Quem passa pela Rua dos Condes, seja antes de ir a um concerto no Coliseu dos Recreios ou assistir a uma peça no Politeama, provavelmente nota a diferença no aspeto do prédio do antigo cinema Olympia. Mas só quem espreita para dentro das portas de vidro pode ver uma das Valquírias de Joana Vasconcelos. A instalação, encomendada especialmente para este espaço, está posicionada em frente a uma parede de espelhos, e é um convite à exploração — ou a uma selfie. Da Praça dos Restauradores, passando pela Rua do Ouro até Santos, Lisboa deu as boas vindas nos últimos meses a vários novos hotéis que têm como conceito a valorização do design, da arte, de elementos de história, e de serviços exclusivos — para turistas exigentes e residentes curiosos. Não são corredores de galeria de arte, mas estão quase lá.
O percurso começa logo pelo mítico cinema Olympia, que deu lugar ao Olympia Lis Boutique Hotel, um quatro estrelas que abriu portas há cerca de um mês. “Muitas pessoas entram para tirar fotografias com a obra da Joana Vasconcelos”, diz ao Observador o diretor do hotel, Alfredo Tavares. “Queremos que as pessoas sintam que é um espaço que podem entrar”, destaca, sobre a posição estratégica da obra da artista, que é provavelmente das portuguesas mais reconhecidas internacionalmente. A peça que segue a estética da série Valquírias, em tons de vermelho e amarelo, acompanha o projeto de interiores, que privilegia o toque mais antigo e quase burlesco do espaço. É assinado por Cristina Santos Silva, e venceu o Prémio Nacional do Imobiliário 2026 nesta categoria. O emblemático salão inaugurado em 1911 e que após o 25 de abril dedicou-se à exibição de filmes adultos, é agora a casa do bistrô, com cozinha sob o comando do chef Bernardo Demoustier, vindo do Bairro Alto Hotel, e já tendo passado pel’O Talho, do chef Kiko Martins. Aqui apresenta uma carta “despretensiosa”, de gastronomia portuguesa com influências francesa e mediterrânica, e que aposta em clássicos simples mas bem feitos, como peixe galo panado com arroz de tomates ou bochechas de porco ibérico servidas com puré de batata trufado. “Tenho por hábito ir às mesas e perceber o que está bem e o que pode melhorar”, diz-nos o Demoustier, que pela primeira vez assume como chef principal num restaurante.
O prédio esteve mais de dois anos em obras. Um espaço que, de acordo com Alfredo Tavares, estava em ruínas — o Olympia esteve fechado desde 2001 — e que agora deu lugar a 60 quartos de diferentes tipologias. Entre elas destacam-se as quatro unidades com terraço e jacuzzi, que têm tido maior procura nestas primeiras semanas de abertura. Nas habitações, mobiliário da Época, de Paços de Ferreira, porcelana Vista Alegre e amenities da espanhola Alqvimia. E de algumas das janelas, a vista para o Castelo, o que provavelmente seduz os clientes franceses, norte-americanos e brasileiros que se têm hospedado no hotel, apesar do diretor destacar já ter recebido clientes portugueses à procura de uma experiência de hotelaria de luxo. Ainda está por inaugurar uma sala de massagens e uma ideia: a de aproveitar as paredes dos corredores para expor obras de arte.
É um pouco do que fez a Feels Like Home no recém inaugurado 1904 Benfica Hotel, a poucos passos do Olympia, o sétimo da rede na Baixa lisboeta. Ainda estão previstos outros quatro até o final do ano, revela-nos António Quintão, diretor do grupo. Mas neste, o desafio foi particular: criar um hotel temático, num edifício com um grande significado e que foi por 50 anos a sede do clube. “Pensamos que era um desafio e era muito arriscado”, destaca Quintão. “Hotéis temáticos ou caem na graça ou podem correr mal. Mas nos primeiros três meses de operação tivemos 15% de clientes portugueses, contra cerca de 4% das outras unidades do grupo. Ter o nome do Benfica é como um boost para o público nacional”, diz o diretor da Feels Like Home, que conta que já teve “pessoas mais antigas, que vinham pagar a cota no passado, e quase choram quando chegam aqui. Lembram-se de como era e emocionam-se”.
À entrada um grande mural de Vihls a retratar Cosme Damião, figura mítica encarnada. O fundador está ainda presente num dos corredores do hotel: exposto está o bilhete de identidade do antigo jogador do clube, num nicho ao lado de uma camisola assinada por outra lenda do Benfica, Eusébio. Estes são os dois únicos nichos que devem permanecer inalterados — há mais 57 espalhados pelos corredores do hotel que homenageiam outros nomes importantes para a história do clube. A ideia de transformar as paredes do hotel numa espécie de galeria (apesar do sócio do grupo FLH destacar que este “não é um museu”), transporta-se para as escadas de serviço, onde estão expostas fotografias dos trabalhadores pelas lentes do engenheiro Gonçalo Barros. Foram mais de 400 pessoas a trabalharem durante 18 meses para transformar o edifício, composto por três prédios de estilo pombalino do século XIX. Da construção original foram preservadas as escadarias e algumas madeiras, além das duas esculturas de Leopoldo Almeida, que enfeitam o salão onde está o novo Café de São Bento. As peças datam da altura em que o prédio foi sede do Bristol Club, entre 1919 e 1929, um ponto de encontro para a elite lisboeta, e que ao seu tempo abrigou murais de Almada Negreiros, agora abrigados no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian. Do outro lado das escadas está o bar, com paredes tomadas por fotografias que contam a história do Benfica, com curadoria do museu do clube.
No andar de cima o antigo salão de baile do Bristol, com um pé direito alto e que ocupa um andar e meio do prédio — uma arquitetura vanguardista para a época, especialmente num edifício com as cruzes de Santo André, um elemento estrutural das gaiolas pombalinas — é agora a Sala Eusébio, e pode ser usada para convívios, reuniões ou para o conforto dos hóspedes, sem faltar, é claro, uma televisão oculta num dos painéis de madeira. No teto, um candeeiro vermelho chama a atenção. É uma criação de Maria Tavares de Almeida, mulher de um dos sócios do grupo hoteleiro. O encarnado ainda está nos azulejos das casas de banho, mas os 56 quartos adotam um estilo mais minimalista, e com peças portuguesas. Dos móveis aos têxteis, passando pelas amenities Oliófora, a ideia foi privilegiar o mercado nacional.
A descer até a Rua do Ouro, o edifício do antigo BCP na Baixa também mantém a fachada pombalina, mas ganhou ares de alto luxo. O Mythic Sana Downtown Suites, que abriu portas em dezembro, inaugura um novo conceito no grupo com mordomos certificados disponíveis 24 horas por dia. “Temos uma marca registada, são Golden Sleeve Floor Butlers, os primeiros butlers certificados pelo Turismo de Portugal e um conceito único aqui em Portugal, em que cada piso tem um serviço de butlers para apoiar os hóspedes durante toda a estadia”, explica ao Observador a diretora do hotel, Marie-Hélène Moreira. É, aliás, um dos mordomos que nos leva a uma visita pelos corredores que dão acesso às 40 suítes e oito quartos premium. Atualmente são cinco os butlers certificados através de um curso lançado pela Escola de Turismo do Algarve, mas mais profissionais do hotel devem passar pela formação nos próximos meses. O serviço inclui um formulário enviado previamente para ajudar a entender as necessidades de cada hóspede, com detalhes como a forma como os clientes costumam organizar as roupas em casa, para que os mordomos possam desfazer as malas de acordo com gostos específicos. “Todos os clientes que nós temos recebido estão espantados pela qualidade do serviço e o detalhe que nós fornecemos. Temos experiências básicas do serviço de mordomo, como abrir e fechar as malas, mas igualmente temos experiências dentro dos quartos, como o ritual de banho de banheira, e todos ficam surpreendidos de encontrar isso em Lisboa. E são clientes que estão habituados a este tipo de conforto”, diz a diretora do hotel.




Os butlers podem facilitar também o contacto dos hóspedes com os artistas responsáveis pelas obras dentro dos quartos: desde os quadros de Maria José Cabral posicionados sobre cada uma das camas, como as obras de Luís Bivar, presentes à entrada e no hall principal. Todos os quartos estão equipados também com porcelana Vista Alegre, incluindo uma garrafa da coleção My Rare Spirits em cristal com acabamento em ouro. Como oferta, clássicos portugueses: vinho do Porto, pastéis de Nata, chá da Companhia Portuguesa de Chá e um café Nespresso de assinatura, o Bica. O dourado acompanha a estética do hotel pelos elevadores, forrados com folhas de ouro, e no lounge, onde os hóspedes podem desfrutar de um afternoon tea ou de cocktails ao fim da noite. O espaço ainda tem peças Vista Alegre, de pratos assinados por artistas brasileiros aos vasos da coleção com Bordallo Pinheiro. Do outro lado do corredor fica o Black Moon, um novo restaurante intimista focado em fine dining e experiências sensoriais de luxo — e um bar de champagne com 18 rótulos.
Uma caminhada de três minutos leva-nos ao antigo quarteirão do BPI, que agora dá lugar ao Andaz Lisbon, outro cinco estrelas mas sob a chancela Hyatt, que tem o projeto de design de interiores da autoria do Studio Urquiola, liderado pela arquiteta e designer espanhola Patricia Urquiola. Ao entrar pela porta principal vê-se logo os vasos da artista portuguesa Sofia Cruz a decorar uma escadaria de pedra original e que foi mantida exclusivamente para abrigar obras de arte. O conceito, presente em cidades como Londres, Nova Iorque, Miami ou Tóquio, é virado para o lifestyle e o design, e tem a liberdade de explorar o estilo local. A decoração aposta em cores quentes e no aroma, exclusivo do hotel, que quer capturar a “alma de Lisboa”. “Não existe em mais nenhum outro lugar do mundo para além deste lindo prédio. É um aroma que foi desenvolvido para interpretar a sensualidade desta região e capturar os perfumes da cidade. Para contar, particularmente, a história da Praça do Comércio, transportar-nos para uma altura em que aqui era um porto de comércio. Quando todos os navios paravam nesta zona e os prédios tinham janelas para as ruas, onde funcionavam lojas de especiarias e têxteis. Sedas, curcuma, canela, café e palmeiras do Brasil, tudo isso chegava aqui, assim como os seus aromas”, explica-nos Cajetan Araújo, diretor do hotel, numa conversa no lobby que é também um lounge inspirado nos quiosques lisboetas — e aberto ao público.
Sobre as mesas, cerâmicas de Carlos Manuel Gonçalves, enquanto nas paredes estão quadros de Carolina Vaz e Ana Malta ou tapeçarias de Mariana Rola Pereira. Pelos corredores, obras de Rita Ferreira, Francisca Coutinho e da Levo Design, enquanto nos 170 quartos estão peças de fotografia e tapeçaria de Raquel Belli, Rosarinho Andrade e da Defio Rugs. No último andar, um mural no teto do coletivo Vês Três, composto por Ana Malta, Madalena Pequito e Maria de Brito Matias. O destaque para o design nacional está até nas fardas da equipa, desenhadas por Carla Pontes. “Ela entendeu a história e a cultura e foi capaz de criar uma narrativa com uma interpretação moderna, que mais ninguém conseguiu”, descreve Cajetan Araújo.
Arte contemporânea local que encontra a tradição arquitetónica já presente no edifício, e obras que cá estão há pelo menos 300 anos. Foi o caso de um mural de Nossa Senhora da Misericórdia, do século XVIII, que foi descoberto durante as obras de remodelação, e agora está exposto bem à entrada do hotel. No último andar, o hotel abre portas para o Luzzi, restaurante com cozinha moderna lusitana e com design inspirado nas viagens dos descobrimentos, e um rooftop com ar muito mais exótico e tropical, como se fosse um beach club em plena cidade. A cor presente no chão, mobiliário e teto serve de moldura para as vistas: uma janela deixa o Castelo de São Jorge em evidência enquanto do outro lado, no bar, os terraços dão para o arco da Augusta.


Já perto do rio, seguindo pela margem até Santos, inaugurou no verão passado o segundo hotel do grupo Inspira — mas foi em fevereiro que passou a funcionar sem nenhum constrangimento, quando as obras do metro na região chegaram ao fim e não mais impediam o acesso de carros à porta. Aliás, como explica-nos Paulo Moura, CEO da Inspira Hotels, a abertura do Inspira Santos só não foi mais cedo por causa destes trabalhos. O grupo comprou os dois edifícios que compõem o hotel em 2018 — eram pequenas casas, escritórios, havia uma escola de teatro, uma discoteca e bares. As obras de remodelação terminaram em 2024, mas só em agosto de 2025 é que sentiram que havia condições de abrir ao público. O prédio, original do século XVI (um deles um palacete que serviu de residência para os duques de Aveiro), estava “muito degradado”, e por ser muito “heterogéneo” representou um grande desafio a nível de construção e arquitetura. O projeto é da Saraiva+Associados, studio de arquitetura de Miguel Saraiva, e segue um design mais industrial, com a presença de materiais como o aço, a pele e a madeira, com algumas características originais, como as escadas principais e os arcos presentes inclusive dentro dos quartos.
“Tudo o que pudemos ir buscar a Portugal, compramos em Portugal”, destaca Paulo Moura, ao mostrar algumas tipologias dos 66 quartos disponíveis. Os tapetes, por exemplo, são da Sugo Cork Rugs, marca de tapetes artesanais com cortiça com design de Susana Godinho. Onde antes eram lojas antigas com janela para a rua, está agora o loft, o único quarto estilo apartamento com acesso independente. Outro quarto, individual, tem o privilégio exclusivo de aceder a um pequeno pátio interior, de onde se vê toda a extensão do mural do artista visual Osir, feito com espelhos reciclados especialmente para este espaço. A arte, ligada à componente da sustentabilidade, está também na área comum, como no lobby e nas escadas, onde exposições itinerantes dão o tom dinâmico e interativo, numa experiência criada não só para os hóspedes. ” Adaptamos cada um dos hotéis ao bairro onde está inserido. O projeto transporta essa essência do bairro de Santos: do design, da cultura, dos eventos, dos artistas”, destaca Paulo Moura, que diz que o próximo passo é oferecer o espaço do hotel para eventos com Dj e música. O rés-do-chão divide-se entre o restaurante Faminto, especializado em parrillas, e o bar Sedento, ao fundo do lobby, onde há espaço tanto para trabalhar como para uns copos ao fim do dia. A sala de pequeno-almoço também fecha-se para reuniões ou outros encontros, e a área exterior tem um pátio com almofadas e tomadas — para os que quiserem aproveitar o verão e trabalhar à esplanada. Mais uma vez, um convite não só para hospedes: “É para as pessoas do bairro. Estamos abertos para todos“, destaca Paulo Moura.




Ainda por estrear, a poucos metros do Parque Gulbenkian, está o The Cloud One, a primeira unidade da marca em solo português. Com abertura prevista ainda para o primeiro semestre, o hotel apresenta-se como um novo “hotspot” para os lisboetas, seja no lounge aberto com pátio ajardinado ou no bar do rooftop, que promete vistas panorâmicas. De acordo com Daniel Müller, Co-CEO do Motel One Group, o hotel foi “concebido como um espaço aberto e social que se liga naturalmente à cidade. As nossas áreas públicas, do lounge ao restaurante e bar, foram desenhadas para serem acessíveis e convidativas. Ao criar uma atmosfera descontraída, colaborar com parceiros locais e refletir o estilo de vida lisboeta, o hotel torna-se um lugar onde residentes e viajantes se encontram de forma orgânica, e não um espaço reservado apenas aos hóspedes.”
O design de interiores é uma ode à identidade local, com uma curadoria que integra artesanato e marcas portuguesas: das tapeçarias da Ferreira de Sá ao mobiliário da Mambo Unlimited Ideas e da Munna, passando pelos azulejos feitos à mão da Azulima e da Theia Tiles. Segundo Müller, “apoiar a produção regional é fundamental para criar autenticidade. Permite-nos integrar o hotel no seu contexto local e evitar uma abordagem genérica. Para o hóspede, isso traduz-se numa experiência mais significativa, desde os materiais e detalhes de design até à gastronomia e às parcerias locais. Acrescenta profundidade e carácter, tornando a estadia mais ligada ao destino e menos intercambiável.”




















