(c) 2023 am|dev

(A) :: Da censura literária à cultura do “respeitinho”: Coimbra expõe obras proibidas e relatórios originais

Da censura literária à cultura do “respeitinho”: Coimbra expõe obras proibidas e relatórios originais

A Casa da Escrita acolhe “Este livro de reles estofo – A censura à literatura durante o Estado Novo”, exposição assente em material do Arquivo Ephemera, de José Pacheco Pereira.

Carina Fonseca
text

Uma seleção de obras literárias proibidas ao longo de 48 anos de ditadura, acompanhadas pelos respetivos relatórios dos censores, compõem a exposição “Este livro de reles estofo – A censura à literatura durante o Estado Novo”, patente, até ao próximo dia 30, na Casa da Escrita, em Coimbra. O nome remete para uma expressão usada por quem ostentava o lápis azul. Já os documentos provêm do Arquivo Ephemera, de José Pacheco Pereira, professor e investigador que detém uma das maiores bibliotecas privadas do país.

A mostra foi inaugurada, no passado dia 1, com a participação de José Pacheco Pereira, ele mesmo alvo da Censura: teve dois livros proibidos e vários artigos cortados. Num desses artigos, bastou afirmar que trocava toda a obra de António Nobre (poeta associado ao nacionalismo) por uma ode de Ricardo Reis (o heterónimo pagão de Fernando Pessoa). Quanto aos livros, um era sobre a Greve Geral de 1918, no período do pós-Guerra, entre a gripe pneumónica e os efeitos da Revolução Russa; e o segundo sobre o impacto dessa mesa Revolução, entre 1917 e 1922-23.

O testemunho de Pacheco Pereira faz parte, inclusive, do documentário “Lápis azul”, do realizador Rafael Antunes, que ouviu jornalistas, investigadores e demais visados pelo mecanismo de controlo do Estado. Esse e outro filme homónimo, ficcional, surgem integrados nesta proposta que a Câmara de Coimbra apresenta, tendo como parceira a Associação Cultural Ephemera, responsável pela curadoria.

A exposição, de acesso livre, mostra como o Estado Novo censurava os pensamentos, não só no campo político, mas também cultural. À vista estão edições originais de escritores portugueses que foram apreendidas, interditadas ou autorizadas a circular mediante certas condições – por exemplo, não serem “consentidas em agremiações operárias”, como se lê num relatório alusivo a “Diário”, de Miguel Torga. Tão interessantes como os despachos de proibição são alguns despachos de autorização.

Foram 48 anos de regime autoritário, até ao seu derrube, a 25 de abril de 1974. E, durante esse período, “foram sujeitos a censura cerca de dez mil livros, tendo sido mais de 3500 proibidos e talvez outros tantos obrigados a cortes e emendas ou autorizados apenas em condições especiais, como seja não podendo figurar em bibliotecas operárias, impedidos de ter qualquer publicidade ou circulação comercial”, revela a folha de sala.

É uma exposição para ler, que não vive da imagem e exige tempo para absorver toda a informação. Nas paredes, em destaque, estão frases retiradas dos relatórios dos censores, como a seguinte, relativa a “Vagão J”, de Vergílio Ferreira: “Parece que o autor esteve em qualquer vila, ou aldeia, e escolheu para protagonista do seu romance a família mais asquerosa do povoado”. Outros exemplos? “Imoral. Contos de misérias sociais e em que o aspeto sexual se eleva indecorosamente.” “Livro de leitura pouco interessante e escrito em termos grosseiros e com palavras indecentes.” “Corte total por ser propaganda bolchevista (sic).”

Em defesa da autoridade e contra as mulheres

Uma das coisas que a Censura mais defendia, segundo José Pacheco Pereira, “era o respeitinho”. Clarificando: não se podia criticar nenhuma figura de autoridade ou que estivesse no topo da pirâmide social, fosse o árbitro de um jogo de futebol, pelas suas decisões, ou o príncipe de Gales, pela sua maneira de vestir. Já as mulheres eram vítimas diretas, porque os censores “achavam que deviam era estar em casa a cuidar dos filhos”, afirma.

O lápis azul incidia sobre títulos de diversos géneros, dos romances à poesia, das biografias às peças de teatro. Muitas vezes, bastava a autoria ser feminina. Isso é visível nos títulos selecionados, de escritoras como Natália Correia, Nita Clímaco, Maria Archer ou Fiama H. Pais Brandão – com destaque para as “Novas Cartas Portuguesas”, publicadas, em 1972, pelas Três Marias: Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. O texto em que Maria Velho da Costa critica os censores, cortando as consoantes, é um exemplo curioso, em destaque na exposição.

Também representados encontram-se, sem surpresa, os autores neorrealistas, que espelhavam nas suas páginas as misérias da vida dos trabalhadores, a exploração laboral e a pobreza, cenários que a ditadura salazarista não admitia existirem em Portugal. Suicídios e acidente graves eram, aliás, condenados à invisibilidade, como recorda Pacheco Pereira. Basta pensar que ainda hoje se desconhece ao certo o número de mortes provocadas pelas trágicas cheias de 1967, na zona de Lisboa. Da lista negra dos censores constavam desde “Gaibéus”, de Alves Redol, até “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes. Sobre este último, concluía o censor, 25 anos após a sua publicação: “(…) Este livro deveria ter sido proibido quando apareceu, mas agora deve ser ignorado, pois que a proibição agora só servia à sua propaganda no nosso seio, que o poderia ignorar”.

Entre os títulos proibidos estiveram ainda obras como “A Noite e a Madrugada”, de Fernando Namora; “Quando os Lobos Uivam”, de Aquilino Ribeiro; “O Dia Cinzento”, de Mário Dionísio; ou “O Caminho Fica Longe”, de Vergílio Ferreira. “O canto e as armas”, de Manuel Alegre, mereceu o seguinte comentário: “Nelas [poesias], o Autor revela o seu ódio à política de Portugal (especialmente em África) – o que se considera extremamente inconveniente”. E Mário Cesariny viu o censor referir-se a “Um auto para Jerusalém” nos seguintes termos: “Esta obrinha de um dos próceres do surrealismo português parece-me absolutamente inaceitável, isto é: francamente censurável (digna da mais severa censura) não só pela irreverência, em matéria religiosa ou de fé, como pela chocante intromissão satírico-política no tema filosófico-moral que o A. se propôs (sic)”.

Não faltam, por outro lado, referências a edições de autores estrangeiros, do brasileiro Jorge Amado às francesas Simone de Beauvoir e Françoise Sagan.

José Afonso escrito ao contrário, no jornal

Se aos jornais era imposta a censura prévia, no caso dos livros, o exame era feito a posteriori, quando estes já estavam publicados e a circular, esclarece José Pacheco Pereira. Se a decisão fosse proibir, a PIDE realizava buscas em livrarias, editoras, tipografias e mesmo em casas particulares, chegando a retirar volumes das estantes só por os autores terem nomes russos.

A título de curiosidade, Pacheco Pereira lembra que no Diário de Lisboa houve várias referências a um cantor de nome exótico que só mais tarde alguém percebeu ser “Zeca Afonso” escrito ao contrário. Mas se “a Censura, no plano político, era relativamente fácil de enganar, não o era no respeitinho”. Atente-se, por exemplo, na “fúria monumental” que nutria relativamente a Vilhena, cujo traço representava, muitas vezes, padres e mulheres desnudas.

A exposição de Coimbra cinge-se à censura na literatura, ao contrário da que se encontra no Instituto Politécnico de Setúbal, de âmbito generalista. “Proibido por inconveniente – Materiais da censura do Arquivo Ephemera” é como se chama esta outra mostra, visitável, igualmente, até ao fim de abril. Como sublinha o investigador, “a Censura também existia para peças de teatro, filmes, programas de televisão, programas de rádio e para a publicidade”, havendo até outras instituições estatais a partilhar desse poder. E o quase meio século que durou, em Portugal, constitui “o mais longo período de censura na Europa, com exceção da União Soviética”.

O núcleo da Censura do Arquivo Ephemera “foi comprado porque corria o risco de ir para os Estados Unidos, e ainda foi comprado em escudos”, lembra Pacheco Pereira. O que se exibe agora em Coimbra “é uma pequeníssima amostra” de uma coleção que abrange cerca de um milhar de documentos, entre despachos, boletins, provas de jornais, censuras das ex-colónias e mais. “A censura do cinema”, especifica, “foi salva de ir para o lixo”.

“A importância de mostrar estes documentos agora é enorme, porque a Censura é a instituição do Estado Novo mais eficaz, e de que ainda hoje há marcas”, sustenta. A seu ver, isso é notório de cada vez que, na Assembleia da República, alguém acusa um governante de tomar decisões por motivos ideológicos e políticos, algo “normal, em democracia”. “Esta ideia da demonização da política vem de 48 anos de censura; tudo o que fosse ideologia era censurado”, conclui.

Em jeito de complemento à exposição conimbricense, está ainda agendada para o Dia Mundial do Livro, 23 de abril, uma sessão de leitura de textos censurados, com base nas obras expostas, a cargo da Companhia Bonifrates. Trata-se de uma atividade igualmente gratuita, com início às 18.30 horas.

A exposição “Este livro de reles estofo – A censura à literatura durante o Estado Novo” pode ser visitada até ao fim do mês, de segunda a sexta-feira, das 9.30 às 12.30 horas e das 14 às 18 horas, na Casa da Escrita, na Alta de Coimbra (Rua João Jacinto, 8).