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Fundadora de empresa de "meditação orgásmica" condenada a nove anos de prisão por trabalhos forçados

Nicole Daedone, que prometia libertação às mulheres, foi condenada por as ter coagido a atos sexuais e trabalhos forçados. Apoiantes continuam a dizer que decisão silencia movimento inovador.

Mariana Lima Cunha
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Uma prática libertadora, que ajuda as mulheres a atingir a “meditação orgásmica”, ou uma espécie de culto cujos membros eram obrigados a fazer trabalhos forçados e atos sexuais? O caso é polémico e divisivo, mas uma juíza decidiu pela segunda opção e sentenciou Nicole Daedone, a fundadora de uma empresa dedicada a este tipo de “meditação” chamada OneTaste, a nove anos de prisão (e a antiga chefe de vendas, Rachel Cherwitz, a seis).

Como escreve o New York Times, os fãs e equipa de Nicole Daedone têm-se esforçado por transformar a sua imagem, passando a apresentar-se como uma mártir pela libertação das mulheres que foi silenciada. E argumentam que a liberdade de expressão e de pensamento está em causa, considerando mesmo que “o verdadeiro poder das mulheres está a ser criminalizado”, como pode ler-se no Instagram de Daedone.

Mas a juíza Diane Gujarati ouviu, num tribunal de Brooklyn, várias antigas funcionárias a descreverem a One Taste, criada em 2005, como um “culto sexual” e concluiu mesmo que Daedone lhes causou “danos prolongados, se não irreparáveis”. “O que ela fez não tinha a ver com iluminação ou operar numa dimensão diferente. Foi criminoso”, declarou, depois de os procuradores norte-americanos terem argumentado que Daedone e Cherwitz “usaram coerção psicológica, emocional e financeira para controlar as suas vítimas e conseguir trabalho e serviços para seu próprio benefício”.

Como o jornal descreve, a One Taste chegou a ter 300 mil aderentes e espaços em São Francisco, Nova Iorque e Austin, com sessões onde se oferecia a prática da “meditação orgásmica” (baseada no tantra budista) estimulando o clitóris das clientes durante 15 minutos. A empresa acabaria por ser vendida, por 12 milhões de dólares (10,4 milhões de euros) em 2017.

As antigas funcionárias contaram que Daedone e Cherwitz criaram uma cultura de medo e intimidação, coagindo-as psicologicamente a praticarem atos sexuais com investidores e a fazerem todas as tarefas necessárias nas comunas onde acabam por viver, sem limites de horas (e, segundo a juíza, acabavam por ser isoladas, acabando por viver para a OneTaste e sendo encorajadas a acabar com as suas relações românticas fora dali).

Segundo as funcionárias, enquanto eram obrigadas a viver assim, Daedone e Cherwitz beneficiavam do seu trabalho e viviam uma vida de “luxo” com os lucros. Além disso, uma testemunha garantiu que a antiga chefe das vendas a obrigou a receber meditação orgásmica, tendo os procuradores defendido que esta era apresentada como uma forma de aumentar a produtividade.

Segundo as funcionárias, os esquemas de trabalho forçados em que estavam envolvidas também incluíam ameaças, violência física, chantagem e até o confisco dos seus passaportes. Emocionalmente, sentiam-se obrigadas a estar e ficar na OneTaste e a abraçar a sua doutrina como “forma de vida”.

A advogada de Daedone, Jennifer Bonjean, apareceu no tribunal rodeada de apoiantes da fundadora, garantindo que apresentará um recurso para contrariar esta decisão. Já a atual CEO da One Taste, Anjuli Ayer, sentenciou que este é um “dia horripilante para a liberdade”: “Se a persuasão pode ser um crime e o consentimento não importa, então ninguém está a salvo”, cita o The Guardian.

Os apoiantes de Daedone e da empresa defendem que o tribunal está a perseguir quem pensa e quer viver de uma forma alternativa, tendo a procuradora Kayla Bensing garantido que “é irrelevante à luz da lei se acreditavam mesmo na sua missão orgásmica” e que os trabalhos forçados podem acontecer mesmo que a vítima seja fisicamente capaz de se ir embora (com coação psicológica).

Como o New York Times conta, ao longo dos anos e após o sucesso da empresa, Daedone tinha começado a organizar eventos em grande escala, aberto uma editora de livros e um programa para entregar comida a pessoas sem abrigo. Agora, a equipa da fundadora está a tentar apelar a figuras conservadoras e próximas de Donald Trump para tentar garantir um perdão presidencial.

Na prisão (onde já estava desde que recebeu a sentença no ano passado), conta o jornal, que trocou emails com Daedone, esta tem estado a ensinar meditação a outros reclusos, sem a componente do orgasmo. No Instagram chega a partilhar “receitas da prisão”, como um Apple Crumble que, avisa, é difícil de executar porque a maçã tem de ser cortada com a “faca de plástico” que os reclusos recebem.

Mas fora da prisão o apoio a Daedone está bem vivo: como se anuncia no seu Instagram, as suas apoiantes estão agora a organizar jantares onde um bot que foi ensinado a apreender a sua perspetiva e os seus métodos fala com os presentes e responde a dúvidas.