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"Vou ter de inventar novos adjetivos". Após volta pelo lado oculto da Lua, astronautas da Artemis II começam (longo) caminho até à Terra

Seis horas a observar a Lua, 40 minutos sem comunicações e um eclipse inédito. A missão Artemis II passou a 6.500km da superfície lunar e segue viagem para voltar a casa já esta sexta-feira.

Martim Andrade
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“Muita geometria, rabiscos, pontos e linhas”, descreveu o piloto Victor Glover nas primeiras observações durante a passagem da Artemis II pela Lua. Os astronautas começaram pelas 19h45 um período de cerca de seis horas dedicado exclusivamente à observação da superfície lunar, relatando detalhes geográficos e topográficos para a equipa científica da NASA, no Johnson Space Center, em Houston. Pelas 23h43, tal como esperado, passaram para “o outro lado” da Lua e estiveram sem comunicações com a equipa em Terra, durante 40 minutos.

“Ouvimos-vos alto e em bom som”, disse Houston após este longo “apagão”. “É ótimo ouvir-vos outra-vez”, respondeu a astronauta Christina Koch, que aproveitou o regresso da possibilidade de diálogo com o mundo para deixar uma mensagem à Ásia, África e Oceania: “Podem olhar para o céu e ver a Lua. Nós estamos a olhar para vocês também”. “Vamos continuar a visitar a Lua”, garantiu a astronauta, mas mantém que vão “escolher sempre a Terra”. “Vamos escolher-nos sempre uns aos outros”, prometeu. Agora, começa oficialmente o (longo) regresso a casa.

Durante esta interrupção das comunicações, a nave espacial passou a cerca de 6.500 km da Lua — a passagem mais próxima nos planos da missão —, mas também atingiu o marco que assinala a maior distância da Terra desde o momento em que partiram no dia 1 de abril. A partir das 0h03, os astronautas começaram a sua trajetória de regresso, aproximando-se, lentamente, da Terra, à medida que se afastam do lado oculto da Lua. O splashdown na costa de San Diego, na Califórnia, continua previsto para esta sexta-feira, dia 10 de abril.

https://twitter.com/NASAAdmin/status/2041292327918903322

Para as quase seis horas de observação, esta segunda-feira, a cápsula Orion ficou toda às escuras — e com t-shirts a tapar algumas janelas — para garantir que a tripulação adaptava a vista de modo a conseguir absorver toda a informação que conseguiriam recolher através da observação tanto do polo sul, como do polo norte da Lua. Em constante discussão com Kelsey Young, a responsável pelo departamento de Ciência lunar da missão, os astronautas descreveram ao detalhe aquilo que os olhos e as suas câmaras registavam em tempo real.

Os astronautas estão equipados com lentes de 80mm a 400mm para a observação da superfície lunar, e divididos em duas equipas: dois às janelas, dois a registar. “É um pouco desgastante para os olhos”, admitiu Victor Glover, que começou esta atividade fora da janela, mas a descrever minuciosamente aquilo que se ia discutindo e observando na Orion. A tripulação, antes de partir e mesmo durante a viagem, foi recebendo extensas horas de formação em geologia vindas de Terra para perceber aquilo que viriam quando chegassem a esta etapa da missão.

Um dos principais detalhes que Victor Glover apontou, naquela primeira hora, foram as diferenças topográficas entre o polo norte e sul do satélite natural da Terra. O piloto da nave espacial destacou as “mudanças de elevação” no Polo Sul — onde a NASA planeia vir a construir a base lunar, nos próximos anos — e uma região no Polo Norte que “aparenta ser mais lisa”. Glover acredita que “seria muito mais desafiante alunar no Sul” do que no Norte, mas que a vista do Sul é “bastante incrível”.

Também houve oportunidade para descrever as cores e o albedo nas diferentes localizações lunares. “Quanto mais olho para a Lua, mais castanha parece”, descreveu Christina Koch, que aproveitou para destacar algumas observações que “nunca tinha visto em fotografias”, realçando o facto de as crateras mais recentes na superfície lunar serem “muito pequenas” e “muito brilhantes”. O termo albedo é muito repetido ao longo da discussão com Terra. Trata-se de uma medida utilizada na astronomia para descrever a percentagem de luz que é refletida em vez de absorvida.

Um dos pontos de referência utilizados pela tripulação é a cratera Orientale, que tem um diâmetro de 650km e é descrito pela NASA como “o Grand Canyon da Lua”. Na sua descrição, Victor Glover notou um “elevado albedo” nas margens deste desfiladeiro fundo. “Se isto fosse a Terra, diria que há neve nos picos no interior da Orientale, descreve o piloto da cápsula. “Quem me dera ter mais tempo para estar aqui sentado e descrever o que estou a ver. Parece que há ilhas de terreno completamente rodeadas de escuridão. É como se houvesse um boneco de neve ali parado”, continuou.

As descrições dos astronautas foram sempre recebidas com elogios sobre o nível de detalhe utilizado. Em Houston, Kelsey Young recebe e transmite as observações da tripulação, que depois são analisadas e processadas pelos múltiplos especialistas em geologia lunar que estão de pé naquela sala no Johnson Space Center a apontar para um mapa que destaca as dezenas de crateras já conhecidas pela humanidade. No entanto, ainda antes de começar o período oficial de observações, a tripulação estava a receber indicações e lembrou-se da possibilidade de nomear um par de crateras que ainda não tinham nome.

https://twitter.com/NASA/status/2041221238274568520

A primeira sugestão apresentada pela tripulação foi “Integrity“, o nome da nave espacial e que terá sido uma designação sugerida por todos os membros a bordo. A segunda cratera já não foi unânime, mas foi recebida com muita emoção pelos astronautas. Em comunicação com Houston, o canadiano Jeremy Hansen propôs o nome “Carroll” para uma das observações geológicas ainda por nomear, em homenagem “a alguém muito próximo” dos astronautas, para dar nome a um “ponto luminoso na Lua”. Carroll era a mulher do comandante da missão, Reid Wiseman, que morreu de cancro em 2020. Ao ouvir esta sugestão, tanto o comandante como os restantes astronautas mostraram-se visivelmente emocionados e partilharam um abraço de grupo, poucos momentos após terem batido o recorde de maior distância alguma vez percorrida desde a Terra por humanos.

https://twitter.com/Maxarick/status/2041232846405120432

Um eclipse “indescritível” visto apenas pelos quatro astronautas

Pouco mais de uma hora após terem concluído a passagem pelo lado oculto da Lua, os astronautas da Artemis II tornaram-se nas primeiras pessoas de sempre a ver um eclipse solar a partir da esfera gravitacional lunar. Quando a Lua se colocava à frente do Sol, pelas 1h35, a tripulação teve de colocar óculos de eclipse, preparados antes da missão na eventualidade de apanharem este cenário durante a viagem. Durante os 57 minutos em que o Sol esteve obstruído pela Lua, conseguiram captar imagens da coroa solar — já sem os óculos — e ainda tentaram avistar outros planetas daquele campo de visão. Os quatro astronautas foram os únicos a observar este eclipse.

“Conseguimos ver estrelas e planetas atrás do cinzento da coroa solar”, descreveu Victor Glover, sem obter resposta de Houston devido ao corte unilateral das comunicações durante metade do período de eclipse. O piloto da missão descreveu uma “vista bastante impressionante”, que é também marcada pela “distinta” e “impressionante ilusão de ótica” do brilho terrestre. “É incrível”, confessou o astronauta, revelando que a equipa viu a passagem de vários meteoróides neste período. “Isto é ficção científica“, acrescentou, incrédulo. “Conseguimos ver tanto da superfície da Lua. É a coisa mais estranha”.

https://twitter.com/NASA/status/2041317015474798693

Foram quatro impactos contra a superfície lunar, de acordo com os relatos iniciais da tripulação, que deixaram a equipa científica em Houston em êxtase. Kelsey Young e a restante comitiva de especialistas em geologia lunar não conseguiram esconder o entusiasmo e os sorrisos — e até alguns movimentos de dança — após as palavras partilhadas por Victor Glover. “Vimos, no total, quatro flashes resultantes do impacto [de meteoróides] contra a superfície da Lua. A sul e no equador lunar”, descreveu o piloto. Até ao final do eclipse, a contagem excedeu os cinco impactos.

Com “muitas estrelas” no horizonte, o piloto, noutro momento de vulnerabilidade partilhado pela tripulação, refere que aquilo que estão a observar pela janela da Orion é “indescritível”. “Vou ter de inventar novos adjetivos para descrever aquilo que estamos a ver”, acrescentou, com o centro de controlo do Johnson Space Center a confirmar que os astronautas estavam a ver Saturno e Marte — “uma oportunidade para ver onde vão no futuro”.

“Vemos meia Lua, mas continuamos com uma alegria lunar cheia”. As cores nunca registadas e o “entusiasmo” coletivo dos astronautas nas primeiras observações

A responsabilidade de captar imagens e gravar áudios a relatar as observações passou por todos os astronautas, com a primeira troca a vir cerca de uma hora após o início das atividades. Victor Glover e Christina Koch passaram à janela, com Reid Wiseman e Jeremy Hansen a partilhar os detalhes com Houston. O comandante, olhando para a tão destacada bacia Orientale, descreve o que parece ser “um par de lábios” na parte mais distante vista da nave. “A norte é mais larga e escura, enquanto a parte sul é muito mais clara”, explica Reid Wiseman, admitindo que “é muito mais circular do que aquilo que se lembra das formações” que recebeu em Terra.

De hora em hora, as equipas foram trocando e as observações chegaram, em períodos não fixos, ao Johnson Space Center. Cada vez que um astronauta pega numa máquina fotográfica, tem de utilizar o seu próprio cartão de memória e, quando regressa ao computador no final do turno, vai analisando as imagens e passando a informação para Houston. Apesar de os horários serem bastantes flexíveis neste período inicial de observações, existem certos pontos que só podem ser observados em determinados instantes, sendo limitados pela posição e, consequentemente, pela luz que incide sobre a superfície lunar.

“Eles estão mesmo entusiasmados”, descreveu o comandante, o sentimento dos restantes astronautas na cápsula Orion neste momento de observação. “É mesmo impressionante ver quão rápido [a Lua] muda”, acrescenta Reid Wiseman. Já Jeremy Hansen — cuja família está presente no auditório no Texas —, descreve as tonalidades de castanho e verde em algumas regiões da superfície lunar. O astronauta canadiano acredita que as cores, que diferem do esperado branco, cinzento ou até preto que se veem à distância, podem ter sido causados pela radiação ou pela permanência de resíduos expelidos durante a atividade vulcânica que, em tempos, vigorava na Lua.

“Já tínhamos aprendido isto com a missão Apollo, mas por mais acidentado que o lado oculto pareça, basta olhar para o Terminador [linha que separa a parte visível da oculta, na Lua] para ver que é incrivelmente acidentado — é como se não houvesse uma única superfície no lado oculto que não tivesse sido atingida por meteoritos”, relata Jeremy Hansen. Kelsey Young concordou com esta observação e disse que, para a equipa na Terra, aquela linha era “absolutamente alien”, porque estão a registar “mais texturas do que aquilo a que estão habituados”.

Para além das fotografias captadas pelas máquinas Nikon com as lentes variadas — que eventualmente vão ser publicadas pela NASA —, os astronautas que estão longe da janelas (em teoria) também conseguem arranjar um espaço entre a t-shirt que bloqueia uma das janelas para captar imagens com os iPhones pessoais de serviço. Durante a transmissão da NASA, que continua em direto desde o dia de lançamento, foi possível ver uma das fotografias tiradas pelo comandante Reid Wiseman.

https://twitter.com/scottygb/status/2041257433012523078

Christina Koch descreve um ambiente de “entusiasmo” coletivo dentro da Orion, referindo que estão “todos a gostar do debate interno” sobre as imagens que têm estado a observar, especialmente a questão das diferentes tonalidades identificadas e as “áreas com texturas verdadeiramente únicas” que encontraram. Durante o seu período à janela, a astronauta confessa que teve uma “sensação avassaladora de emoção” ao olhar para o satélite. “A Lua é mesmo o seu próprio corpo no Universo, não é só apenas um cartaz no céu que vai passando. É um sítio real”, desabafa.

“Vemos meia Lua, mas continuamos com uma alegria lunar cheia”, admitiu Kelsey Young, quando a tripulação anunciou que agora só tinham forma de olhar para metade do satélite terrestre, devido ao ângulo de incidência da luz solar. O terminador, a linha que separa a Lua entre fase com luz e fase sem luz, foi o grande foco da observação do piloto Victor Glover, que diz que este fenómeno espacial é “a coisa mais impressionante” que já viu nestes seis dias de missão.

Os resultados detalhados desta longa sessão de observação lunar só deverão ser conhecidos esta manhã, quando os dados registados na Orion chegarem a Houston. Isso deverá acontecer durante a noite, mas só no início da tarde em Lisboa é que os astronautas têm uma reunião marcada com a diretora de ciência lunar da missão Artemis II, onde irão discutir tudo aquilo que observaram nestas seis horas. Até lá, espera-se a publicação de algumas das fotografias inéditas captadas pela tripulação.

No sétimo dia de viagem, Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen vão ter “um dia livre”, para descansarem da planificação intensa das atividades no Espaço. Mas agora que já passaram pelo lado oculto da Lua, os quatro astronautas estão oficialmente a caminho da Terra, onde deverão regressar esta sexta-feira, dia 10 de abril, após 10 dias de missão.