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(A) :: Dealflow quer fazer match entre startups e investidores. Mas “há muito dinheiro a desaparecer das startups de tecnologia de ponta para a IA”

Dealflow quer fazer match entre startups e investidores. Mas “há muito dinheiro a desaparecer das startups de tecnologia de ponta para a IA”

A Dealflow quer que a inovação europeia cresça e que se torne atrativa para os investidores. Co-fundador lamenta que haja agora concentração excessiva em empresas "numa fase mais avançada" de vida.

Cátia Rocha
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Thijs Povel estudou Física em Londres, mas depressa percebeu que tinha mais química com outro mundo: o das startups. Natural dos Países Baixos, começou a trabalhar com startups quando era adolescente, quando termos como unicórnios ou ronda seed ainda não faziam parte do vocabulário habitual. “Gostava de ir a pequenos negócios e ajudá-los em questões como informática e máquinas”, explica ao Observador o cofundador da plataforma europeia de apoio a startups Dealflow.

A pequena empresa por onde Thijs Povel passou explorava a área da inovação na impressão de cartões. Recebeu um investimento de capital de risco e, mais tarde, foi comprada por uma companhia maior. Foi o suficiente para Povel ficar “muito entusiasmado” com a área da inovação. “Soube desde jovem que adorava o ambiente das startups e que queria trabalhar nele.”

Povel até acabou o curso de Física, mas trocou a área técnica pelos negócios e pelo “mundo do capital de risco”. Desde 2010 que está ligado à área, sempre à procura de startups para investir. “O meu trabalho era ir a conferências, a aceleradoras e encontrar fundadores promissores — percebi que, na Europa, tínhamos algo muito especial”, mas que tinha margem para melhorias. “Temos muita investigação e inovação a acontecer, mas que estão muito desligadas da indústria de capital de risco.” Dá como exemplo casos em que, após a investigação feita e a publicação de um artigo científico, a ideia de negócio não chega sequer a sair do papel.

Em 2016, passou a colaborar com o Conselho Europeu de Inovação (EIC). “A minha pergunta foi apenas ‘mostrem-me toda a investigação que financiaram’.” A resposta chegou através de uma base de dados que, do ponto de vista de um investidor, lhe permitia tirar poucas conclusões. “Há startups e inovações na Europa a que ninguém te dá acesso”, lamenta o investidor.

Foi a partir de um contacto mais direto com a Comissão Europeia que Thijs Povel decidiu fundar em 2020 a Dealflow.eu, uma plataforma “onde as startups e os projetos que recebem financiamento da União Europeia podem tornar-se visíveis”. Ao estarem nesta montra, os investidores podem solicitar uma apresentação e as startups recebem uma notificação. É a lógica de matchmaking, resume Povel. A estrutura tem um escritório em Lisboa, a partir de onde trabalha uma equipa de 20 pessoas, com Thijs Povel a dividir-se entre Portugal e a Suíça.

Mas a Dealflow, que em tradução livre significa fluxo de negócios, não quer apenas apresentar startups a investidores. “O maior obstáculo para muitos destes projetos é a falta de compradores. Nenhum investidor se interessará apenas pela investigação se não houver negócio.” Assim, a Dealflow decidiu “ligar as maiores empresas da Europa às startups”. “Começámos a fazer dias de inovação corporativa duas vezes por mês. Vamos às maiores empresas, perguntamos quais são os desafios que têm e, de seguida, apresentamos-lhes startups relevantes”, explica.

Mas ainda não era suficiente assegurar só as apresentações. “Queria investir nas boas empresas que conhecemos.” Foi assim que surgiu a Ventures.eu, que tem um fundo de capital de risco que vem completar a atividade da Dealflow. Povel juntou-se a Fernando Ferreira, que durante anos esteve na Portugal Ventures. O português tem uma extensa ligação ao mundo das startups, com investimentos em unicórnios como a OutSystems.

O Fund I, da Ventures.eu, foi lançado no verão passado, estando focado em empresas de deep tech, desde a área do clima até hardware, mas também em tecnologias disruptivas de inteligência artificial (IA). O primeiro investimento liderado pela Ventures.eu foi na Spot Ship, uma empresa britânica para logística marítima, que recebeu 1,15 milhões de euros em janeiro deste ano.

O objetivo é que o fundo da Ventures.eu possa “chegar aos 30 milhões de euros” de ativos sob gestão “nos próximos meses”. Thijs Povel revela que “já foram angariados alguns milhões”, mas que ainda não foi atingida a meta, que oscila entre “um fundo de 30 a 60 milhões de euros”. “Neste momento, temos um valor de apenas um dígito”, sem especificar quanto. Thijs Povel esclarece que contribuiu com “cerca de 10% dos fundos”, após ter feito investimentos “em algumas startups que cresceram muito”. Acrescenta que há “vários outros investidores, é dinheiro privado” a contribuir para este fundo. “Não recebemos qualquer dinheiro da Europa.”

O objetivo é que o fundo da Ventures.eu possa “chegar aos 30 milhões de euros” de ativos sob gestão “nos próximos meses”. Thijs Povel revela que “já foram angariados alguns milhões", mas sem detalhar quanto

O fundo tem também um grande foco no empreendedorismo português. “Acreditamos mesmo em Portugal, somos um fundo totalmente sediado em Portugal”, acrescenta o co-fundador. “Estamos focados em investir pelo menos 60% do nosso fundo em startups portuguesas. Penso que a Ventures também trará muitos benefícios para Portugal.” O restante montante do fundo será destinado a startups que estejam a operar na Europa.

Há falta de investimento em startups europeias que estejam a dar os primeiros passos

Segundo o cofundador da DealFlow, é hoje “mais difícil” para algumas empresas terem acesso a investimento do que era há alguns anos. “Há muita atenção para as fases de crescimento e fases mais avançadas”,  referindo-se a empresas já com alguma maturidade. “Sentimos que há menos foco na fase inicial, que é onde estamos ativos”, detalha.

“Há menos dinheiro dos governos, menos dinheiro dos bancos nacionais. Está tudo a virar-se para uma fase mais avançada, porque perceberam que muitas rondas de financiamento em fase avançada são feitas por investidores estrangeiros na Europa”, explica.

O cofundador da Dealflow considera que, a nível europeu, “é um erro” concentrar “todos os esforços” em empresas com maior maturidade. “O foco deveria manter-se no estágio inicial porque, sem ele, não existe estágio avançado.” Ou seja, “se se mata o fluxo [de startups], se há apenas preocupação em resolver a lacuna da escalabilidade, então não haverá escalabilidade de qualquer forma”.

Povel considera que o foco nas scaleups pode surgir da perceção de que há investidores europeus suficientes a financiar as startups mais novas. “Acha-se que a lacuna nas empresas de early stage está suficientemente coberta e que há dinheiro suficiente. Mas é aí que discordamos totalmente.”

Considera que essa diferença de perceção “depende muito da forma como se analisam os dados”, admitindo a possibilidade de algum enviesamento nas análises dos investimentos. “Quantas startups europeias em fase inicial têm financiamento de investidores europeus? Quase todas.” A situação é outra quando se olha para empresas em fase mais avançadas, em que “há muitos investidores norte-americanos”. “A conclusão é ‘como só há investidores europeus a financiar todas as startups em fase inicial, não há lacuna’. Mas isto é um enviesamento, porque as empresas em fase inicial não são tão interessantes para os investidores estrangeiros.

Considera, assim, que há um problema com os dados, relatando um “enorme fosso de financiamento de startups early stage, principalmente nos polos regionais”. Enquanto em Londres, “há aceleradoras e mais recursos financeiros”, a situação é diferente no sul da Europa. “Quando se vai a Itália, a Espanha, a Portugal, os fundadores de startups em fase inicial estão a lutar para sobreviver. E, se chegarem à fase mais avançada, de repente já são suficientemente grandes para receber investimento de todos os grandes fundos — e aí já não têm dificuldades.”

Thijs Povel considera que “há um erro estratégico dos governos e da Europa de não se concentrarem o suficiente em startups early stage e dizerem que existe apenas uma falta de scaleups. Estão a interpretar os dados da forma errada”.

O responsável da Dealflow teme que o cenário se agrave com o fim do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que tem sido uma fonte para financiar muitos projetos, incluindo na área do empreendedorismo. Com o fim do PRR, em junho deste ano, Povel diz estar “muito preocupado” com os próximos tempos. “Falo com muitos fundadores que têm dificuldade em captar recursos e em conseguir dinheiro”, reforça.

Para Thijs Povel, o empreendedorismo europeu poderia beneficiar de estratégias como ter os fundos de pensões a investir mais em startups. “Se se olhar para os EUA, é possível ver que todos os fundos de pensões investem em capital de risco — e isso não acontece na Europa”, tirando alguns casos pontuais, como a Noruega. “Em comparação com os EUA, é como se apenas 1% do dinheiro dos fundos de pensões [a nível europeu] fosse investido em capital de risco.” Considera “uma pena, porque os fundos de pensões recebem um menor retorno do investimento e nós [europeus] não financiamos as nossas próprias startups. Há investidores norte-americanos que beneficiam das nossas startups e não os nossos próprios pensionistas.”

Vê com bons olhos os movimentos em alguns pontos da Europa, como França, para tentar alterar esse cenário. “Acho que um dos maiores problemas dos nossos fundos de pensões é que têm regulações de segurança e gestão do risco. Portanto, não estão autorizados a investir em ativos como o capital de risco”, explica Povel. “É possível, mas têm de colocar dinheiro de parte, o que faz com que não se torne atrativo.” O responsável da Dealflow mostra-se “otimista” de que, a haver alterações neste campo, “haverá muito mais dinheiro a chegar às empresas em fase inicial — que precisam muito dele”.

Ecossistema português “está a ir no caminho certo”, mas ainda é “necessário muito mais dinheiro”

Na qualidade de investidor de capital de risco, Thijs Povel passou pelo mercado dos EUA, mas também por vários ecossistemas europeus. Um olhar sobre o velho continente que foi aprofundado com a Dealflow.

Com uma boa parte da equipa em Lisboa, considera que o ecossistema português está em expansão. Vê evolução nas startups da capital nos últimos seis anos, considerando como vantagens “a boa qualidade de vida e os salários acessíveis”, assim como a disponibilidade de talento. Aliás, foi esta combinação que o atraiu para Lisboa. Mas há uma desvantagem que cresce a olhos vistos: o valor das rendas, especialmente na capital. “As rendas são um problema em Lisboa, mas ainda não é assim tão mau”, pelo menos a comparar com outras cidades europeias.

Escaladas de preços à parte, Povel “continua a achar que é preciso mais crescimento, mais dinheiro”. E, espera que algum dia se consigam replicar fenómenos como o Skype e Spotify em Portugal, em que se criaram ideias de negócio, que floresceram e tiveram um efeito polonizador de criar mais startups. “Tal como nesse exemplo, começo a ver mais empresas de sucesso [em Portugal], o que leva posteriormente a mais empresas. Portugal fez várias coisas muito boas para incentivar o investimento em startups — e acho que está no caminho certo”.

"Acho que Portugal fez várias coisas muito boas para incentivar o investimento em startups — e acho que está no caminho certo”.

Thijs Povel faz também parte do conselho consultivo da Europe Start Nation Alliance (ESNA), a aliança europeia para fomentar o empreendedorismo europeu. Anunciada em 2021, a ESNA tem sede em Portugal desde então. Em dezembro, foi noticiado que Portugal está em risco de perder a sede se não for concluída a transição para uma nova organização jurídica de consórcio. Uma candidatura que tem de ser feita pelo Ministério da Economia, mas até agora sem fumo branco. 

https://observador.pt/especiais/alianca-europeia-das-startups-ainda-espera-acao-do-governo-para-mudar-estatuto-e-garantir-sede-em-portugal-tem-de-acontecer-rapidamente/

Ao Observador, o cofundador da Dealflow admite não saber o que pode comentar sobre o assunto. “Não sei quanto é público e quanto posso falar. A única coisa que posso dizer sobre a ESNA é, mais uma vez, que acho que estão a fazer um trabalho incrível.”

Destaca o papel da organização de “ajudar os decisores políticos de diferentes países a fazer um trabalho melhor e a perceber quais as políticas que precisam de ser alteradas”. Dizendo que “é fantástico que isto esteja a acontecer em Portugal”, mostra-se um “grande fã do trabalho realizado na Europa, como um todo”. “Espero que os Estados-Membros acordem para a realidade e garantam o apoio conjunto à ESNA e espero que ela possa continuar. Acho que Portugal é um ótimo local para isso — é o país fundador da ESNA.”

“Vejo muitos investidores a dizer que se não tiver IA não querem investir”

Thijs Povel confessa-se “muito entusiasmado com a IA”. “Estou muito otimista em relação à IA e penso que vai mudar muitos dos nossos setores” de atividade, diz ao Observador. Vê como “natural” o facto de nascerem muitas empresas nesta área tecnológica.

E, embora considere que “no mundo do hardware e dos átomos ainda haja muito para inovar e ser feito”, áreas que “ podem beneficiar muito da IA”, também teme a excessiva atenção dada a esta tendência. “Vejo muitos investidores de capital de risco da minha comunidade a dizer que se [a startup] não tiver IA não querem investir”, afirma. “Acho que isso é mau, porque ainda existem outras startups fantásticas na área da saúde, biotecnologia, mobilidade, energia solar… Em todos estes setores, que são os verdadeiros setor de tecnologia de ponta.”

O fundo Ventures.eu está focado em startups de deep tech, que necessitam de muito capital para chegar à inovação. E, com muito do apetite das capitais de risco concentrado na IA, Thijs Povel relata que “muito dinheiro está já a desaparecer das startups de deep tech porque está todo a ser investido em IA”. “Muitas das startups mais antigas estão com muita dificuldade em conseguir financiamento — isso já é um problema”, explica.

“Acredito na IA, acho que será fantástica e que vai substituir muito do trabalho que fazemos agora. Mas também acredito que está sobrevalorizada em muitos casos. Veremos quem serão os vencedores, mas também haverá muitos vencidos."

Na sua perspetiva, “há uma bolha a formar-se na IA, mas isso não significa que a IA não seja real”, contrapõe. Prefere apontar para um cenário de sobrevalorização. “Estamos a pagar demasiado por estas startups”, dizendo que “os múltiplos são demasiado otimistas”. Teme situações em que, devido à evolução das capacidades de soluções como o Claude, da Anthropic, ou dos modelos da OpenAI, “até casos de sucesso” possam vir a tornar-se obsoletos. Dá como exemplo casos de plataformas de escrita de código com IA como a Cursor, a Replit ou a Lovable. “Se o Claude começar a fazer o que elas fazem, preocupam-me que até elas desapareçam.”

“Acredito na IA, acho que será fantástica e que vai substituir muito do trabalho que fazemos agora. Mas também acredito que está sobrevalorizada em muitos casos. Veremos quem serão os vencedores, mas também haverá muitos vencidos”, alerta.

A Europa vai criar mais unicórnios? “Haverá inovação na saúde”, mas não vamos conseguir “competir nos jogos de capital muito pesados”

Thijs Povel não se arrisca a fazer previsões sobre próximos unicórnios em Portugal ou noutros pontos da Europa. “Acredito que haverá inovações na área da saúde. Gosto muito da base científica dos europeus”, responde apenas.

Mas acrescenta que não crê que a Europa possa “competir nos jogos de capital muito pesados”, como é o caso dos grandes modelos de linguagem. “Acho que não vamos conseguir acompanhar a OpenAI, o Claude [da Anthropic] e os outros”, acrescentando que é “necessário uma quantidade enorme de chips”. Nem a francesa Mistral, avaliada em 11,7 mil milhões de euros em setembro de 2025? “Não. Não acho mesmo que a Mistral vá ser uma concorrente no panorama global.”

https://observador.pt/especiais/a-inteligencia-artificial-em-todo-o-lado-e-se-a-europa-ja-tiver-uma-alternativa-para-competir-com-openai-e-deepseek/

Além disso, também lembra a concorrência da China, com “todos os modelos de código aberto, como o DeepSeek”. A Europa pode não vir a conseguir ter os seus modelos de escala, mas Povel acredita que “poderá beneficiar de modelos de IA mais baratos e de qualidade, que nos podem ajudar a desempenhar outras funções”. “Penso que na área da saúde, na computação quântica e em todos estes outros domínios de startups científicas de tecnologia de ponta, a Europa fará muitas coisas boas e beneficiaremos do trabalho que está a ser feito noutros continentes. E acho que isso é ótimo, não creio que precisemos de competir com estas atividades de IA.”