Ouvimos com frequência que a geração atualmente entre os 25 e os 40 anos de idade é a “Mais Preparada de Sempre”, pelas justificadas razões de ter sido a primeira em que se generalizaram estudos secundários e superiores, se difundiu o ensino do inglês e da informática, e que, em decorrência da entrada na União Europeia, teve oportunidade de viajar, estudar a trabalhar no exterior com mais facilidade.
A geração que se lhe segue – atuais, crianças e jovens – tem todo o enorme potencial da sua antecessora, a que acresce o de serem nativos digitais. Todavia, uma combinação de fatores incluindo evoluções tecnológicas, instabilidade geopolítica, inversão da pirâmide demográfica, crise de habitação, desenvolvimento da inteligência artificial, e, sobretudo, uma educação que não os prepara para os desafios que irão encontrar, pode facilmente torná-los na geração mais impreparada de sempre.
Se é certo que o desenvolvimento tecnólogico e da inteligência artificial está fora do nosso controlo, e que para a estabilidade geopolítica pouco podemos fazer, é inegável que ao nível educativo, há muito que refletir sobre a nossa responsabilidade enquanto pais e formadores.
Na parentalidade moderna, é inequívoco que os pais de hoje são, em média, mais velhos (depois dos 30, quando não depois dos 40) e têm menos filhos, resultando em filhos muito planeados e desejados. O problema é que cada filho tende a tornar-se numa espécie de obra-prima cujos pais colocariam numa redoma de cristal se assim pudessem, protegidos de qualquer risco, frustração ou desconforto.
A proteção excessiva, porém, tem um efeito perverso: impede o desenvolvimento da autonomia. A título exemplificativo, quando as crianças não sabem quais são os trabalhos de casa, os pais recorrem ao grupo no Whatsapp de pais da sala para o descobrir, desresponsabilizando-os da sua tarefa, para evitar que estes passem pelo desconforto de ir sem o trabalho feito e serem repreendidos. Todavia, isso impede-os de aprender tal lição e fá-los interiorizar que terão sempre alguém que os salve, e que portanto não há mal em não serem responsáveis.
Crianças que nunca caem não aprendem a levantar-se. Jovens que nunca enfrentam dificuldades não desenvolvem resiliência. E adultos que nunca foram contrariados soçobram perante o primeiro obstáculo. A intenção dos pais é, como sempre, a melhor; o resultado esse, desastroso.
A obsessão pela inclusão — nobre na teoria — tem sido, com frequência, contraproducente. Hoje, é comum que se convidem todos os colegas da turma para as festas de aniversário. A ideia é evitar que alguém se sinta excluído e promover um sentimento de grupo transversal à turma. Identicamente, a linguagem de muitos pais, referindo-se aos colegas dos filhos como os seus “amiguinhos” e não como “coleguinhas” dificulta a crucial e salutar distinção entre colegas e amigos, entre proximidade e simpatia, entre afinidade e convivência.
A amizade é uma escolha, não uma obrigação. E aprender a escolher — e a lidar com o facto de nem sempre sermos escolhidos — é parte essencial do crescimento social. Ao eliminar essa aprendizagem, criamos jovens que não sabem distinguir entre amigos e colegas e que não sabem gerir rejeição, que esperam ser incluídos em tudo, e que confundem presença com afeto. E não, eles não serão amigos de casa de todos os seus colegas quando forem adultos, mas terão que saber gerir relações extrafamiliares com diferentes níveis de proximidade.
A isto alia-se a ausência de uma verdadeira educação moral. Não falo de moralismos antiquados, mas de princípios básicos que sustentam qualquer sociedade saudável — respeito, responsabilidade, honestidade, solidariedade, sentido de dever. Valores que sempre foram e são transmitidos pelas famílias, mas que sempre tiveram um reforço – fundamental os que não a tinham em casa – na escola, na igreja e na tropa (via serviço militar obrigatório). Nos diferentes níveis de ensino público teme-se entrar em temas polémicos (hoje em dia, quase todos) em tempos de acirrado antagonismo woke e anti, a religião e o seu peso doutrinal tem decaído ao longo das últimas décadas, e o fim do serviço militar obrigatório não ajudou.
Sem uma estrutura moral, tudo se torna negociável. A verdade é substituída pela opinião. O mérito, pela exigência de igualdade absoluta. O esforço, pela expectativa de recompensa imediata. E, quando estes pilares desaparecem, o desenvolvimento cognitivo e emocional fica comprometido ou vulnerável a caminhos fáceis, que raras vezes são os mais pródigos.
A adição aos ecrãs de bebés, crianças e adolescentes é hoje tacitamente aceite, quando não estimulada por uma larga maioria de pais e educadores, o que, sabendo-se dos efeitos negativos de elevado número de horas de exposição, se torna quase criminal. É comum ver-se bebés e crianças pequenas a olhar para telemóveis e tablets em restaurantes e estabelecimentos afins, deteriorando a sua visão, diminuindo a sua capacidade de atenção e diminuindo drasticamente as suas competências sociais.
Acrescem a tudo isto as redes sociais, que nasceram com a promessa de democratizar a informação, tornaram-se numa espécie de centrifugadora intelectual. Tudo o que é complexo, ambíguo ou exige reflexão é triturado até caber num meme, num vídeo de dez segundos ou numa frase de impacto que, não raras vezes, é falsa, manipulada ou simplesmente néscia. A lógica do algoritmo privilegia o que provoca reação imediata — indignação, riso fácil, escândalo — e não o que promove pensamento crítico. E, quando a dieta informativa é composta sobretudo por conteúdos simplificados ao extremo, não é surpreendente que a capacidade de interpretar, analisar e questionar se atrofie ou nunca se desenvolva. A imbecilização não acontece de um dia para o outro; é um processo lento, confortável e quase impercetível, embalado pela sensação enganadora de que estamos sempre informados.
O problema agrava-se quando percebemos que a escola, em vez de funcionar como contrapeso, muitas vezes reforça esta fragilidade. Demasiados jovens chegam ao ensino secundário sem saber interpretar um pequeno texto, mas continuam a ser confrontados com obras escritas em português arcaico, cuja leitura exige competências que eles simplesmente não possuem. Não se trata de desvalorizar a literatura clássica — que é fundamental — mas de reconhecer que não se pode pedir a um aluno que corra uma maratona quando ainda tropeça nos primeiros metros. Falta treino na escrita, na argumentação, na leitura funcional. Falta tempo dedicado a ensinar a exprimir ideias com clareza, a distinguir factos de opiniões, e sobretudo, a identificar manipulações. E, enquanto estas competências básicas não forem consolidadas, insistir em textos que lhes são linguisticamente inacessíveis serve apenas para aumentar a distância entre a escola e a realidade, deixando os jovens ainda mais vulneráveis ao ruído das redes sociais.
Sem surpresa, têm surgido estudos nos últimos anos que indicam que, em vários países desenvolvidos, as gerações mais jovens apresentam resultados de QI inferiores aos das gerações anteriores. Esta inversão do chamado Efeito Flynn — que durante décadas descreveu aumentos contínuos de QI de geração em geração — tem sido documentada (IQs are falling – and have been for years | World Economic Forum) em países como Noruega, Dinamarca, Reino Unido e Estados Unidos.
Vários estudos indicam igualmente perda de competências sociais, psicológicas (Rapid-Report-The-Deteriorating-Social-Self-in-Younger-Generations.pdf), e motoras (Trends in Physical Activity and Motor Development in Young People—Decline or Improvement? A Review), que aliadas a uma redução de coeficiente de inteligência tornam a futura geração de jovens adultos sobejamente impreparada para lidar com os múltiplos desafios que terão pela frente.
Os nossos jovens têm tudo para ser melhores do que nós em tudo, mas é o caldo de estímulos em que crescem que condiciona o seu desenvolvimento intelectual, social e psicomotor. É, portanto, nossa e não deles a responsabilidade.
A boa notícia é que se estivermos cientes de tudo isto, podemos e devemos mudar de abordagem enquanto pais, educadores e professores. No seu romance pós-apocalíptico, Those Who Remain, G. Michael Hopf profetizou:
“Tempos difíceis criam homens fortes.
Homens fortes criam tempos fáceis.
Tempos fáceis criam homens fracos.
Homens fracos criam tempos difíceis.”
Cabe-nos contrariar esta profecia, elevando o nível de exigência tanto para com os mais jovens como para com a nossa atuação enquanto pais, educadores e professores.