isso porque neste processo, a Bondalti ainda enfrentou uma oferta concorrente. A Esseco propunha pagar mais do que a Bondalti. Se no início a empresa portuguesa oferecia 3,6 euros, a italiana avançava com 3,84 euros. Mas desistiu depois de ver o que tinha de fazer para que a sua operação fosse aprovada pelo supervisor da Concorrência espanhol. À Bondalti foram também impostos remédios, mas não os suficientes para demover a empresa portuguesa.
Sem acionistas controladores, a Bondalti não tinha interlocutores para “vender” a sua oferta. Teve de optar por uma estratégia mais ampla. Da gestão já não esperava nada. Não conseguiria nada. Tinha de olhar para os acionistas, milhares deles. Entre fundos e particulares por toda a Espanha (e alguns internacionais, menos). A Ercros não era apenas dos catalães, onde está sediada (Barcelona). Os acionistas estavam espalhados por toda a Espanha. Mas dois elementos, ligados à administração, foram mais vocais. Joan Casas Galofré e a sua mulher Montserrat García Pruns, que controlavam cerca de 10%, juntaram mais um grupo de acionistas e anunciaram, em missiva pública, que não aceitavam nenhuma das duas ofertas. A razão: o preço era baixo.
Reuniu-se, ainda assim, sabe o Observador, com alguns fundos e falou com alguns acionistas individuais. Até a Londres a gestão da Bondalti foi. E optou, também, por fazer uma campanha de publicidade. 750 mil euros investidos na campanha — nada comparado com os 40 milhões investidos pelo BBVA na OPA sobre o Sabadell. A campanha era a forma de chegar a tantos pequenos acionistas — a Bondalti desconhecia quem eram muitos deles, uma vez que a informação não lhe tinha sido disponibilizada. Uma campanha à dimensão do país. E acompanhada por um site criado propositadamente para o efeito, que teve milhares de visitas diárias.
Ao seu lado nesta operação esteve a Kreab, para ajudar na assessoria de comunicação e relações públicas, a Nova Expressão no marketing, a Cuatrecasas na parte jurídica, e o Santander na assessoria financeira.
Quase dois anos de análise concorrencial
Não é habitual, numa operação de concentração, a Comissão dos Mercados e da Concorrência (CNMC) espanhola — homóloga da Autoridade da Concorrência portuguesa — demorar dois anos a decidir. Mas foi, neste caso, o que aconteceu. O setor era um perfeito desconhecido da entidade, que, por isso, teve de olhar para cada pormenor e para cada elementos químico envolvido. Por cá a análise demorou pouco mais de três meses — notificada em março de 2024, a Autoridade da Concorrência deu o seu aval em junho desse ano com a sentença: “decisão de não oposição à operação de concentração”.
Em Espanha, o “sim” demorou um pouco mais. Só chegou no final de outubro de 2025. E depois de uma investigação aprofundada. A supervisora tinha, na mesma altura, em mãos a análise à polémica e difícil operação de concentração do BBVA e do Sabadell — à qual deu luz verde em abril desse ano, mas que acabou fracassada porque os acionistas não aceitaram vender as ações. E a mega-operação na banca espanhola caiu por terra. O mesmo não aconteceu à compra da Ercros pela Bondalti.
Passou no crivo da concorrência com remédios. A Bondalti falou em “compromissos exigentes”. A supervisora considerou haver riscos no negócio de hipoclorito de sódio (usado como desinfetante) — uma vez que se juntam na mesma empresa as fábrica de Torrelavega, de Sabiñánigo e de Vila Seca (as duas últimas da Ercros, a primeira da Bondalti). A companhia portuguesa aceitou vender até 85 mil toneladas desse químico anualmente ao preço de custo a fabricantes terceiros pelo menos durante cinco anos, prorrogáveis até ao máximo de 15 anos. O compromisso será monitorizado por um mandatário independente.
Depois desta luz verde, a Bondalti reafirmava a intenção de não mexer no preço oferecido. E levou a sua até ao fim. Não mudou o preço — que ficaria nos 3,5 euros (mais baixo que a oferta inicial porque entretanto foram distribuídos dividendos). Mas alterou uma condição de sucesso. Em vez dos 75% iniciais avançaria para a compra apenas com uma aceitação de 50% do capital.
Governo espanhol deu aval mas gestão tentava travar
As viagens a Espanha foram muitas ao longo dos últimos dois anos. A Bondalti reuniu-se, inclusive, com o ministro da Indústria e Turismo do governo espanhol, Jordi Hereu Boher, nascido catalão. Houve, segundo apurou o Observador, um contacto intenso com as entidades oficiais, quer no governo central, quer na autonomia catalã. A aceitação do Conselho de Ministros espanhol da compra de uma empresa espanhola por um investidor estrangeiro aconteceu em outubro de 2024. A Bondalti já tem presença em Espanha e o caminho estava por isso facilitado.
O travão era mesmo da própria gestão, opôs-se sempre à venda, acabando acusada pela Bondalti de “graves omissões, indicações com erros e inexatidões”. Tudo porque no seu relatório sobre a oportunidade da oferta arrasou com a proposta, indicando que os três membros do conselho de administração de Ercros que são acionistas da companhia declararam a sua intenção unânime de não vender as ações.
“A Ercros analisou as propostas passadas da Bondalti de integrar os dois grupos industriais, que foram recusadas por motivos estratégicos e por desacordo sobre a avaliação das empresas”, referia-se na oposição da gestão à OPA, que ainda dizia que em caso de êxito da oferta por parte da Bondalti, a Ercros “diluir-se-ia no organigrama empresarial do Grupo José de Mello e perderia a sua relevância num conglomerado muito maior, cujo negócio principal não é o setor químico.”
A Bondalti não gostou desta missiva. Não apenas dava a entender que a decisão era unânime — e existe mesmo uma votação contrária à do relatório –, como se fez por omitir o parecer do próprio assessor financeiro, a Evercore, que considerou a oferta “justa, do ponto de vista financeiro, para os acionistas da companhia”. O parecer consta, no entanto, do relatório completo.
A análise mais aprofundada do relatório da administração permite ainda verificar a concordância dos sindicatos ao negócio. As estruturas representativas dos trabalhadores consideraram que a OPA apresentada pela Bondalti “constitui uma operação estratégica com potencial para reforçar a posição industrial e competitiva da Ercros no setor químico, tanto a nível nacional como internacional”, emitindo parecer favorável por “considerar que a operação pode contribuir para reforçar a estabilidade, a viabilidade industrial e o futuro da força de trabalho, sempre sob o princípio da manutenção do emprego, respeito pelos direitos laborais e garantia de diálogo social”.
Uma análise dos sindicatos que a Bondalti carrega como uma distinção. Uma quase inédita tomada de posição dos sindicatos numa operação deste teor, em que é prometida a manutenção dos postos de trabalho e o crescimento de uma companhia que em 2025 apresentou prejuízos de 53,5 milhões de euros, um agravamento face aos 11 milhões de 2024. Além de ter registado uma queda de mais de 5% no volume de negócios que se situou nos 662,8 milhões de euros.
É claro que a Ercros está muito focada no negócio de PVC, que está em crise mundial. João de Mello já fez saber que a Ercros precisa de diversificar a operação e admite sinergias com a Bondali entre 10 e 15 milhões de euros. Ao Observador, em declarações escritas, o presidente da Bondalti justifica a insistência na Ercros pelo facto de operar “em setores e mercados similares ao da Bondalti o que potencia a criação de sinergias óbvias”. E acrescenta: “A indústria química, pela sua complexidade e competição global, quer pela aquisição de matérias primas quer pela captura de mercados e clientes, obriga a ter uma dimensão crítica para que uma empresa consiga ser competitiva. Assim, a união da Bondalti com a Ercros dará essa dimensão crítica mínima para competir nestes mercados tão exigentes”.
A gestão tentou derrotar a Bondalti, mas não conseguiu. Ao fim de dois anos, a Bondalti viu 77,23% dos acionistas da Ercros venderem-lhe as suas ações. O investimento total ascende a 247,5 milhões de euros, mas a empresa pretende avançar com uma oferta de exclusão em bolsa, propondo-se comprar o remanescente pelo mesmo preço.
A Bondalti venceu. E entrou diretamente para o pódio das maiores operações portuguesas em Espanha (juntando numa as duas aquisições da EDP), de acordo com uma lista fornecida ao Observador pela PitchBook.
Fruto da insistência da Bondalti nasce assim um novo campeão ibérico, como João de Mello designou ao Negócios. Ao Observador não fala em campeão, mas realça “a criação de um grupo químico de relevo a nível ibérico e com dimensão mínima crítica para competir num mercado adverso e muito complexo”.
No início, Alfredo Silva fundou a CUF que tinha como mote: “O que o País não tem… a CUF cria'”. Hoje a área química já não leva a marca histórica CUF, mas nem por isso a Bondalti deixar de criar… se não os produtos, as oportunidades.