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(A) :: Antes era o Chocolate do Dubai, agora é o Português do Dubai. Não há melhor.

Antes era o Chocolate do Dubai, agora é o Português do Dubai. Não há melhor.

Fico incrédula a ouvir portugueses a falar desta forma tão pouco empática para com as vítimas no Irão, do Dubai e das futuras, incluindo os militares em breve empurrados por Trump para a guerra.

Sandra Figueiredo
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Desde que a guerra do Irão começou (aliás mais do que a guerra só do Irão), tenho analisado alguns discursos de portugueses, ora turistas, ora residentes no Dubai, quanto à sua experiência sobre vivenciar a guerra que fica ali mesmo ‘ao lado’. Basta ver no mapa para se perceber a quase sátira que vem agora. Pelos vistos, parece a guerra um show de luzes sobre o qual tem de se fazer cobertura diária com franco elogio, considerando o seguinte.

Vários portugueses, e na maioria em contexto de grupo familiar, têm dado a cara desde o Dubai (nas suas casas ou de passagem em resorts) como autênticos repórteres. Há famílias nos ecrãs a falar connosco, com os nossos canais. Reportam factos hilariantes, mas são mesmo crentes de que ali é que se está bem. Em Portugal não, nem na Europa se está tão imensamente seguro. Ao início tive de rever vários vídeos (noticiados pelos nossos principais canais de televisão, reputados) para validar o que ia/vou escutando: reportam eventos numa ordem muito feliz e ‘calma’. Asseveram os portugueses no Dubai que ali estão tão protegidos que a sensação de ouvir mísseis gera um conforto franco. Elogiam o governo (do Dubai) e a forma como as mensagens são enviadas (estilo Proteção Civil) para saber se os portugueses estão todos bem enquanto os mísseis são intercetados e só algumas pessoas vão morrendo.

Eu não estou a ser exagerada, estou é chocada com os adjetivos que os nossos portugueses emigrados (e os turistas) dizem de si e do Dubai, e das tristes vítimas mortais. Mas, tudo é uma segurança paradisíaca. Parecem portugueses que fizeram a primeira viagem de avião sem nunca terem visto além Portugal. Quem conhece o Dubai, sabe que é muito interessante, luxuoso e seguro, sim admito. Mas, com a guerra por cima do teto e quase na fronteira com o Irão, quem está assim tão seguro e di-lo bradando aos céus (de mísseis)? Sobretudo tendo Teerão declarado ofensas ao coração do Dubai.

Por exemplo, uma outra senhora, numa das entrevistas que facultou, há poucos dias, refere o quão prazeroso foi testemunhar que um show em que a filha ‘teve’ de estar, para se divertir, não foi interrompido por causa dos mísseis que passavam por cima. Seria muito aborrecido e inconveniente que a guerra atrapalhasse este recreio. Pensei. Depois, outras notícias expõem portugueses, à chegada do aeroporto de Lisboa, a comentar o quão ‘interessante’ foi vivenciar a guerra a partir de um bunker que o resort de luxo tinha. O sorriso do senhor que o disse (e outros) era sincero. E vale dizer que ele ressalvou que estava hospedado em cinco estrelas (e ajeitou o sotaque da linha de Cascais). Quando no Dubai, o típico português devia saber que 5 estrelas já nem é o luxo de topo, há muito tempo. Talvez este senhor tenha conseguido o pacote da viagem + bunker num sorteio ou por uns 1000 euros com tudo incluído. A guerra all inclusive.

O que mais me impressionou: um jovem português, na casa dos 40, era entrevistado sobre o perigo de estar no Dubai, com uma explosão no aeroporto e mil voos cancelados. Ora, o jovem, sentado num restaurante ou numa praça alimentar (no Dubai, claro), ia reportando também ele que é tudo uma segurança maravilhosa e que só há uma vítima aqui e acolá. Enquanto falava, não sei se por ingenuidade ou então tenha ele alguma parceria nas redes sociais, o português ia fazendo publicidade (nada subliminar) ao novo aeroporto no Dubai, que está ainda a terminar de ser construído, mas tem sido um ‘resort’ de aterragem para muitos voos que não puderam aterrar no DXB por causa de uma explosão. Coisa pouca, pois o português refere que esse novo aeroporto será o maior do mundo. Ele frisa, parece mesmo uma publicidade. Pouco importou que só uma pessoa morreu (no dia), está tudo “normal” e ele está a comer “como se pode ver”.

Sinceramente, se antes eu já estava a sentir-me nauseada com tanta publicidade ao chocolate do Dubai (a correria, a publicidade forçada), agora voltei a sentir a náusea porque o chocolate de luxo agora é outro e é lusitano. Parecer estar/ser rico e bem no Dubai é prioridade, o resto do Mundo em guerra não interessa. Há mesmo uma jovem que refere que não se pode ouvir o que as notícias fora do Dubai dizem, pois é tudo mentira. Ali é que se está bem: “tremendamente” seguro viver no Dubai nesta fase.

Fico incrédula a ouvir portugueses a falar desta forma tão pouco empática para com as vítimas no Irão, do Dubai e das futuras, incluindo os militares em breve empurrados por Trump para a guerra. Talvez seja isto tudo efeito do chocolate do Dubai, fico-me nesta efémera esperança.