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Mobilidade elétrica em Portugal: quando o futuro deixa de ser promessa

Portugal está a avançar no caminho da eletrificação de forma progressiva, mas firme. O mercado está mais aberto à mudança, mas também mais informado.

Domingos Silva
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Durante anos, a mobilidade elétrica foi muitas vezes tratada como uma ideia de futuro, algo que ainda estava para chegar. Falava-se de metas ambientais, de novas tecnologias e de um setor automóvel que iria mudar “nos próximos anos”. O mais recente Barómetro da Mobilidade Elétrica do ACP mostra que a eletrificação deixou de ser apenas uma promessa e passou a ser uma decisão real para cada vez mais condutores portugueses.

Os números ajudam a perceber essa mudança. A penetração de veículos eletrificados já ronda os 9% e quase metade dos condutores admite trocar de automóvel nos próximos cinco anos. Talvez ainda mais revelador seja o facto de cerca de metade dos portugueses dizer que, hoje, escolheria uma motorização com componente elétrica. Não estamos apenas perante curiosidade ou intenção vaga. Estamos perante um mercado que, na verdade, começa a amadurecer.

Portugal tem características próprias que tornam esta evolução particularmente interessante. Temos um parque automóvel envelhecido, ciclos de substituição longos e uma forte sensibilidade ao preço. Mesmo assim, a mobilidade elétrica está a ganhar terreno de forma consistente. Isto demonstra que a transição energética no setor automóvel não acontece apenas por imposição regulatória ou pressão política. Acontece quando as pessoas começam a perceber que a tecnologia faz sentido na sua vida quotidiana.

Para a Volvo, esta evolução confirma também algo que temos vindo a observar nos últimos anos: Portugal funciona muitas vezes como um verdadeiro laboratório da eletrificação. Pela dimensão do país, pela crescente rede de carregamento e, sobretudo, pela abertura dos consumidores à inovação, o mercado português tem demonstrado uma capacidade interessante de testar e acelerar novas soluções de mobilidade.

O estudo ACP demonstra também uma mudança importante na forma como os consumidores olham para os elétricos. Durante anos, a conversa centrou-se na inovação ou na dimensão ambiental. Hoje, a decisão é cada vez mais racional. O custo de utilização, a eficiência e a previsibilidade das despesas pesam mais do que o discurso aspiracional. É um sinal claro de maturidade do mercado.

Nos últimos meses, esta tendência tem sido também reforçada por fatores mais imediatos. A volatilidade do preço dos combustíveis fósseis, muitas vezes influenciada por tensões geopolíticas externas, voltou a colocar o custo da mobilidade no centro das decisões. Sempre que estes ciclos de subida se intensificam, os veículos dependentes de combustíveis fósseis tendem a ser os mais expostos, enquanto soluções elétricas oferecem maior estabilidade e previsibilidade nos custos de utilização. Para muitos consumidores, a equação torna-se simples: quanto custa, de forma consistente, percorrer cada quilómetro.

Ao mesmo tempo, persistem algumas dúvidas naturais. A autonomia continua a ser um fator psicológico importante e a perceção sobre a durabilidade das baterias ainda precisa de mais informação e pedagogia. E aqui temos uma responsabilidade acrescida para as marcas. Sempre que surge uma nova geração de soluções, é necessário tempo para que o conhecimento acompanhe a inovação.

Importa também reconhecer que esta evolução não acontece isoladamente. Ainda na semana passada, Portugal deu um passo concreto para acelerar esta transição, com a aprovação do novo enquadramento legal da mobilidade elétrica, que liberaliza o mercado, simplifica o acesso ao carregamento e promove soluções mais flexíveis, incluindo o carregamento ad hoc. Na Volvo, acreditamos que esta medida poderá ter um impacto muito positivo no curto e médio prazo, tornando a experiência elétrica mais simples, mais acessível e mais alinhada com as expectativas dos consumidores, enquanto aproxima o país das metas europeias.

Outro dado relevante do estudo ACP é que 43% dos portugueses continuam a preferir marcas tradicionais quando pensam em veículos elétricos. Num momento em que surgem novos protagonistas globais, este indicador mostra que a confiança, a experiência industrial e a consistência continuam a ter um peso significativo na decisão.

No fundo, o barómetro deixa uma mensagem clara: Portugal está a avançar no caminho da eletrificação de forma progressiva, mas firme. O mercado está mais aberto à mudança, mas também mais informado, mais exigente e mais racional.

Isso é, na verdade, uma boa notícia. Porque as grandes transformações no setor automóvel nunca acontecem de um dia para o outro. Acontecem quando tecnologia, infraestrutura e confiança do consumidor começam finalmente a alinhar-se.