Com maior ou menor dose de razão, com mais ou menos alarido público, este fim de semana podia funcionar como exemplo paradigmático de como a Liga tem sido disputada dentro e fora de campo – e nem mesmo este período de Páscoa habitualmente destinado a contextos familiares colocou acalmia nos “jogos” que se jogam de várias formas e conteúdos. O que mudou? Ao contrário do que tem sido habitual e pouco recorrente na presente temporada, o líder FC Porto podia perder pontos para os dois rivais diretos, Sporting e Benfica. No caso dos leões, as águias escreveram que “já nem há vergonha” numa compilação de imagens de lances do encontro em Alvalade com o Santa Clara. Mais tarde, depois da conferência de antevisão de José Mourinho, o jogo do FC Porto frente ao Famalicão também não passou ao lado do clube com o lacónico comentário de “zona azul” a propósito de uma jogada entre Zaidu e Gustavo Sá onde terá ficado por marcar um penálti.
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“Benfica beneficiado? Desde o início da época já viu o Benfica beneficiar de alguma coisa? Eu ainda não vi. Às vezes oiço falar nas lufadas de ar fresco e estava-me a preparar para tentar, num aspeto, poder ser uma lufada de ar fresco, que era a minha equipa ganhar com erros arbitrais e eu sair e dizer ‘Ganhámos três pontos’. Mas erros a nosso favor? Ainda não aconteceu. E espero que não aconteça. Se eventualmente acontecer, deixo o desafio. Aí vou sair e dizer que o Benfica foi beneficiado. Mas até agora não consigo entender em quê. Essa situação entre os dois presidentes de Sporting e FC Porto… Já disse há um par de semanas que situações entre presidentes sou um mero espectador. Entre treinadores sim, entre presidentes não”, comentara o técnico dos encarnados, que aí apontara mais para o Sporting-Santa Clara da véspera.
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“Casos de arbitragem? Hoje por acaso cheguei aqui e, como sempre, só há um que chega antes de mim, que é o Gonçalo [Guimarães, assessor de imprensa]. Vi a primeira página dos dois jornais mais tradicionais e históricos do desporto português, pensei ‘não se passa nada’. Páginas lindíssimas com um miúdo que jogou, foi aniversariante e fez golo mas fazem com que quem não tenha visto o jogo pense que não aconteceu nada. E é nesta base do ‘Parece que não acontece nada’ que já vimos desde o início da época. E esse é que é o problema. Esquecemo-nos do jogo do Nacional, em Famalicão em Alvalade, de muita coisa que vem do princípio da época. Não sei muito bem o que lhe deva dizer, mas focando-me só, e tão só, para não ir mais longe, em três jogos com o Santa Clara, está tudo aí…”, acrescentou José Mourinho a esse propósito.
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Nada nem ninguém passa ao lado nesta Liga do escrutínio até mais aos outros do que aos próprios mas, em paralelo com isso, o Benfica tinha agora uma oportunidade de ouro de reduzir a desvantagem para o topo da classificação depois do deslize dos azuis e brancos apesar de algumas baixas inesperadas como a de Tomás Araújo, que se lesionou no último treino e ficou de fora ao contrário de Leandro Barreiro, “tocado” na partida do Luxemburgo e com isso sem disponibilidade para fazer 90 minutos. “Vai hoje [sábado] ao campo a primeira vez e condicionado, depois decidiremos se está em condições. O Casa Pia tem recuperado muito bem desde que o novo mister chegou. Tem uma identidade de jogo muito própria, capaz de criar dificuldades às equipas mais fortes. Mesmo antes da sua chegada, bem sei que de uma maneira estranha, como tantas coisas estranhas têm acontecido neste campeonato desde o início, não só ultimamente, o Casa Pia conseguiu tirar-nos pontos na Luz. São capazes de entregar o domínio do jogo ao adversário e depois punir. Por isso, esperamos um jogo difícil. Mas, mais uma vez, vamos tentar ganhar”, recordara.
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Havia ainda uma outra curiosidade: desde a derrota da última temporada em Rio Maior frente ao Casa Pia, numa noite que acabaria por ficar marcada pela conversa do então técnico Bruno Lage com alguns adeptos na garagem do Estádio da Luz que se tornaria pública algumas horas depois através de áudios colocados a circular nas redes sociais, não mais o Benfica voltou a consentir qualquer desaire na Liga. “É um fator de orgulho e significa, ou tem significado, o caráter de uma equipa que tenta respeitar a história, o sofrimento inerente aos maus resultados que qualquer adepto sente. Mesmo em situações limite temos lutado para conseguir bons resultados e às vezes o empate acaba por ser um mal menor”, comentara, sem deixar de lamentar os oito empates consentidos no Campeonato mas destacando a capacidade que a equipa tem mostrado para, até mesmo em encontros de contexto mais complicado, nunca desistir dos pontos.
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Mais uma vez foi isso que aconteceu, mais uma vez não foi suficiente. O Benfica criou mais do que chances suficientes para marcar e consolidar a vantagem, quebrou a muralha defensiva do Casa Pia mas falhou depois o mais fácil estando na frente do marcado com um lance caricato, insólito e quase único entre ressaltos, cortes defeituosos e uma oportunidade caída do céu que permitiu a Rafael Brito aparecer sozinho na área. Mourinho lançou depois tudo o que tinha no banco mas, ao contrário do que aconteceu em Arouca, a equipa ficou pior em termos ofensivos e não foi a tempo de evitar o nono empate do Campeonato que pode ter sido a sentença definitiva na luta pelo título. Mais uma vez, como nos últimos encontros, Richard Ríos merecia mais mas há sempre algo a mudar o caudal natural de uma equipa que “desliga” e não aparece a tempo.
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Ficha de jogo
Casa Pia-Benfica, 1-1
28.ª jornada da Primeira Liga
Estádio Municipal de Rio Maior
Árbitro: Hélder Carvalho (AF Santarém)
Casa Pia: Sequeira; André Geraldes, Sousa, João Goulart; Larrazabal, Mohamed, Rafael Brito (João Marques, 87′), Pedro Rosas (Abdu Conté, 87′); Livolant (Nsona, 90+2′), Tiago Morais (Osundina, 46′) e Cassiano (Clau Mendes, 70′)
Suplentes não utilizados: Iván Mandic, Kelian Saka, Kévin Machado e Kaique Lima
Treinador: Álvaro Pacheco
Benfica: Trubin; Bah (Ivanovic, 81′), António Silva, Otamendi, Dahl; Richard Ríos, Enzo Barrenechea (Anísio Cabral, 81′); Lukebakio (Prestianni, 57′), Rafa (Sudakov, 70′), Schjelderup e Pavlidis
Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Sidny Lopes Cabral, Manu Silva, Daniel Banjaqui e Gonçalo Oliveira
Treinador: José Mourinho
Golos: Richard Ríos (68′) e Rafael Brito (78′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Sequeira (85′)
O encontro começou com o Casa Pia a vencer o Benfica nos metros ganhos, tendo sempre a boina na cabeça de Álvaro Pacheco de um lado para o outro a puxar pela equipa de punho cerrado bem erguido em todas as ações, mas cedo os encarnados assumiram o comando das operações. Sem grande vertigem, às vezes com uma mudança de velocidade a menos, com muita paciência e circulação, à procura de situações em que a bola chegasse nas alas a Lukebakio ou Schjelderup para jogarem 1×1 tendo o apoio dos laterais por dentro ou por fora. As ideias estavam lá, a prática esbarrava numa organização defensiva sempre certinha dos gansos, que conseguia “esconder” Rafa e o seu jogo entre linhas mas que mostrou uma primeira brecha com o “afundar” em demasia da linha do meio-campo, que viu muito encostada à defesa um remate de meia distância de Richard Ríos desviado por Sequeira para canto (9′). Aliás, nos 20 minutos iniciais só o colombiano rematou à baliza, com a segunda tentativa a surgir num livre direto em corredor central por cima (18′).
[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Casa Pia-Benfica em vídeo]
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Em vários períodos, os encarnados assumiam períodos de posse acima de 80%. Ainda assim, esse domínio claro continuava sem traduzir-se em oportunidades: as compensações nos corredores laterais tiravam espaço aos criativos dos encarnados, o corredor central estava demasiado congestionado para o jogo de Pavlidis e Rafa, as acelerações de Ríos continuavam a falhar no passe final, as tentativas de passes longos em busca da profundidade não tinham efeitos práticos. A primeira meia hora do jogo foi cumprida sem grandes motivos de interesse e apenas mais uma oportunidade… por demérito próprio: na sequência de um lance em que teve uma entrada de risco num corte para canto, o central David Sousa desviou o cruzamento fechado de Lukebakio na direita para a própria baliza e acertou na base do poste da baliza de Sequeira (30′). Ter muita bola era tudo menos sinal de perigo e o Benfica procurava outros caminhos para fugir ao congestionamento.
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A meia distância continuava a ser a principal arma dos encarnados perante a incapacidade em criar outro tipo de desequilíbrios no último terço e Lukebakio também tirou senha para tentar a sua sorte, neste caso até mais desenquadrada do que o remate por cima de Richard Ríos (36′), antes de fazer o primeiro remate do jogo na área de pé direito, desenquadrado, sem tempo de preparação e naturalmente longe do alvo à guarda de Sequeira. Estava dado o mote para o melhor momento em termos ofensivos do Benfica até ao intervalo, com Sequeira a ter mais uma grande defesa por instinto a um remate de Pavlidis na pequena área depois de um livre (44′) e Schjelderup a fazer uma tentativa em arco nos descontos que passou por cima da trave. Da parte do Casa Pia, só mesmo aos 45+4′ veio o primeiro sinal de real perigo junto à área dos encarnados, com Trubin a sair bem aos pés de Pedro Rosas na sequência de uma falta marcada de forma rápida antes de Enzo Barrenechea aliviar para canto a segunda bola colocada por Tiago Morais na área.
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Sem mexer ao intervalo, ao contrário do que aconteceu com o Casa Pia (que apostou em Osundina logo no arranque da segunda parte), o Benfica “mexeu”. Como? “Ganhou” Rafa. O avançado teve o primeiro grande lance após o reatamento, com Pavlidis a fazer a simulação depois de um passe de Bah e a isolar o avançado que rematou rasteiro e cruzado a rasar o poste da baliza de Sequeira (48′). Se os últimos minutos da metade inicial tinham sido os melhores, a reentrada dos encarnados conseguiu ser ainda mais forte, com tentativas de combinação mais curtas pelo corredor central que faziam mexer a estrutura defensiva contrária e criavam os espaços que tantas vezes foram faltando no último terço, com Richard Ríos a cair de forma mais acentuada no lado direito para Lukebakio explorar terrenos mais centrais. Pouco depois, Mourinho mexeu pela primeira vez mas sem tocar nessa nova conexão, lançando Prestianni no lugar do belga à procura desse jogo rápido mais interior com os laterais mais projetados e Ríos a funcionar como ponto de equilíbrio. Rafa, com um grande passe para Otamendi, voltou a criar uma boa oportunidades mas sem desvio final (62′).
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Com o Benfica cada vez mais instalado no meio-campo do Casa Pia (dentro daquilo que ainda era possível) e com uma reação à perda e um controlo de transições que não dava margem aos gansos para saírem rápido na frente, começava a chegar a altura das substituições que pudessem dar outro crédito às equipas através dos respetivos bancos mas o guião do jogo não tardaria a mudar de vez: Prestianni teve uma grande jogada na direita, cruzou ao segundo poste para a assistência de cabeça de Schjelderup e Ríos, que fizera o movimento de rutura, a desviar na pequena área para o 1-0 (68′). Sudakov também entrou para o lugar de Rafa, o segundo golo parecia uma questão de tempo mas foi aí que o Casa Pia arriscou com sucesso a sua sorte: na sequência de um lance que nasceu de um pontapé de baliza de Sequeira e entre vários ressaltos com um corte deficiente de Bah pelo meio e o mau posicionamento de Enzo Barrenechea, Rafael Brito apareceu sozinho na área para o 1-1 (78′). Mourinho não demorou a lançar tudo e todos, com Ivanovic e Anísio Cabral a juntarem-se a Pavlidis, Schjelderup, Prestianni e Sudakov, mas a equipa apenas perdeu esclarecimento…
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