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"Guernica" volta a ser centro de uma batalha política: País Basco quer o quadro emprestado em Bilbau, Madrid diz que a obra não pode sair

Pedido para transferir temporariamente a obra para um museu em Bilbau gera troca de acusações entre responsáveis políticos. Presidente da Comunidade de Madrid diz que insistência é "provinciana".

Joana Moreira
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Está instalada a polémica em Espanha com o destino de “Guernica”, de Pablo Picasso, reabrindo uma discussão antiga sobre a deslocação do quadro, que permanece em Madrid desde 1992.

Tudo começou depois de o executivo basco ter solicitado que “Guernica”, uma das obras mais emblemáticas do artista espanhol Pablo Picasso (1881-1973), fosse exposta temporariamente no Museu Guggenheim de Bilbau, no âmbito das comemorações do 90.º aniversário do bombardeamento da cidade basca. A pintura encontra-se no Museu Rainha Sofia, em Madrid, desde 1992, e os sucessivos pedidos para a sua transferência para o País Basco têm sido recusados, com base em critérios técnicos ligados à conservação da obra.

Mas o pedido do Governo do País Basco desencadeou uma troca de acusações entre responsáveis políticos e o tema ganhou dimensão nacional nas últimas semanas. “O pedido do Governo basco a Pedro Sánchez para permitir a transferência temporária do Guernica para o País Basco transformou-se num cenário inesperado da batalha política nacional”, escreve o diário espanhol El País esta terça-feira. Nos últimos dias, a presidente da comunidade autónoma de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, juntou-se às vozes contra a deslocação da tela, afirmando: “Em Madrid, o que queremos é que todos cresçamos juntos; o que não faz sentido é ir à origem das coisas conforme nos convém, porque, nesse caso, levaríamos toda a obra de Picasso para Málaga [a cidade onde nasceu o pintor e onde fica o Museu Picasso]. Parece-me provinciano e penso que a cultura é universal. Além disso, sabem que [a pintura] não pode sair ou, se sair, far-se-á a colocar em risco a integridade da obra”

O pedido formal foi apresentado pelo lehendakari (chefe de Governo) do País Basco, Imanol Pradales, ao presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, há cerca de duas semanas. O debate deverá conhecer novos desenvolvimentos no Senado, com o ministro da Cultura, Ernest Urtasun, a ser questionado sobre a recusa em estudar as condições para uma eventual transferência temporária.

Foi o que propôs o Governo do País Basco a 24 de março: que o Ministério da Cultura espanhol fizesse uma análise de “novas condições de segurança adequadas a 2026” que pudessem permitir o transporte da obra. Em resposta, o Museu Rainha Sofia emitiu um relatório em que desaconselha a deslocação, alertando para as “inevitáveis” vibrações associadas ao transporte, que poderiam provocar “novas fissuras, levantamentos e perdas da camada pictórica, assim como rasgões”, dizem citados pelo jornal.

Também o Ministério da Cultura do Governo espanhol sublinhou a posição: “Trabalhamos para melhorar a acessibilidade da cultura e, por isso, vemos com bons olhos a mobilidade da arte. Mas, como Ministério da Cultura, temos o dever de preservar o património, e os especialistas sempre desaconselharam mover o Guernica devido ao seu delicado estado de conservação, pois já se encontra muito danificado”.

Mas do lado basco, o executivo regional afirma não ter recebido “uma resposta formal” e insiste na necessidade de avaliar as condições em que a obra poderia ser deslocada temporariamente para o País Basco. A proposta prevê a exposição da tela ao público entre 1 de outubro de 2026 e 30 de junho de 2027, assinalando o 90.º aniversário da constituição do primeiro Governo basco e do bombardeamento de Gernika-Lumo, ocorrido a 26 de abril de 1937.”Seria um gesto de memória histórica e reparação simbólica para o povo basco”, defendeu Pradales, enquanto o Governo espanhol mantém a recusa, afirmando que não colocará em risco “um património tão importante como o Guernica”. Também o PSOE basco considera que “não é oportuno abrir um novo capítulo em termos de agravos, reparação ou perdão por parte do Governo de Espanha”, sublinhando que já foram realizados gestos institucionais de reconhecimento e memória.

O Museu Rainha Sofia, onde está a obra, nunca autorizou a sua deslocação, nem em situações consideradas excecionais, como um pedido do MoMA de Nova Iorque em 2000. Num relatório sobre o histórico de solicitações, a instituição refere que “o grande ícone do nosso museu deve permanecer, sem exceções, à margem da política de empréstimos da instituição”.

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Estudos técnicos realizados desde a década de 1990 sublinham a fragilidade da pintura, que já foi sujeita a mais de 30 itinerâncias ao longo da sua história. O relatório mais recente conclui que a obra é “especialmente sensível a todo o tipo de vibrações que são inevitáveis no transporte de obras de arte”, motivo pelo qual “se desaconselha categoricamente a sua deslocação”.

Inspirada no bombardeamento de Gernika-Lumo por forças alemãs durante a Guerra Civil espanhola, “Guernica” tornou-se um símbolo internacional contra a guerra e a violência.

A possibilidade de exibir a obra no País Basco já foi discutida noutras ocasiões. Numa entrevista ao Observador em 2024, o antigo diretor do Museu Guggenheim Bilbau, Juan Ignacio Vidarte, recordou uma tentativa falhada aquando da abertura da instituição que liderou durante 27 anos, sublinhando que o processo acabou por se tornar “politicamente impossível”, apesar de ter existido algum apoio inicial. O responsável apontou então a fragilidade da pintura e a dimensão política do tema como os principais obstáculos, reconhecendo tratar-se de “um assunto altamente político” e manifestando pouco otimismo quanto a uma eventual deslocação futura da obra.

O Observador contactou o Museu Guggenheim Bilbau para obter uma reação junto de Miren Arzalluz, que assumiu a direção do museu em abril de 2025, mas a assessoria informou que a diretora da instituição basca “não fará quaisquer declarações sobre este assunto”.