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A instrumentalização de um conflito familiar

A instrumentalização de histórias pessoais como armas políticas é uma prática recorrente. E perigosa.

Manuel Matias
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O espaço público português volta a ser ocupado por um caso em que a fronteira entre o pessoal e o político é apagada não por necessidade, mas por conveniência.

Miguel acusou a sua mãe, Maria Helena Costa, de rejeição, violência e de alegadas “terapias de reconversão” após assumir a sua homossexualidade aos 16 anos. As acusações são graves. Muito graves. E, por isso mesmo, exigem mais do que emoção: exigem rigor.

Esse rigor está a faltar.

Ao longo dos anos em que os factos terão ocorrido, não são conhecidas queixas formais contra a mãe ou contra quaisquer profissionais de saúde alegadamente envolvidos. Miguel permaneceu no agregado familiar até aos 21 anos, concluiu o ensino superior com apoio dos pais e só saiu de casa já com autonomia.

Estes factos não provam inocência. Mas desmontam a narrativa simplista de um cenário contínuo de violência extrema.

Há mais. Tendo estado, desde os 16 anos, próximo de meios e coletivos progressistas (LGBTI +) onde existem canais claros de denúncia e apoio, a ausência total de qualquer queixa ao longo de vários anos não pode ser ignorada. Não é um detalhe. É uma contradição central.

Nada disto exclui conflito, tensão ou sofrimento. Mas impede leituras lineares e reconstruções retrospetivas feitas à medida de agendas.

E é aqui que o caso deixa de ser apenas familiar.

Maria Helena Costa não é uma figura neutra. Há anos que assume posições públicas críticas da chamada “ideologia de género”. O reaparecimento destas acusações coincide, não por acaso, com um momento de forte tensão política em torno de legislação sobre identidade de género, sobretudo no que toca a menores.

Ingenuidade? Não.

A instrumentalização de histórias pessoais como armas políticas é uma prática recorrente. E perigosa.

Isto não significa que as acusações sejam falsas. Significa que o seu uso público não é inocente  e não pode ser tratado como tal.

Também não é aceitável que se substituam tribunais por julgamentos mediáticos. Narrativas unilaterais, amplificadas nas redes sociais e consumidas sem contraditório, não são justiça. São linchamento.

Há, aliás, uma contradição que não pode passar despercebida: numa sociedade que exige aceitação absoluta, revela-se uma crescente incapacidade de aceitar quem pensa de forma diferente…

A tolerância tornou-se seletiva.

Mais grave ainda é a instrumentalização do sofrimento. Quando experiências pessoais são capturadas por agendas políticas, deixam de servir a verdade e passam a servir causas. E isso é, simplesmente, inaceitável.

O que está em causa ultrapassa este caso. É o modo como se normaliza transformar conflitos familiares complexos em armas de combate político.

Quando tudo se torna político, a família deixa de ser refúgio para passar a ser trincheira.

E isso diz muito sobre o estado a que chegámos.

Deixem as famílias em paz.