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Diretor de festival britânico defende presença de Kanye West: "É preciso perdoar e dar uma segunda oportunidade"

Marcas como a Pepsi têm retirado os seus patrocínios ao Wireless Festival, que acontece em julho. Governo está a avaliar se artista agora conhecido como Ye poderá entrar no país.

Mariana Lima Cunha
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É preciso “perdoar”. É esta a posição do diretor executivo do Wireless Festival, festival que anunciou o artista e rapper Kanye West como cabeça de cartaz e que tem sido alvo de uma chuva de críticas graças a essa escolha.

Como explica a BBC, Melvin Benn veio manifestar-se sobre a polémica, depois de dias a ver marcas a cancelarem os seus patrocínios ao festival e de apelos para que o nome de Kanye West seja retirado desta edição, defendendo West: “Perdoar e dar uma segunda oportunidade às pessoas tornou-se uma virtude perdida neste mundo crescentemente dividido”.

Para Benn, o festival está a dar uma plataforma a West para que toque músicas que são “ouvidas e apreciadas por milhões de pessoas” e não para expressar as suas opiniões. “Pediria às pessoas para refletirem sobre os seus comentários instantâneos de asco sobre ele atuar e oferecerem algum perdão e esperança, como eu decidi fazer”.

As polémicas com West têm-se amontoado ao longo dos anos e atingiram o seu auge quando confessou a sua admiração por Adolf Hitler, lançou uma música chamada “Heil Hitler” e vendeu t-shirts com suásticas, proclamando-se “nazi” — tendo depois pedido desculpa e argumentado que seriam efeitos da doença bipolar.

Mas nem as explicações de West nem a defesa do diretor do festival estão a convencer muitos dos críticos da aparição do rapper no Reino Unido, marcada para julho. O presidente do Conselho de Deputados dos Judeus Britânicos, Phil Rosenberg, disse que estas declarações não vão “trazer conforto a muitos dentro das comunidades judaicas, ou outras”.

“O que Ye [nome pelo qual Kanye West quer ser conhecido no meio artístico] disse no passado sobre judeus e sobre Hitler é aberrante para mim e para a comunidade judaica, para o primeiro-ministro e — acreditando na sua palavra — para o Ye também”, continuou. “Kanye West pode estar no caminho para a saúde e para se curar. Esperamos sinceramente que sim. Mas o espaço para testar isso não é durante três dias no palco principal do Wireless”.

O governo britânico está a avaliar se West pode entrar no país, tendo a ministra da Educação, Bridget Phillipson, dito esta segunda-feira que as declarações de Ye sobre judeus ou Adolf Hitler são “completamente inaceitáveis e absolutamente repugnantes”. No Reino Unido, “não há lugar para esse tipo de ódio, intolerância ou antissemitismo”, defendeu a ministra, citada pelo The Guardian.

O governo tem sido pressionado a impedir o rapper de atuar. A ONG Campaign Against Antisemitism veio defender que o primeiro-ministro, Keir Starmer, tem razões para estar preocupado com “o facto de o Wireless Fest querer ter como cabeça de cartaz alguém cujo preconceito antissemita chegou ao ponto de gravar uma faixa intitulada ‘Heil Hitler’  há menos de um ano”.

O artista norte-americano não atua no Reino Unido desde 2015 e o seu regresso é “profundamente preocupante”, admitiu o primeiro-ministro britânico no último sábado. Assim, a ONG veio lembrar que “o Governo pode proibir a entrada no Reino Unido de qualquer pessoa que não seja cidadã e cuja presença ‘não seja benéfica para o bem público'”. A entrada de West já foi recusada na Austrália, que revogou o visto do artista.

Deputados dos vários lados do espetro político, dos conservadores aos trabalhistas, têm expressado as mesmas opiniões e pedido ao governo que impeça a entrada do artista.

Como a BBC recordava, em janeiro Kanye West publicou um anúncio, ocupando uma página inteira do Wall Street Journal, em que assegurava: “Não sou um nazi nem um antissemita”. Dizia estar arrependido das suas ações, que teriam sido tomadas quando estava numa fase “maníaca”.

O festival acontece em Finsbury Park, costuma contar com cerca de 150 mil participantes todos os anos e vai acontecer entre os dias 10 e 12 de julho.