Chegámos com 15 minutos de atraso — culpa do trânsito e da dificuldade em circular numa zona com várias ruas restritas — e deparámo-nos com Isabella Solal-Céligny sentada numa mesa de um café mesmo à porta do prédio onde vive. Vinha da Costa da Caparica para nos receber mas, afinal, esqueceu as chaves de casa. E foi debaixo de um sol de fim de tarde e início de primavera, que começamos a conversa, enquanto esperávamos a chegada do Uber que nos trouxe o acesso à cobertura onde mora com a família, em Alfama, a uma curta caminhada do Castelo de São Jorge.
Isabella usa calças de ganga rasgadas (diz que são as Levi’s mais antigas que tem) e uma camisola larga da Mikuta Club, uma marca de joias e roupas alemã, que produz em Portugal. Tem os cabelos presos de forma despreocupada e não usa maquilhagem. Vê-se logo que é estrangeira, mas tem ar de local, numa Lisboa cada vez mais multicultural. E depois de quase cinco anos na capital portuguesa, tem uma rotina típica de uma francesa que vive e explora ao máximo as alargadas horas de sol em terras lusas. O seu dia-a-dia combina kitesurf, padel, jantares na Praça das Flores e muitas aulas de reformer. Esta última, em particular, porque a vida apresentou-a o pilates há alguns anos, e porque foi em Portugal que deu o primeiro passo para mudar completamente de vida, e onde decidiu estudar e abrir um estúdio próprio, que agora já está presente em três moradas entre Lisboa e Cascais.
Durante a conversa inicial, conta-nos que a filha prepara-se para fazer faculdade em Londres. Isabella também estudou na capital britânica quando era jovem: viveu em Londres por cinco anos, onde tirou a licenciatura em Jornalismo. Depois regressou a Paris, onde terminou um curso na Escola de Jornalismo e trabalhou três anos como freelancer entre revistas, televisão e rádio. Ainda dentro da comunicação, migrou para a função de relações públicas, quando entrou no mundo da moda e do desporto. Esteve na Levi’s por seis anos, e na Nike por oito, onde trabalhou diretamente com a Converse, a marca das sapatilhas All Star. Com a pandemia veio uma reestruturação da empresa, o que Isabella considera, profissionalmente, ter acontecido num bom timing. Mudou-se para Lisboa em 2021 já com o diploma de personal trainer, e completou uma certificação de pilates clássico de 300 horas, em português. E então, em 2023, fundou o The West Side Studio, nas Amoreiras, que agora responde pelo nome The Reformer Lab. Já tem unidades em Santos e no Estoril, uma equipa de mais de 40 pessoas e, além das aulas de pilates, espaço de wellness com sauna infravermelha e cabina de tratamento com LED.
As chaves chegaram ao fim de 15 minutos. O Uber pára o carro ao pé da rua e já vem com um passageiro à boleia. Isabella deixa o dinheiro para pagar a água sobre a mesa e leva-nos à sua casa. “Podem subir até o último andar”, diz-nos, sobre as escadas que nos esperam. Entramos mesmo na última porta do prédio, e ao primeiro passo tem-se logo a recompensa por ter enfrentado tantos degraus: uma janela do teto ao chão faz de moldura para um quadro da vida real. A vista é praticamente a mesma — talvez melhor — que a do Miradouro de Santa Luzia. À primeira vista, é tudo azul. Depois, ao chegar mais perto, vemos o cimo dos telhados alaranjados de Alfama, as paredes entre o rosa claro e o amarelo, que descem até o rio, onde está um grande navio de passageiros atracado no terminal de cruzeiros. Aliás não é só dessa janela (ou parede) de vidro gigante que se pode ver o lado de fora. O apartamento tem ainda um terraço com direito a churrasqueira e espreguiçadeiras, onde a família francesa passa algum tempo (mas não o suficiente, diz Isabella), a ler ou a grelhar qualquer coisa — tal qual bons franco-lisboetas.

À margem da vista, a casa traz um pouco da história de quem aqui vive. Como a mesa de jantar, vinda da casa da avó do marido, em Grasse, uma cidade ao norte de Cannes famosa pelos perfumes; ou os cadeirões da sala, que tiveram os têxteis substituídos porque Isabella não gostava da cor. Numa estante, a balança de farmácia que foi de um avô, ao lado de alguns objetos tradicionais judaicos, como uma menorá. É judia por parte de pai, mas não vai à sinagoga — diz manter a espécie de altar como uma memória das próprias origens, e que busca a espiritualidade em várias religiões (“Lemos a Bíblia também”, destaca). Fã de Jean Michel Basquiat, mostra-nos “a primeira obra de arte da casa”, um quadro que encontrou com o marido numa viagem — que não é do artista norte-americano, mas lembra a sua estética transgressora. Nas estantes, outras peças de artistas que conheceu pelo caminho, alguns também franceses a viverem em Portugal, como as ceramistas Laetitia Rouget e Amande Haeghen, ou a ilustradora Été 1981, dividem espaço com as dezenas de livros, que vão da sala ao quarto. Ao caminhar pelas divisões Isabelle aponta para o quadro favorito, da francesa Bastien Coulon, um presente que ganhou de amigos num aniversário há uma década. “Acho que ela é incrível, é muito poética.”
É no sofá que continuamos a conversa, numa certa paz ritmada que, de alguma forma, Isabella adotou para si. Não tão calma como uma yogi, mas não tão intensa como uma executiva urbana, parece encaixar-se na confusão sossegada de Alfama. Mas será Lisboa o destino final? Talvez não. No horizonte está a Grécia e até o Brasil, mantendo sempre uma âncora em Portugal, onde os negócios vão muito bem, obrigada.
Já viveu em Londres, foi jornalista e depois relações públicas. Como é que entrou no mundo do bem-estar?
Boa pergunta. Na verdade, sempre gostei muito de desporto. E experimentei quase todos os desportos e gostava muito de treinar, até de ir ao ginásio. E eu era uma pessoa de ginásio, adorava. Corria muito na altura, mas quando tive o meu segundo filho, não pude correr mais por causa do parto. Como não conseguia correr, descobri o pilates reformer em Paris. Foi há oito anos, era o início do pilates em Paris. As pessoas faziam muito pilates, mas não havia estúdios de reformer coletivos, nem o reformer dinâmico. E abriu um mesmo ao lado do meu local de trabalho, por isso ia lá imensas vezes. E comecei mesmo a ficar viciada e a ir todos os dias. E já pensava naquela altura, na minha cabeça, que gostava de ter o meu próprio estúdio de pilates um dia, quando deixasse de trabalhar para a Nike, mas não em Paris, porque estavam a aparecer muitos estúdios. Então procurei um sítio onde não houvesse nenhum. E Lisboa não tinha nenhum estúdio de pilates dinâmico na altura, há oito anos. Agora mudou, é claro. Por isso decidimos, com a minha família, ir para um sítio onde eu pudesse abrir o meu estúdio. E não muito longe de Paris: por isso tinha de ser Lisboa, porque fica a duas horas de Paris, é uma capital. E havia esta oportunidade de fazer crescer um negócio.
E como foi a mudança de toda a família por um negócio que, na altura, não tinha a certeza de que iria funcionar?
Acho que o meu marido queria mesmo fazer uma mudança e adorou o estilo de vida de Lisboa. E sabíamos que, se eu não conseguisse abrir o meu negócio, iríamos para outro sítio. Tirei a minha certificação de pilates clássico — é muito bom ter as fundações clássicas antes de passar para um ensino mais contemporâneo. E eu queria muito fazê-lo em Portugal, porque para mim era uma oportunidade incrível de conhecer também os instrutores de amanhã e de começar a estar neste mercado. Ao fim de um ano andava à procura de sítios para o estúdio, mas não conseguia encontrar nada. O meu marido é produtor de eventos e especialista em eventos desportivos e artísticos, e estava no Qatar para o Campeonato do Mundo nessa altura. Por isso, no início estive muito tempo sozinha com os miúdos para nos instalarmos, e não viemos logo para este apartamento. Tínhamos um apartamento que não era muito agradável, sem vista, sem luz. E isso estava a deixar-me muito deprimida, porque tínhamos algo muito mais agradável em Paris. Então eu pensava: mudamos e agora estamos nisto, porque os apartamentos em Lisboa também podem ser muito deprimentes às vezes. Então, ao fim de um ano, disse ao meu marido: “Acho que não está a funcionar em Lisboa, precisamos de encontrar outra cidade”. Estávamos a pensar Atenas, Mediterrâneo, porque somos ambos mediterrâneos, adoramos o sol, talvez Barcelona ou Madrid. E depois consegui encontrar um local.
E já conhecia alguém na área ou tinha alguma rede de contactos?
Eu não tinha nem um amigo. Éramos apenas o meu marido, eu e os nossos dois filhos, não conhecíamos uma única pessoa.
Teve alguma outra experiência com empreendedorismo antes?
De todo. E não tenho sócios até agora, não tenho investidores. É tudo meu, é a minha própria empresa, ainda estou sozinha. E tem sido uma jornada, porque abrir a sua primeira empresa num país estrangeiro, noutra língua, num negócio que não conhece… E agora temos cerca de 45 pessoas a trabalhar para o The Reformer Lab. Somos uma grande equipa agora. Por isso foi realmente uma jornada. Mas o segredo disto é que é realmente o que eu gosto de fazer todos os dias. Sou mesmo eu, gosto de ir ao pilates. E tenho muitas restrições financeiras, claro, mas mesmo assim, continua a ser o que eu gosto de fazer todos os dias.




Quando fala sobre como tudo aconteceu, parece fácil…
Não tenho facilidades para nada. Aprender pilates nunca foi fácil, fazer kitesurf nunca foi fácil, para mim é sempre difícil. Mas como sou muito perseverante e persistente, e trabalho muito, as pessoas dizem-me: “Oh, tens tanta sorte”. Quer dizer, não há absolutamente sorte nenhuma. Há apenas trabalho, trabalho, trabalho para tudo. Acho que fui a pior aluna de pilates de sempre quando comecei, há oito anos. Não conseguia fazer nada, e simplesmente continuei a fazê-lo tantas vezes e agora sou professora. Para o kitesurf, normalmente as pessoas conseguem andar mais ou menos depois de uma semana de treino intenso. Eu demorei um mês, mas agora ando bem, percebe? Por isso, tudo me custa muito, muito, muito. E estava a dizer o mesmo à minha filha. Ela trabalha muito, estuda muito, e agora tem resultados muito bons. E temos isso na família, somos todos grandes trabalhadores. Por isso é doloroso, mas sabe, é a forma como se conseguem as coisas. E essa é a nossa educação, a minha e a do meu marido também, fomos educados assim. Na escola aos 15 anos, às vezes há alunos que não fazem nada e continuam a ter boas notas, mas não são os alunos que terão grandes carreiras. Porque, a certa altura, a pessoa que trabalhar arduamente conseguirá sempre uma carreira melhor ou uma felicidade melhor também no que obtém. Por isso é realmente algo que tentamos transmitir aos nossos filhos.
Qual foi a parte mais difícil?
No início, a parte mais difícil diria que foi toda a confusão administrativa. Aautorizações, documentos, negociações. Quer dizer, não é que seja difícil, mas não é a minha área. Agora, a parte mais desafiante é manter a equipa unida, coesa, e por muito tempo, para manter realmente esta coesão na equipa.
Disse que no The Reformer Lab trabalham 45 pessoas. São todos instrutores? O que é que fazem?
Há um escritório que é a gestão. Somos uma equipa de quatro gestores. Portanto, há um diretor de marketing, um treinador principal, uma diretora operacional e eu. São quatro pessoas a gerir. E depois há rececionistas, gerente de estúdio e instrutores.
Nos seus estúdios, além das aulas de reformer, também tem sauna de infravermelhos e terapia LED. Diz que os estúdios refletem o seu estilo de vida. Como é que descobriu estas tecnologias?
Quando lancei o The Reformer Lab, estava à procura do meu “porquê”. Por que é que vens ao The Reformer Lab? E eu estava a pensar no conceito, que é realmente sobre a beleza de dentro para fora, sobre como podia ser “forever young” (sempre jovem), algo muito sobre longevidade. E depois pensei: ‘não, “forever young” não faz sentido, porque ninguém é sempre jovem’. E se fores sempre jovem, significa que estás morto. Não quero fazer esta promessa. Por isso cheguei a outro conceito, que é na verdade “radiant forever” (radiante para sempre), porque ser radiante não tem idade. Podes ser radiante aos 80, 40, 30, 20. Essa é a promessa do estúdio. E o radiante para sempre não é apenas sobre movimento, sobre bem-estar, sobre reformer. É um conceito de 360º, onde podes fazer sauna de infravermelhos para aumentar o teu metabolismo, para aumentar a tua longevidade. Podes fazer terapia LED para ter a tua pele saudável e radiante. E, claro, o movimento é a parte número um da longevidade, porque há muitos estudos. E sabemos agora que o desenvolvimento muscular é a ferramenta número um para a longevidade.
Tinha algum outro conhecimento sobre estas técnicas de longevidade antes de aprender pilates? Tinha muito interesse, estava sempre a ler. Sendo eu a minha primeira cliente, testo muitas coisas, e assim que há alguma tecnologia, experimento-a, e é muito curado o nosso estúdio. Vendemos colagénio, mas é o que eu experimentei entre talvez mil que trouxemos de França, e somos os únicos. O mesmo para as bebidas. Temos muitas bebidas funcionais com vitaminas. Experimentei muitas, e é desta que mais gosto. O The Reformer Lab é muito curado naquilo que oferece.
Estes tratamentos e bebidas fazem parte das suas próprias rotinas também?
Sim, claro. É realmente o que eu faço, percebe, a sauna de infravermelhos, a terapia LED, o colagénio, o pilates, e as aulas de barre. Nunca poderia vender algo em que não acreditasse 1000%. Nunca. Quer dizer, mesmo no início, as pessoas diziam-me: “Oh, por favor, professores, por favor, podemos fazer yoga?”. Eu fiz yoga porque experimentei tudo, mas ficava extremamente aborrecida com o yoga a toda a hora. Para mim, é extremamente doloroso. E tentei, porque nunca digo isto depois de duas sessões, fi-lo talvez durante dois anos, semanalmente, até dizer não. Acho terrível. E as aulas estavam vazias, quer dizer, não estava a funcionar. Tem de estar 100% alinhado com o que eu acredito a 1000%.

Tem outros hábitos de longevidade na sua vida?
Eu jejuo, sim. Faço um jejum de uma semana, uma vez por ano, apenas com água. De segunda a sexta-feira, cinco dias. No ano passado fiz sete dias, porque fui fazer caminhadas, e era um retiro de jejum, por isso foram sete dias. Não tomo banhos frios, não gosto. Para mim, os hábitos de longevidade devem ser realmente feitos à medida para si, e o que a faz sentir bem. A mim, os banhos frios não me fazem sentir bem, fazem-me sentir stressada. E até ir ao oceano, só gosto quando está muito calor em agosto, caso contrário não consigo. Mas para mim, o kitesurf é o meu hábito de longevidade. Deixa-me super feliz, e é por isso que faço este trabalho, é para poder ter a minha própria rotina.
E este retiro de de jejum foi em Portugal?
Não, foi no sul de França. É um retiro de jejum muito famoso. Este ano quis fazê-lo em casa, porque não tive tempo, mas ainda assim quis fazer o meu jejum. Então o que fizemos, criei um grupo de WhatsApp que se chamava “Fast and Furious Club”. Encomendámos alguns caldos, mas depois de dois dias, caldo não dá, porque ficas muito enjoada. E fizemos de segunda a sexta-feira à noite, e éramos um grupo de dez. Claro, depois de dois dias algumas desistiram, mas eu fui até o fim, os cinco dias. Para mim é uma limpeza profunda do corpo, e é muito meditativo também. Mudamos o ritmo, abrandamos, porque a energia está baixa, mas eu continuo a fazer pilates e padel.
Joga padel com que frequência?
Três vezes por semana, com as minhas amigas, fazemos torneios de padel e adoramos. Faço aulas também. Quando lancei o meu negócio, trabalhava que nem uma louca, nem sequer tinha fins de semana. Mas agora, tenho uma equipa muito boa à minha volta, por isso tiro tempo livre. E esse também era o objetivo. Não se está aqui para trabalhar que nem um louco a vida toda. Então este ano decidi tirar algum tempo para o padel, para o kite, para ir ver o meu filho a surfar na quarta-feira à tarde. Para ficar em casa, ir para o meu terraço, ler, pegar no meu computador, mudar o meu ritmo. Devo estar sempre alinhada porque não posso promover uma rotina de bem-estar se estiver atrás do meu computador, stressada o dia todo.
Gosta de ir à praia?
Gosto de ir à praia, mas preciso de fazer desporto, não consigo estar deitada na areia da praia. Mas gosto de ir ver o meu filho a surfar na Costa da Caparica. Agora temos um estúdio no Estoril, por isso às vezes gosto de caminhar na praia. Num domingo fizemos uma caminhada na Caparica, desde o Golfe da Aroeira até à Praia da Piscina. São tipo cinco horas nas montanhas, é super bonito. Então às vezes vou, almoço na praia. A proximidade da praia em Portugal não tem preço. Pega-se no carro e 20 minutos depois está-se na praia. O meu marido é muito de praia, tem de ir à praia três vezes por semana.
Há algum outro sítio em Portugal onde vá fazer caminhadas na natureza?
Adoro caminhar por Sintra, pela Arrábida. Caminhar é o meu programa favorito nas férias. Adoro. Podia caminhar o dia todo na natureza, muito mais do que estar deitada à beira da piscina ou da praia.
Gosta de passar férias aqui em Portugal?
Adoramos férias em Portugal, mas talvez não em julho e agosto, quando fica muito cheio. Por isso estamos muito habituados a sair durante todo o verão e voltar para França. Este ano vamos à Croácia descobrir alguns sítios novos. Temos sempre pelo menos um sítio novo que descobrimos com a família todos os verões.
E no seu dia a dia, gosta de ir a algum restaurante ou café?
Tenho muitos cafés que adoro e hoje à noite tenho um jantar mensal com as minhas amigas. Reservei um restaurante aqui ao lado, 400 metros daqui, o Gancho Lx, de Louise Bourrat. Ela é uma vencedora do Top Chef em França. Habitualmente vamos ao Magnolia ou ao Bar Alimentar. Mas desta vez pensei: ‘ok, vamos mudar, porque vamos sempre à Praça das Flores’. Tenho uma padaria que adoro também, é um rapaz que faz o seu próprio pão. Chama-se Messiah Lisbon, é simplesmente fantástico. Descobri um em Alfama que é muito bom também chamado Antú, com cozinha tradicional portuguesa, que é incrível.
O que mais gosta na gastronomia portuguesa?
O peixe fresco português, gosto de produtos puros que não sejam transformados. Apenas legumes com azeite, muito simples.
No início disse que não tinha amigos, como conheceu o seu grupo de amigas?
Tenho muitos bons amigos agora porque com o Liceu Francês, o padel e o meu estúdio conheci muita gente de França. Conheci muita gente super simpática em Portugal.
No estúdio tem mais clientes internacionais ou portugueses?
Pergunta muito interessante. Muita gente assume que temos apenas expatriados, mas tenho muito orgulho em dizer que o retiro que organizámos em setembro, na Quinta da Comporta, teve 100% de clientes portugueses. Nas Amoreiras temos 75% de público português e 25% de expatriados, muito poucos franceses na verdade. Em Santos é mais equilibrado, porque é uma zona de nómadas digitais, e no Estoril diria que é mais equilibrado também porque há muitos americanos, mas temos portugueses no geral. O português é a minha clientela principal e este estúdio é para portugueses. Tenho muito orgulho no facto de muitos clientes portugueses terem descoberto o pilates connosco. Não são americanos que faziam pilates em Nova Iorque, são muitos portugueses que nunca tinham feito pilates, vieram e ficaram viciados.
O que trouxe da sua experiência em marcas como a Levi’s e a Nike para o seu novo negócio?
Mesmo que se reinvente muitas vezes na vida — toda a gente o faz — não se reinventa realmente. É-se sempre a mesma pessoa, com todas as suas origens e experiências. E eu estava a fazer relações públicas, estava a trabalhar muito no branding, no marketing e no que faz de uma marca uma marca que os clientes amam e à qual voltam. E a Nike e a Levi’s têm este ADN de marca muito poderoso. Veja (aponta para as calças de ganga), esta é a peça mais antiga que tenho e continua a ser uma marca muito próxima do meu coração porque é mais do que apenas uma marca, é mais do que marketing, são todos os estilos de vida que acompanham a Levi’s. É o seu bisavô a usar uma peça, é a sua mãe, os seus filhos também. E é o mesmo com a Nike; eu estava a trabalhar para a marca Converse, que pertence à Nike. Tem-se sempre um par de Converse e é muito mais do que uma marca. E eu queria este ADN de marca muito forte aplicado à marca que estava a lançar. Não estava apenas a abrir um estúdio de pilates, estava a lançar uma marca.
São duas marcas muito ligadas ao universo da moda. Sente conexão com este mundo?
Toda a minha vida estive na moda, mas sempre em marcas com um lifetyle muito vincado. Estávamos até a fazer desfiles de moda a certa altura para a Levi’s, por isso estava realmente muito enraizada na moda. Neste momento, tenho muito cuidado com o vestuário dos instrutores. Não é propriamente moda, mas é ter alguma coerência dentro da marca. Contratei um diretor artístico para criar todo o ADN da marca em França, que tinha feito alguns restaurantes que eu adorava, o logótipo e tudo.




Onde vai buscar inspiração para a estética que quer?
Passei muito tempo na Califórnia e foi de lá que tirei muitas das minhas inspirações em termos de pilates e em termos de design do estúdio. É um dos primeiros sítios onde o pilates reformer coletivo tornou-se popular, além de Byron Bay e Sydney. Fui muito a ambas estas cidades porque tenho família lá, o meu primo vive em Byron Bay e a minha melhor amiga em Sydney, e eu fui a todos os estúdios. Para mim é uma mistura perfeita: Lisboa, Byron Bay, Sydney e Califórnia. Porque temos este estado de bem-estar real, vive-se ao ar livre e cada vez mais o público português é atraído por um estilo e modo de vida de muito bem-estar. A Califórnia e os australianos estão um pouco à frente, sabe, por causa da sua história política também, mas o português está a chegar e é muito agradável estar em Portugal neste momento, em que temos este boom.
Acha que Lisboa é a sua casa final?
Não. Tenho a certeza de que não é. Porque a minha filha agora vai para Londres, e no próximo ano ficamos apenas eu, o meu marido e o meu filho, e já estamos a falar sobre onde estaremos a seguir. Com certeza deixarei os meus estúdios com as pessoas que confio e que podem continuar a gerenciar, mas sonhamos muito com o Brasil. E sonhamos com outros destinos, eu estava a pensar na Grécia, Atenas, onde o pilates reformer ainda é muito pequeno. E queremos viajar também, tipo, talvez possamos viver três meses no Japão e voltar. Devo dizer que os três meses de chuva realmente me afetaram. E talvez no próximo ano, por três meses, vamos simplesmente para outro lugar.
Mas sente que Lisboa pode ser sempre algum tipo de lugar para onde pode voltar?
Voltarei sempre. Comprei um apartamento e estou muito feliz e quero manter sempre pelo menos um apartamento aqui. Estou muito feliz por ter o meu pied-à-terre em Lisboa, mais do que em Paris.






