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A geopolítica de infraestruturas e o fim da inocência 

A infraestrutura é a nova arma global. Entre o Lobito e o digital, a Europa precisa de trocar a caridade pela capacidade real para se afirmar como parceiro credível no novo mapa do poder.

Felso Ganhane
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Houve um tempo, que hoje nos parece quase ingénuo, em que acreditámos que o comércio era o antídoto definitivo para a guerra. Joseph Nye e Robert Keohane convenceram o mundo de que a Complex Interdependence (Interdependência Complexa) criaria uma rede de interesses tão apertada que o confronto entre países se tornaria irracional. A ideia era simples: se todos precisássemos uns dos outros para vender e comprar, ninguém teria interesse em disparar o primeiro tiro. A globalização seria, no fundo, a nossa paz perpétua. Mas o mundo de 2026 revela-se como o museu dessa ideia; percebemos, da pior maneira, que estar ligado a todos não nos protegeu, apenas mudou a natureza do conflito.

A armadilha da rede global 

A rede global tornou-se uma armadilha. O que Abraham Newman e Henry Farrell batizaram como Weaponised Interdependence (Interdependência como Arma) é a realidade nua e crua dos nossos dias: as mesmas ligações que nos trazem energia ou tecnologia são agora usadas para nos pressionar. A China tem sido o principal ator a explorar estas assimetrias, transformando a dependência de outros países numa ferramenta de coerção política. A proximidade, afinal, não gerou apenas harmonia; gerou vulnerabilidades.

Neste cenário de despertar forçado, a União Europeia viu-se obrigada a redesenhar o seu lugar no mapa. A resposta veio com o Global Gateway — a estratégia europeia para financiar infraestruturas pelo mundo — e com a urgência do De-risking. Este termo, que significa literalmente “reduzir o risco”, foca-se em diminuir a nossa dependência excessiva de uma única fonte, como a chinesa. Esta busca por afirmação europeia ganhou uma velocidade vertiginosa com o regresso de Trump. O mundo que conhecíamos desfez-se, dando lugar a uma confrontação geoeconómica bruta entre Washington e Pequim, onde o recurso aos Chokepoints passou a ser a regra do jogo. Estes “pontos de estrangulamento”, como lhes chama Edward Fishman, são locais ou recursos estratégicos de que depende o mundo, onde um corte por parte de quem os domina interrompe o fluxo, causando danos severos.

O digital tem corpo e morada 

Esta luta pelo controlo não se trava apenas em estreitos marítimos como Ormuz. Com a explosão da Inteligência Artificial, a batalha estendeu-se para a infraestrutura física que sustenta o digital: o poder de computação (compute), a energia e os sistemas de arrefecimento. Paradoxalmente, os Hyperscalers norte-americanos — as gigantes tecnológicas como a Google ou a Amazon, que dominam a “nuvem” e os cabos submarinos — controlam quase toda a estrutura por onde comunicamos. O risco de transformar estas redes em armas está sempre presente, e a Europa sabe que o investimento em infraestruturas é uma questão de sobrevivência.

Construir o futuro, porém, custa dinheiro, e é aqui que a estratégia europeia revela as suas fissuras. Enquanto os EUA acabaram com os seus programas tradicionais de ajuda ao desenvolvimento, a Europa avançou com o Global Gateway carregando a bandeira da solidariedade e prometendo 300 mil milhões de euros — um gesto, à partida, louvável. Contudo, o que estamos a ver é uma mudança de lógica: a “financeirização” da ajuda. A maior parte deste valor não são Grants (dinheiro dado, sem obrigação de retorno), mas sim empréstimos e créditos. O novo modelo foca-se na Bankability (Bancabilidade) dos projetos, ou seja, na capacidade de um projeto atrair investidores privados por ser seguro e lucrativo. Estamos a passar de parceiros que ajudam a crescer para gestores de risco que procuram retorno.

O teste do Corredor do Lobito 

O Corredor do Lobito surge, neste contexto, como o teste decisivo para esta nova face da geoestratégia. Como escrevi anteriormente, este projeto está no centro da competição de que ninguém fala, mas que define quem terá acesso aos minerais do futuro. Mas para que este e outros projetos funcionem, a Europa precisa de ser um parceiro credível, e não apenas um banco exigente. É necessário que estes interesses saiam da esfera da caridade e passem para a alçada da DG Trade (o departamento europeu que gere o comércio), sendo tratados como parcerias reais de negócios, especialmente num momento em que os países com recursos têm uma consciência renovada do seu próprio poder.

No fim de contas, o que está em causa não é apenas uma mudança de logótipo, mas uma redefinição profunda dos instrumentos por detrás do Global Gateway. A Europa tem de perceber que, no tabuleiro global, a boa vontade já não substitui a capacidade instalada — o poder real de construir e operar infraestruturas no terreno. Para se afirmar como um parceiro credível perante as demais potências, é preciso trocar o manual da ajuda do século passado por uma estratégia de quem sabe que a confiança se conquista com presença física e benefícios mútuos. Só assim deixaremos de ser um financiador que observa de longe para passarmos a ser o aliado que ajuda a construir, com solidez, o mapa do futuro.

O Observadorassocia-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.