Chegou legalmente há 52 anos aos Estados Unidos da América (EUA) ainda adolescente, constituiu a sua família e agora está a mais de mil quilómetros dos seus filhos. Godfrey Wade foi deportado em fevereiro deste ano para a Jamaica, país de onde saiu em 1975 para seguir o ‘sonho americano’. Em solo norte-americano, Wade foi chefe de cozinha, designer e professor de ténis, já depois de ter servido nas forças armadas dos EUA. Mas nem o seu serviço militar foi tido em conta pelos serviços de imigração norte-americanos na hora de decidir se Godfrey devia ou não ser deportado.
Godfrey Wade foi detido pelos serviços de imigração, depois de ser parado pela polícia por não fazer um pisca. O facto de conduzir sem uma carta de condução renovada transformou-se, mais tarde, numa ordem de deportação emitida pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA, revela a CNN.
A ordem de deportação do veterano deve-se a duas condenações lidas em 2008. Uma delas está relacionada com uma acusação de agressão simples. O advogado de Godfrey Wade diz que o seu cliente foi consideradado culpado por simplesmente ter atirado panelas e frigideiras para o chão da sua casa durante uma discussão relativa a um processo de divórcio. A outra condenação deve-se ao pagamento de uma conta às finanças com um cheque sem cobertura, mas que terá sido paga na totalidade, mais tarde. Foi esta última que inicialmente impossibilitou a renovação do seu visto. Godfrey pensou erradamente que o atraso se devia a uma acumulação de processos causada pela pandemia da Covid-19.
Contra Godfrey, diz a Justiça, está também o facto de não ter comparecido a uma audiência em tribunal para a renovação do seu visto de residência permanente nos EUA, com o qual permaneceu legalmente em território norte-americano durante mais de meio século. No entanto, o advogado de Godfrey garante que o seu cliente nunca foi notificado para comparecer a essa audiência. E os registos do mesmo tribunal, a que a CNN teve acesso, mostram diversas cartas devolvidas ao remetente marcadas com uma indicação de “devolução ao remetente”.
A 5 de fevereiro, Godfrey Wade foi deportado para a Jamaica, onde vive na quinta de um tio. Antes de voltar ao país de onde saiu em 1975, esteve cinco meses à guarda do ICE. Nesse período, passava o tempo a fazer pulseiras artesanais e a pintar retratos de outras pessoas que, como ele, estavam detidas pelos serviços de imigração.
Ella, filha de Godfrey Wade, diz que o pai “é um homem de fé que assume a responsabilidade por tudo o que fez”. Juntamente com a sua família, Ella pediu a reabertura do processo que deixou o pai a mais de mil quilómetros de casa, mas não obteve qualquer resposta do Departamento de Segurança Interna. Apesar do silêncio institucional, Godfrey ainda tem esperança de ver resolvida a sua situação. “Um erro técnico não devia significar a minha deportação. Eu ainda acredito na forma americana de trabalhar, e não tenho quaisquer lamentos, porque sei que vai ser feita justiça“, afirmou.
Numa carta enviada a Godfrey, o Departamento de Segurança Interna dos EUA declara que o homem foi admitido no país, mas que foi agora deportado pelo facto de “não ser um cidadão norte-americano, de ser nativo da Jamaica e ser cidadão jamaicano, por ter sido admitido a 21 de junho de 1975 como imigrante”, por ter sido “condenado por agressão simples em 2008”, por ter sido “condenado por crime de fraude em contas de depósito” e pelo facto de os seus crimes “não terem resultado de um único esquema de conduta criminal”. O Departamento de Segurança Interna dos EUA considera que os dois delitos que o veterano cometeu “constituem desonra moral” suficiente para ser deportado.
O serviço militar de Godfrey não pesou na decisão do ICE. Ao abrigo da política interna dos serviços de imigração em vigor desde o ano passado, pode ser tido em consideração o histórico de serviço militar da pessoa que pode vir a ser deportada. Podem, mas não têm de o fazer. Terá sido o caso de Godfrey, que, apesar de admitir que já cometeu erros ao longo da vida, entende que os seus 52 anos de residência e que o seu percurso profissional demonstram que não era o exemplo de alguém que necessitasse de ser deportado. Já o Departamento de Segurança Interna garantiu à CNN que “o criminoso teve direito a um julgamento justo”.
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