Álvaro Cassuto (que morreu esta segunda-feira, dia 6 de abril, aos 87 anos) foi, depois de Pedro de Freitas Branco, o maestro português com maior notoriedade e atividade internacional. Dezenas de discos, inúmeras orquestras dirigidas, outras fundadas, e uma receção crítica maioritariamente entusiástica atestam a grandeza deste discípulo de Herbert von Karajan — com Toscanini provavelmente a figura mais icónica da direção de orquestra. Mas Cassuto foi também professor, regeu cursos, escreveu livros, escreveu muita e belíssima música e deu, como foi o meu caso, oportunidades únicas a jovens compositores.
Esbarrou também com más-vontades ministeriais, com falta de apoios, de dinheiro, sobretudo, de crença numa visão que, nele, nunca era provinciana, mas sempre internacional. Contra a maré de um Portugal que ainda pensa pequenino, Álvaro Cassuto pensava grande, e não admira pois que, dos muitos discos que gravou ao longo da vida, a maioria o tenha sido com orquestras e etiquetas estrangeiras, nomeadamente a Naxos, a editora discográfica mais poderosa hoje em dia, para a qual registou grandes obras da música portuguesa e não só.
Porque, se Cassuto dirigiu de forma soberba (como o atestam gravações de arquivo hoje disponíveis em CD) obras icónicas do repertório sinfónico, como o poema-sinfónico Don Juan, de Richard Strauss, uma pérola que não envergonharia Karajan, foi na música portuguesa que mais se distinguiu. Não obstante os esforços de Pedro de Freitas Branco e, mais tarde, da coleção Portugalsom, no sentido de registarem o repertório nacional, nomeadamente o do século XX, quando a grande orquestra sinfónica, na verdade, “nasce” verdadeiramente em Portugal com as obras de Viana da Mota e Luís de Freitas Branco, o que é certo é que, mercê de más gravações, orquestras sofríveis ou ensaios descuidados, a qualidade geral do que existia deixava muito a desejar, à exceção – que sempre as há – de alguns registos de rara qualidade técnico-interpretativa.
Assim, há um antes e um depois no registo da música clássica portuguesa, principalmente no período da modernidade, e em particular no que toca às obras de Luís de Freitas Branco, Joly Braga Santos, Frederico de Freitas e Fernando Lopes-Graça, sendo, dos quatro, sido dada preferência aos dois primeiros, com os quais Álvaro Cassuto sentia maiores afinidades estéticas e espirituais.
Assim, dispomos hoje em dia da integral, ou da quase integralidade das obras sinfónicas de vários destes compositores de primeiro plano, e mais seriam não fora a idade já avançada do Maestro ter posto cobro a um empreendimento que, só no que toca à obra de Joly Braga Santos, é absolutamente monumental, dada a quantidade, variedade e extensão das obras orquestrais deste nosso grande nome da composição musical.
A fundação da Nova Filarmonia Portuguesa, da Orquestra Sinfónica Portuguesa e da Orquestra do Algarve foram também momentos essenciais para que, fora da Orquestra da Fundação Gulbenkian, fantástica formação mas inserida numa entidade privada, duas formações públicas, ou apoiadas por dinheiros públicos, vissem a luz do dia, sendo que ainda hoje, à exceção da Nova Filarmonia (orquestra exclusivamente privada que, ainda assim, se aguentou o suficiente para marcar uma época) estas orquestras existem e dignificam o nosso panorama artístico.
A exigência que Cassuto colocava em si próprio pedia-a aos músicos, aos gestores, aos mecenas, e a sua reputação de “difícil” só pode ser percebida se olharmos para o contexto de um país que, e excetuando, como referi, a Orquestra Gulbenkian, já não tinha nada que se parecesse com uma orquestra profissional digna desse nome nos anos 80 do século XX. As orquestras da Emissora Nacional, Porto e Lisboa, morriam de morte natural, no TNSC fazia-se apenas ópera, e os poucos projetos que apareceram antes de termos uma orquestra “a sério” no TNSC e depois na Casa da Música (para já não falar da Orquestra Metropolitana de Lisboa, outro grande projeto que ainda hoje dá cartas, embora este não da mente de Cassuto) duraram pouco.
Foi este clima opressivo, o da minha juventude musical, que a abertura à Europa permitiu arejar com a vinda de professores e concertistas de todo o mundo. E juntamente com o escol de profissionais e professores portugueses de qualidade que ainda nos restavam (eram bons, mas poucos), nomeadamente nas cordas (violinos, violoncelos, etc.), Álvaro Cassuto significou um verdadeiro, e violento (no bom sentido) abanão.

Porém, a exigência paga-se. Tal como, antes dele, Francisco de Lacerda, e até Pedro de Freitas Branco, tiveram de lidar com mentalidades retrógradas, falta de brio e empenho, desleixo, pouca ambição artística e outras maleitas nacionais que, hoje, e também graças a ele, são, no campo da música, já quase somente uma má recordação, Cassuto foi acusado de tirania, de arrogância, entre outros epítetos que, curiosamente, nunca vinham dos melhores, mas sempre dos piores.
Entretanto, lá fora, os seus discos e concertos granjeavam os elogios praticamente unânimes da crítica especializada e davam a conhecer a orquestras e solistas ingleses, norte-americanos, alemães, italianos, franceses e a tantos outros joias tais como o Concerto em Ré e a Sinfonia nº4 de Joly Braga Santos, o Vathek e a 4ª Sinfonia de Luís de Freitas Branco, a Dança da Menina Tonta de Frederico de Freitas ou a Sinfonia per Orchestra e a Suite Rústica de Fernando Lopes-Graça, fora todas as outras que seria aqui entediante enumerar na sua enorme extensão.
Quanto a mim, tive o privilégio de com ele contactar graças a um concurso para jovens compositores organizado através da Nova Filarmonia, que teve a novidade de – ao contrário de todos os outros concursos deste tipo em Portugal – as obras não só serem tocadas como de terem um prémio do público, pois para Álvaro Cassuto, a música devia ser julgada não somente pelos profissionais, mas também pelos destinatários da mesma, o grande público melómano.
Ao ser selecionado para a final, experimentei o alcance da sua figura nos ensaios, e com ele aprendi imenso. Mais tarde, entrevistei-o para A Invenção dos Sons (Caminho), uma panorâmica da composição em Portugal, sendo que a sua proverbial autocrítica recebeu a ideia de forma um pouco cética, uma vez que Cassuto, embora tenha gravado parte dela, nunca achou a sua produção como compositor digna de grande relevo. Mas foi com a encomenda de peças para eventos tão prestigiantes como o concerto inaugural da Orquestra do Algarve ou a primeira peça de um compositor português vivo, no caso da Orquestra Sinfónica Portuguesa, que senti o papel absolutamente essencial do Maestro Álvaro Cassuto no dealbar da minha carreira. Essa generosidade, esse apoio a um jovem compositor que ainda poucas ou nenhumas provas dera é extremamente raro, e hoje em dia somente alguns, poucos maestros, o fazem.
Cassuto sentia, atrevo-me a dizê-lo, um sentido de missão. Pela música portuguesa, pelos jovens compositores, pelo seu país. Poderia ter ficado confortavelmente instalado no grande repertório canónico, gravando e vivendo no estrangeiro pela milionésima vez sinfonias de Beethoven ou aberturas de Rossini, mas escolheu essa missão. E que não se diga que o fez por ser um caminho fácil, menos competitivo, pois a escuta das obras canónicas que gravou e dirigiu (de entre as quais já referi o Don Juan, mas são muitíssimas mais) só nos confirma a sua estatura internacional. Uma audição cega, e os maiores nomes da direção de orquestra vir-nos-iam logo à cabeça, e ficaríamos decerto espantados por saber que, ao invés de Karajan e da Orquestra Filarmónica de Berlim, ou de Claudio Abbado e da Orquestra Sinfónica de Londres, afinal aquela maravilhosa música fora gravada, ao vivo, note-se, por uma orquestra portuguesa dirigida por… Álvaro Cassuto!
O homem parte, a obra permanece, e a sua, acredito, ficará como uma referência de qualidade, seriedade, espírito de missão. Também a sua obra de compositor, tão por ele desdenhada, tem agora, espero, uma janela de oportunidade para começar a ser tocada fora do âmbito da sua batuta, começando esse renascimento já este ano com a estreia, pela “sua“ Orquestra do Algarve e a pianista Diana Botelho Vieira, da versão revista do Concertino para Piano e Orquestra de Cordas, obra de juventude que tive o prazer de ainda com ele trabalhar, desta vez já não como o jovem aspirante a compositor que ele conheceu nos anos 90, mas como um colega, sendo que Álvaro Cassuto nunca foi, comigo, condescendente ou paternalista, antes pelo contrário.
Chegámos, as voltas que a vida dá, a ser praticamente vizinhos, eu no Estoril, ele na zona do Guincho, o que me permitiu frequentá-lo de vez em quando e usufruir da sua companhia, sabedoria, e afabilidade. A ele devo muito, mas a ele devemos também todos nós, músicos, melómanos, portugueses em geral, mais do que poderíamos pensar.
Até sempre, caro Álvaro, querido amigo, mentor.