Desafiar o impossível uma vez, missão cumprida. Desafiar o (ainda) mais impossível uma segunda ocasião, missão cumprida. O Arsenal podia não estar a atravessar a melhor fase da temporada, longe disso, não só nos resultados mas também nas baixas de alguns elementos vitais na estrutura da equipa. No entanto, e olhando de uma forma racional, partia sempre com uma boa dose de favoritismo frente ao bicampeão português. O que equilibrava depois as contas? Por um lado, o rendimento mais maduro do Sporting em termos coletivos nos jogos grandes. Por outro, aquele sentimento que se vivia em Alvalade de que os impossíveis existem para desafiar a possibilidade de fazer mais um pouco de história. Foi assim com PSG e Athl. Bilbao, com triunfos que valeram uma inédita passagem direta aos oitavos da Champions. Foi assim com o Bodö/Glimt, numa das maiores reviravoltas de sempre em eliminatórias que carimbou a passagem aos quartos – a primeira do clube no atual formato, a segunda na principal prova europeia de clubes. Agora seguiam-se os gunners.
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“Queremos tornar realidade o sonho, a continuar de alguma forma a marcar a nossa equipa, seja jogadores, seja equipa técnica. É isso que nos move, marcar a história de um grande clube como o Sporting. Acreditamos que podemos continuar a fazer algo de diferente e extraordinário [na Liga dos Campeões]. Que os nossos adeptos continuem a fazer de Alvalade um lugar mágico, como têm feito esta época”, apontara na antevisão Rui Borges, ciente do choque estatístico que se avizinhava entre um Sporting que nunca ganhara aos londrinos em sete jogos oficiais (até a passagem nos oitavos da Liga Europa de 2022/23 foi conseguida com dois empates e desempate favorável nas grandes penalidades) mas que, em contrapartida, somava por vitórias os cinco encontros realizados na Liga milionária em casa, em mais um registo sem precedentes que valeu também a maior série de triunfos consecutivos como visitado em toda a história do clube leonino (17).
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“Acho que nesta fase da Champions não se pode dar favoritismo a ninguém. São duas grandes equipas a disputar uma eliminatória avançada da competição, duas equipas que marcaram de forma positiva o seu trajeto. O Sporting só tem vitórias em casa nesta Liga dos Campeões e quando ninguém esperava terminou no top 8. Não acredito que haja um favoritismo claro. Acredito, sim, que os nossos adeptos poderão fazer uma pequena diferença frente a uma equipa que está claramente nas três melhores da Europa”, assumira, passando ao lado do atual momento do Arsenal e da eliminação nos quartos da Taça de Inglaterra frente ao Southampton após a derrota na final da Taça da Liga com o City. “Vêm feridos, mais concentrados e rigorosos. Acho que ainda dificulta mais o nosso trabalho. Goleada sofrida na última época? O foco está no presente, não no passado, para conseguir um futuro cada vez melhor e mais marcante. O Arsenal tem mais jogadores, se calhar está mais forte do que na passada temporada, mas o Sporting também está mais forte”.
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De forma inevitável, Viktor Gyökeres tornou-se um dos principais focos também de conversa na antecâmara do duelo – tal como Luis Suárez, avançado colombiano que não passa ao lado dos grandes clubes da Europa pela melhor temporada da carreira. Mais: o sueco, que regressava a Alvalade depois de dois anos de sonho e uma saída “conturbada” que não deixou de ser a maior transferência da história dos leões, poderia ter pela frente Ousmane Diomande, central marfinense com quem foi fazendo faísca em vários treinos a ponto de, numa história menos conhecida do período Ruben Amorim, ter sido colocado mais “afastado” do avançado para evitar fricções (mesmo que ficassem circunscritas a esse momento em campo). “O Viktor é um grande jogador mas não nos focamos num jogador mas sim no grupo. Sabemos do que é capaz individualmente mas focamos muito na capacidade coletiva do Arsenal. Os grandes jogadores, a qualquer momento, fazem a diferença. Não vou estar aqui a dizer a estratégia mas tem variabilidade, dependendo dos jogadores que vão jogar. Num milésimo de segundo de uma distração nossa, faz mossa. Estaremos preparados”, assumira.
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“O nosso principal objetivo será sempre o Campeonato. Dentro da Champions, vamos lutar por continuar a fazer algo de diferente. O coletivo tem dado essa resposta, o grande grupo que temos tem dado essa resposta. Jogue quem jogar, vai dignificar o emblema que leva ao peito. Diomande-Gyökeres? São jogadores super competitivos e é normal que dê faísca, no bom sentido da palavra. Dentro do coletivo, temos de conseguir pará-lo. Os grandes jogadores, por mais que a gente os conheça, conseguem fazer a diferença. Será certamente bem recebido por todos nós porque marcou a história do Sporting, do futebol português e merece ter esse reconhecimento”, completara a esse propósito Rui Borges, que antes tinha sido muito elogiado pelo homólogo do Arsenal, Mikel Arteta “O recorde em casa é incrível e sei que é muito difícil manter esse rendimento. As equipas mudam e esta está diferente, basta recordar que derrotaram o PSG aqui. Rui Borges é muito bom treinador, basta ver o rendimento do Sporting e como os jogadores têm evoluído. Nota-se uma grande variabilidade numa equipa que coloca muitos jogadores no ataque”, salientara.
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Depois de ter jogado com equipas de Champions como PSG, Bayern, Nápoles ou Juventus, depois dos duelos nacionais na “sua” Champions com FC Porto, Benfica ou Sp. Braga, o Sporting e o próprio Rui Borges tinham o maior desafio de toda a temporada pela frente – e, no caso do técnico e dos jogadores, um dos dos maiores desafios da carreira. Assente numa estrutura tática e numa identidade de jogo que não mexe dentro de uma variabilidade que advém dos elementos em campo e dos objetivos para os diferentes momentos da partida, o Arsenal chegava a Alvalade ferido pelas recentes derrotas consecutivas em provas a eliminar mas não tinha perdido em nada aquela que é uma das suas armas mais fortes: as bolas paradas. Se os movimentos de Gyökeres mais para abrir espaços do que propriamente para procurar a profundidade para decidir no 1×1 e a forma de gerir em posse iam ser um problema, os cantos, os livres laterais e até os lançamentos iam ser a principal dor de cabeça para um Sporting que teria de ser, acima de qualquer argumento, eficaz em tudo.
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Foi isso que aconteceu. Aconteceu quase sempre, aconteceu em quase todos os momentos, aconteceu quase até ao último minuto. Num momento histórico para o clube, o Sporting conseguiu fazer uma fantástica prova de vida em termos europeus: grande organização coletiva, rigor nas bolas paradas contrárias, capacidade de perceber os momentos de jogo, disponibilidade para sair em transições quando o espaço aparecia. Foi assim também que, quando parecia estar a claudicar em termos físicos, criou as duas melhores oportunidades da segunda parte (antes, Maxi Araújo já tinha acertado na trave) com David Raya a mostrar o porquê de ser um dos melhores guarda-redes da atualidade e ficou perto da vantagem nos derradeiros minutos. No entanto, e nos descontos, Kai Havertz deitou um balde de água fria em Alvalade após assistência de Gabriel Martinelli, mostrando a diferença gigante de soluções das duas equipas. Diomande não merecia, Morita não merecia, Geny Catamo não merecia. Ainda assim, o que se viu foi uma derrota no jogo e não na eliminatória.
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Ficha de jogo
Sporting-Arsenal, 0-1
1.ª mão dos quartos da Liga dos Campeões
Estádio José Alvalade, em Lisboa
Árbitro: Daniel Siebert (Alemanha)
Sporting: Rui Silva; Iván Fresneda, Diomande, Gonçalo Inácio, Maxi Araújo; Morita, João Simões (Daniel Bragança, 62′); Geny Catamo, Francisco Trincão, Pedro Gonçalves (Rafael Nel, 79′) e Luis Suárez
Suplentes não utilizados: João Virgínia, Diego Callai, Debast, Vagiannidis, Kochorashvili, Faye, Flávio Gonçalves, Eduardo Quaresma e Ricardo Mangas
Treinador: Rui Borges
Arsenal: David Raya; Ben White, Saliba, Gabriel Magalhães, Calafiori; Zumbimendo, Declan Rice, Ödegaard (Kai Havertz, 70′); Madueke (Max Dowman, 76′), Trossard (Gabriel Martinelli, 76′) e Gyökeres
Suplentes não utilizados: Kepa Arrizabalaga, Ranson, Mosquera, Gabriel Jesus, Norgäard, Lewis-Skelly, Annous e Salmon
Treinador: Mikel Arteta
Golo: Kai Havertz (90+1′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Morita (31′)
Os primeiros minutos explicaram esse amadurecimento tático e de mentalidade do Sporting, sobretudo em comparação com o que acontecera em encontros recentes frente ao Arsenal: clara perceção dos momentos de jogo, grande sentido posicional sem bola com um bloco médio a “encaixar” na primeira fase de construção dos londrinos, boa transição defensiva na reação à perda com destaque para Morita e João Simões, muita variabilidade de opções na saída para o ataque. Foi assim que, logo nos minutos iniciais, nasceu a primeira grande oportunidade do encontro: Diomande encarnou em Maradona por uns segundos com fantástico passe de trivela a explorar a profundidade, Maxi Araújo ganhou as costas de Ben White mas o remate acabou por bater com estrondo na trave (7′). O assomo ofensivo dos leões não ficaria por aí, com mais um tiro de fora do uruguaio que saiu perto da trave (8′) e um cruzamento remate de Geny Catamo travado por Raya (10′). Se é verdade que os gunners gostam de ter sempre o controlo dos jogos, a ideia estava “descontrolada”.
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Com duas bolas paradas à mistura, o Arsenal conseguiria depois recuperar esse comando. Com mais bola, com uma circulação sem grande rasgo mas segura, com outra capacidade de marcar ritmos. Diomande teve um corte providencial após um livre lateral de Ödegaard (14′), Noni Madueke teve um canto no lado direito do ataque que bateu na trave da baliza de Rui Silva num lance em que o guarda-redes pareceu carregado na pequena área por Gabriel Magalhães sem nada assinalado (15′) e o Sporting entrou depois numa fase em que quis sobretudo cumprir tudo o que trazia para o encontro sem bola, cedendo a posse aos londrinos e fazendo a melhor ocupação de espaços possível para retirar os criativos do jogo mesmo que isso levasse ao “afundar” de linhas defensivas. Foi também por isso que, em vez de lançar saídas rápidas, os leões foram optando por “respirar” com bola após recuperar a posse – sendo que, sempre que a profundidade era explorada com passes longos dos centrais, percebia-se o desconforto de Ben White na direita com as subidas de Maxi.
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Ainda houve algumas precipitações e passes errados no primeiro terço à mistura mas o Sporting ia mantendo o nulo frente a um Arsenal que continuava longe daquilo que fez na metade inicial da temporada (e que lhe valeu a atual liderança na Premier League): Gyökeres e Ödegaard não existiam, Trossard não desequilibrava por fora nem por dentro, Madueke ganhava duelos a Maxi Araújo mas não conseguia dar continuidade a esse movimento, Rice e Zubimendi jogavam quase sempre para o lado e não para a frente. Os leões voltariam a ter mais bola nos minutos finais antes do intervalo, apesar de o único remate ter pertencido a Ödegaard numa meia distância de pé direito encaixada com segurança por Rui Silva (43′), mas a ideia que passava era que, quando não entrava no jogo do “gato e do rato” sem bola, o bicampeão nacional tinha argumentos para desafiar o maior poderio dos londrinos. Faltavam os golos, sobrava atitude da equipa verde e branca.
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A segunda parte não trouxe alterações nos nomes mas foi mostrando outras dinâmicas nas duas equipas, com Trossard a conseguir pela primeira vez ganhar a Fresneda e entrar na estrutura do Sporting jogando por dentro antes do remate fraco e ao lado (49′). Os gunners procuravam variações mais rápidas e frequentes de corredores, os leões assentavam o seu jogo numa organização sem bola à prova de bala para tentarem depois as saídas em transições explorando a velocidade de Geny Catamo e os movimentos de Luis Suárez ou o passe longo a partir dos centrais. Assim, e dentro da mesma toada, os momentos de maior agitação acabavam por ser as bolas paradas dos visitantes e as saídas rápidas com ligação dos visitados, neste caso com Francisco Trincão a rematar ao lado após jogada entre Pedro Gonçalves e Maxi Araújo pela esquerda (57′). Exceção? Um lance em que Gyökeres conseguiu combinar por dentro com os companheiros, neste caso com Zubimendi a ter um grande remate à entrada da área que acabou por ser anulado por fora de jogo do sueco (63′).
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Chegava o momento das substituições, com Daniel Bragança a render João Simões e Kai Havertz a entrar para a vaga de Ödegaard. Agora com a parte física a ter também influência, a presença verde e branco no jogo ia decrescendo mas nem por isso os comandados de Rui Borges deixaram de acreditar que era possível algo mais do duelo, com Geny Catamo a assumir a batuta ofensiva da equipa com um primeiro remate ao lado na sequência de uma diagonal da direita para o meio após boa variação de Pedro Gonçalves (79′) e depois com um desvio de cabeça ao primeiro poste após um grande trabalho de Luis Suárez descaído sobre a direita (83′). Gabriel Martinelli ainda teve um remate forte para defesa de Rui Silva mas a tendência estava a cair para o Sporting, que beneficiaria de seguida da melhor oportunidade do segundo tempo com um remate de Geny Catamo defendido por David Raya antes de nova intervenção na recarga de Luis Suárez (87′). O jogo estava a chegar ao fim, o golpe de teatro estava ao virar da esquina: Gabriel Martinelli colocou-se por dentro e assistiu Kai Havertz na desmarcação de rutura para o golo da vitória do Arsenal (90+1′), num momento com tanto de inglório como de cruel no único erro coletivo da organização defensiva no encontro.
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