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(A) :: Os prisioneiros da esquerda

Os prisioneiros da esquerda

Esquerda e direita estão irreconhecíveis em relação há 30 anos, ou 100, ou a 1789. Mas a esquerda não percebeu: usa jóias antigas que perderam valor ou decora-se com pechisbeque que nada vale.

Vieira Barbosa
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O pensamento “left” atingiu o ponto alto da sua história com José Estaline – também reconhecido nos meios carinhosos da esquerda como o Zé dos bigodes. O glabro Mao não lhe ficou atrás em número de mortos – 60 milhões é uma cifra bastante boa. Também Pol Pot, que não deve ter ido além de uns modestos 3 ou 4 milhões, teve alguns bons apontamentos coreográficos na apresentação da morte e dos mortos. Porém, nenhum destes dois nem qualquer outro alcançou a perfeição burocrática e o respeito pelos princípios do marxismo-leninismo cultivados pelo regime soviético.

Ao longo dos anos foram achanatados múltiplos desvios da ortodoxia comunista, alguns ainda sobrevivem em pequenos lugares ou em lado nenhum. Trotsky não foi compreendido nem perdoado e o desvio trotskista não conseguiu mais do que o governo de umas repúblicas na alta de Coimbra. O legado trotskista é hoje o de uma profunda inquietação que compete com o acne e devora rapazes magricelas, ano após ano. Fidel, o charmoso, ainda conseguiu  na sua ilha umas dezenas de milhares de vítimas mas não foi mais longe do que uma versão idílica da miséria. E Guevara, que lhe deu o seu rosto juvenilmente transgressor, resta admirado pelo instantâneo fortuito de Alberto Korda mas não suficientemente reconhecido pelos laboriosos assassínios de La Cabaña. O Eurocomunismo de primitiva inspiração gramsciana teve um infância meteórica com Berlinguer e Carrillo – até ser atropelado pela Perestroika. O que restou de Gramsci atafulha agora as universidades e origina sucessivos sarampelhos que, como o sarampo e a morte do capitalismo, sete vezes vêm ao pêlo. Tudo resumido, o comunismo nunca recuperou do desaparecimento de Estaline. Foi com ele que teve os seus anos melhores e foi então que floriram os Gulags e o Holodomor. A Praça Lubyanka e a Sibéria foram a cidade e as serras da União Soviética – não por uma premonição de Eça, mas tal como Urbano Tavares Rodrigues as terá apreciado – continuam a ser a versão mais harmoniosa e performativa do comunismo. Depois aconteceu Gorbatchev, deu-se o desmembramento, aconteceram as carraspanas de Yeltsin e apareceu Putin.

Rita Rato confessou desconhecer algumas dessas coisas. Mesmo que as desconhecesse todas é de crer que não seria desqualificada para dirigir o Museu do Aljube. Era em 2019 uma jovem licenciada em Ciência Política, militante comunista, tivera uma carreira de deputada pelo PCP desde os 26 anos e encontrava-se sem emprego. Fernando Medina dirigia então a Câmara de Lisboa e delegou na sua empresa municipal EGEAC (“responsável pela preservação, promoção e gestão de alguns dos mais emblemáticos espaços culturais da cidade e pela realização das Festas de Lisboa e de outros grandes eventos culturais”) o preenchimento da vaga de emprego que se abrira na sequência da reforma do seu director, o investigador e historiador Luís Farinha. É muito escassa a informação sobre o processo de escolha. Sabe-se que a Dra. Rita Rato “se destacou pelo projeto apresentado e pelo desempenho nas entrevistas realizadas com o júri”. Não se encontra publicitado o seu projecto mas fica claro que o júri privilegiou na senhora a isenção de quem não tinha experiência em museologia, valorizou o olhar limpo de quem não tinha qualquer formação histórica e pesou os detalhes pessoais que mais o impressionaram. É dito que a licenciada Rita Rato fica melhor nas fotografias do que nas entrevistas – uma consequência inevitável de nas fotografias poder mostrar o que tem e de, nas entrevistas, se notar melhor o que lhe faz falta. Mas, feito o elogio possível, diga-se que a triste vida do Aljube deveria ser mais bem cuidada.

A função da Cadeia do Aljube remonta à ocupação muçulmana, tal como o seu nome. A sua história longuíssima é a de uma prisão, foi prisão durante mais de 1000 anos e também no século XX, enquanto foi útil à primeira república e ao estado novo. Ocasionalmente serviu de residência eclesiástica e para o que mais foi preciso, foi companheira de outros aljubes históricos no seu tempo histórico. O Aljube não foi criado por Salazar para atormentar os admiradores do paraíso estaliniano. Foi Salazar quem acabou com a prisão do Aljube, cerca de 10 antes do 25 de Abril, data em que terminou o seu regime autoritário, e também do 25 de Novembro, quando, com efeitos notoriamente flatulentos, foi igualmente abortada a ditadura comunista.

A Dra. Rita Rato terminou o seu mandato em 2026 e não foi reconduzida na direcção do Museu do Aljube. Por causa disso, uma decisão que pôs em causa a indubitável eternidade de poder a que todos os comunistas aspiram, a senhora é hoje beneficiária de uma longa lista de personalidades que contestam a sua não recondução no cargo. É uma notável colecção de nomes sobretudo provenientes do meio “artístico” e dos seus afluentes – o lago dos cisnes, que assim se crêem, onde a esquerda encontra os seus patos de arribação. Na carta que abriram referem sobre o novo director do Museu do Aljube que “a ‘nomeação técnica’ não augura nada de bom para um espaço que não pode ser neutro, sob pena de ver desmantelada a sua missão” – um pormenor de linguagem que ilustra suficientemente as ideias que se afogam no conteúdo aquoso daquelas cabeças, sempre contra a competência e a favor da ideologia. Mas está certo. A contestação da não recondução de Rita Rato decorre em termos que se articulam perfeitamente com os termos em que a sua escolha foi justificada pela EGEAC em 2020 “… A candidata selecionada [Rita Rato Fonseca] defendeu uma visão integrada para o Museu do Aljube, incluindo uma proposta de programação relacionada com temáticas de liberdades contemporâneas, como as questões de género ou a inclusão social, e destacou-se numa segunda ronda de entrevistas nessa abordagem múltipla…”. Estava então claro ao que a senhora vinha. Hoje, que a sua missão terminou – incluindo a que se propunha sobre as óbvias questões de género ou da inclusão social – as acusações de saneamento político estão a ser esgrimidas e gritadas. Podem ser respeitáveis enquanto opiniões mas não serão sensatas, são imprudentes e não respeitam a tradição. Com elas sai ofendido um passado inteiro de saneamentos praticados pela esquerda – com perdas irreparáveis de inteligência e um dos seus inúmeros contributos para o atraso do país – e, numa perspectiva individual que lhe é muito querida, são um balde de água fria sobre a memória de José Saramago que também foi director, apenas adjunto e do Diário de Notícias, mas também director.

Não é relevante neste momento da querela qualquer juízo sobre a nova directora do Museu do Aljube. Interessa que evoluiu para um ridículo extremo a contestação que é feita à perda do emprego de Rita Rato. As suas razões podem não ser muito boas mas são notáveis pela valentia. Não hesitam em comparar-se aos argumentos com os quais, em 2020, um irrelevante povo de investigadores, museologistas e historiadores, contestou a escolha da senhora.

Chega a ser admirável a insistência da esquerda nacional em reclamar uma permanente razão, uma idoneidade que teria sido engendrada no 7.º dia da criação e subsiste preservada até hoje por regas cuidadosas – dos cravos com água e da terra com sangue. É uma razão disseminada, embora mais ruidosa sobre coisas complexas, assuntos que mergulham em gritaria e para os quais se socorre de um guião de soundbites que serve para tudo – “fascismo nunca mais” serve sempre, como um vestido preto. É natural que esse trabalho, decorrendo na área preferencial da mistificação, seja entregue em larga escala aos “artistas” – actores, cançonetistas e performers de todos os tipos – simpáticos tipos a quem convenceram que são os visionários da verdade e do futuro. Não deve ser posta em causa essa sua capacidade, e são conhecidas as inúmeras substâncias que põem visões num grupo animado de jovens pela madrugada dentro, mas não é sensato dar-lhes mais crédito do que o que já vai nos subsídios a bem da “cultura” e nas contratações para regalo do povo.

A Dra. Rita Rato tem ocupado nas últimas semanas uma compreensível atenção da esquerda. Não precisava. Tem qualidades próprias e não havia necessidade de ser usada como mártir da reacção. O seu futuro não está comprometido mas, da forma como está a ser exposta, ainda alguém vai pensar que o próximo emprego se deverá ao facto de ser comunista e não ao seu mérito. Felizmente para ela, e para o país, aconteceu o XXV Congresso do Partido Socialista.

Não há espaço que chegue para louvar a brejeirice e a boa disposição com que o Partido Socialista enfrenta estes tempos. Apesar de serem tempos chochos, mumificados e acondicionados por Montenegro num esquife de sono. Nem por isso José Luís Carneiro se mostra capaz de um arroubo político com sentido. Nas eleições internas de 14 de Março JLC foi reeleito com uma percentagem sul-americana de 97% para líder do seu partido. Em vez de convidar Pedro Nuno Santos para um copo de reconciliação – o que era bastante seguro porque PNS não aceitaria – enveredou por uns becos aritméticos com que pretendeu ser reconhecido como o líder parlamentar mais sufragado e, por isso, com uma legitimidade acrescida. Muitos terão notado a ridicularia, tal como já tinham achado preocupante a inexistência de outros socialistas a disputarem a sua liderança. JL Carneiro foi um dos que não reparou nisso. JLC parece cansado. Ou é mesmo assim, mas ainda não pode dizer-se.

À data já tinha escrito algumas cartas ao primeiro ministro, que devem ter-lhe dado algum trabalho e para as quais não teve resposta. Foi criticado nessa estratégia de Mariana Alcoforado por camaradas, todos os que não lhe tinham disputado o lugar de líder e a oportunidade de fazerem melhor.

Alimenta há meses um impasse no preenchimento do Tribunal Constitucional recorrendo à habitual presunção e a muita água benta. Não prescinde dos seus cinco lugares, uma posição que decalca a determinação histérica de que daqui não saio daqui ninguém me tira. E é mesmo, assim como é uma declaração formal de que o TC é uma agremiação sua, destinada a proteger o socialismo e não a virtude da constituição, e que assim deve ficar. Não sendo suficientemente insensata essa sua posição de princípio, o PS juntou-lhe um argumento encontrado na terra de Alice: a rejeição de Ventura nas presidenciais contra Seguro afastaria o Chega de qualquer direito de representação. E se a presunção é explicável pela natureza do PS – que já foi congruente antes das bancarrotas e do costismo e que agora é tristemente pespineta – o argumento sobre a invisibilização do Chega aproxima o PS de um futuro melhor no stand-up e menos bom na política. O mais recente ortostatismo do Professor Jorge Miranda, para dizer que apenas PS e PSD podem integrar o Tribunal Constitucional, não merece comentário. Nem deve ser dada qualquer explicação para a sua opinião – qualquer uma seria pouco lisongeira e o senhor não precisa disso, basta-lhe ser reconhecido como um dos homem que pendurou nos pés de Portugal a imobilizadora bola de ferro da constituição. É inexplicável politicamente e ridículo de todos os outros pontos de vista que a constituição continue a ser olhada como se fosse um cavalo de Degas, inexcedível e perfeito, quando toda a sua história é a de jerico de feira que já sofreu 7 pinturas (tem desde 2010, há 16 anos, prevista e por fazer a 8ª revisão!) e ainda assim só parece saudável aos que a querem vender.

O PS teve que lidar com o problema de Eva Cruzeiro, uma africana que não se interessa por problemas da Europa e só no PS, fora do espaço da negritude, reconhece uma razão para cantar e viver. Ainda hoje não é claro o que pensa o PS parlamentar do anti-racismo de Eva Cruzeiro, se o acha justo ou se pretende uma segunda oportunidade de votar, um dia qualquer desde que seja logo de manhã e sem sono.

José Luís Carneiro foi à Venezuela acompanhado do apropriado Eurico Brilhante Dias. Foi outra vez criticado. De novo se atreveu pelo campo das razões e argumentou. Com isso juntou ao erro de ter ido visitar a ditadura socialista e bolivariana da Venezuela a asneira de não ter ficado calado.

Ao entrar no Congresso de Viseu JLC era esperado por Carlos César, um homem que não se vai embora porque tem dúvidas sobre o que acontecerá ao PS depois de se reformar. Enfrentou entre muitas uma moção sectorial que propunha ao PS dar atenção à troca de bebés nas maternidades, foi tocado pelos discursos de João Torres (“enfrentamos uma transformação profunda da direita portuguesa que está a ter implicações graves no regime democrático”) e de Ana Catarina Mendes (o partido “tem de se orgulhar de tudo o que fez ao longo dos anos… O PS é o melhor partido do nosso país e temos de nos orgulhar de todos os seus protagonistas”). Ele próprio, JLC, não quis ficar atrás de ninguém: reintegrou Eduardo Cabrita na Comissão Nacional e escolheu Inês de Medeiros para encabeçar a sua lista.

José Luís Carneiro saiu em triunfo do congresso do PS, premiado com uma votação esmagadora. No seu discurso final reivindicou a herança de António Costa, no que deixou ledas e descansadas Mariana Vieira da Silva e Ana Catarina Mendes, e declarou o PS como um partido reformista sob condição (“se há um partido reformista em Portugal…”, advertiu). No rol de dúvidas que traz sempre consigo havia uma, essencial, e que resume a disposição possível do PS: “Estamos todos dispostos para dar a nossa vida a estes valores, a este legado de princípios que nos deram os nossos fundadores?”, perguntou. A resposta é não, qualquer observador não socialista reconhecerá que muito poucos daqueles homens e mulheres se disporão a esse martírio. Não é para isso que há tantos anos labutam dentro ou dependurados no aparelho do PS. A deriva melodramática de JLC só se explica pelo entusiasmo ou, atentando em exemplos recentes, pelo adiantado da hora. Mas ele perceberá a tempo. Não encontrou grande entusiasmo durante o seu discurso final. Não é um homem que tenha sido acompanhado pelo entusiasmo nos seus anos de actividade política. JLC herdou um partido em crise e está tolerado pelos seus pares como piloto de travessia sob os olhares atentos dos pilotos de barra. Enquanto isso, o PS tem-se mostrado sem rumo e com dificuldade em aportar. Nos tempos mais recentes juntou às suas qualidades históricas uma outra: é um partido com piada.

Bloco de Esquerda e Livre também são de esquerda, autenticamente de esquerda – nem há comparação. Têm boa imprensa e intervêm pela ameaça permanente de trazerem para a rua dez activistas em actividade. Não é pelo ruído que incomodam, é pela censura velada que exercem sobre todas as atitudes de fortuito bom senso que a esquerda democrática possa ter. Dão um ar da sua graça, literalmente, sempre que estão a ser observados.

A oposição de esquerda está a anular-se pela ineficiência e pelo ridículo. Desse modo permite ao governo ser o que é com tranquilidade. O governo, sendo uma perdiz que não se mexe, não oferece qualquer trajectória de voo para um disparo da oposição. O governo revolve moitas e terra pisada, à oposição basta essa negaça para se pôr a opôr. Os dois, governo e oposição, encontram-se abraçados como dois lutadores adormecidos sobre o palco – não lutam, quase não mexem, mas são suficientemente gordos para se aguentarem sem caírem, encostados um ao outro.

Portugal vive há 50 anos na indefinição de objectivos e de processos. As categorias ideológicas que por tradição os corporizam – a direita e a esquerda – têm sofrido uma intensa degradação dos princípios, com o que tem sido prejudicado o seu reconhecimento e afrouxada a tensão que mantém viva a discussão política e exigente a governabilidade. A direita está desaparecida em Portugal há 50 anos, a esquerda começa a desaparecer. Isso está a acontecer por todo o mundo. A dicotomia esquerda/direita na sua versão post-revolução francesa – o movimento dos despojados contra a ordem dos possidentes – perdeu significado, esse e todos os que se lhes seguiram. Hoje, é tudo maior e mais complexo.

Portugal é pequeno e é antigo o mundo. O peso de aquisições culturais continuamente divergentes sedimentou blocos identitários de diversos tipos e amplitude – muito limitados, como os pauliteiros de Miranda e os rituais Aghori, ou de dimensão planetária, como o islamismo ou a liberdade como valor. O mundo actual vive uma grande indefinição e em períodos assim, quando todos hesitam e se escondem, acontecem duas perigosas inevitabilidades. Emergem homens providenciais por todo o lado – arrebatadores mas frequentemente doidos e perigosos, como Trump – e dá-se a arregimentação de multidões sob grandes princípios – as religiões e as nacionalidades, tradicionalmente e, no tempo mais recente, princípios civilizacionais que abrangem tudo isso e uma história comum. Portugal vai ser confrontado com problemas maiores do que a progressão na carreira dos carteiristas de Lisboa. E também a esquerda vai ter que fazer escolhas.

A evolução social decorre de uma tensão, pacífica ou violenta, entre polos agregadores – tendencialmente apenas dois, disputando o mesmo espaço físico ou mental. O multilateralismo é transitório – cada um dos seus focos tende a escorregar e a ser assimilado por um dos dois grandes polos em tensão. Estes, ultimamente conhecidos como direita e esquerda, estão irreconhecíveis quando comparados com o que eram há 30 anos, há 100 ou em 1789. Acontece. A história é assim. A esquerda, entregue ao desnorte, não está a perceber isso. Usa jóias antigas que perderam valor ou decora-se com pechisbeque que nunca valerá coisa nenhuma. Está a perder a entrada para o próximo capítulo da História, e tanto faz que seja por demência como por sandice.