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(A) :: Saudade 

Saudade 

A saudade boa é a única que nos deixa inteiros, porque ela não nos pede para negar o real, pede-nos para cuidar dele.

Nuno Morna
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Ao redor desta fogueira (saudade)
Enquanto as armas descansam (saudade)
Deito meus olhos aos céus (saudade)
Por se não verem nos teus
Heróis do Mar

A saudade, esse artigo de exportação que nós embrulhamos em papel de seda e vendemos como se fosse um milagre linguístico, tem a mesma graça duvidosa do colesterol, existe a que circula sem fazer estragos e existe a que entope tudo. E a tragédiazinha doméstica é que o português, inventor profissional de mitos convenientes, parece ter uma predilecção quase teimosa pela versão que o deixa mais pesado, mais lento, mais satisfeito com a própria impotência.

A saudade boa é a que se governa sozinha, não precisa de palco, não exige testemunhas, entra numa casa como o cheiro da roupa guardada, discreta, insistente, humana. É a falta de quem partiu ou de quem está longe, falta com nome, rosto, voz, uma cadeira vazia que ainda tem peso, e nessa falta há um mecanismo de piedade que nos salva, a memória escolhe por nós, sublinha o que prestou, apaga o que feriu, torna a pessoa melhor do que foi, não por falsidade pura, mas por necessidade, porque ninguém suporta a verdade inteira quando a verdade inteira já não pode ser corrigida.

É assim que a saudade boa acaba por ser uma forma de disciplina afectiva, obriga-nos a reconhecer que houve amor mesmo quando houve atrito, que houve lealdade mesmo quando houve cansaço, que houve um tempo partilhado que mereceu existir, e essa saudade, sem fazer barulho, empurra-nos para gestos concretos, telefonar, escrever, visitar, voltar ao sítio, dizer o que ficou por dizer quando ainda era possível dizer, e ao fazê-lo afina-nos, não nos encolhe, dá-nos espessura sem nos colar ao chão.

A saudade má, pelo contrário, tem aquele brilho enganador das coisas que não pedem prova. Não pede factos, pede fé, e como toda a fé mal posta torna-se tirania, ela instala-se como um vício elegante, uma melancolia com verniz literário, e leva-nos a sentir falta do que nunca possuímos, de uma infância sem falhas, de um amor sem rudeza, de um país sem mediocridade, de um futuro com todas as portas abertas e nenhuma conta por pagar, e isto é devastador porque não se pode recuperar o que nunca aconteceu, não se pode regressar ao que nunca existiu, não se pode chorar um tempo imaginário sem acabar a odiar o tempo real, e a partir daqui a vida transforma-se num inventário de ausências, cada dia serve apenas para confirmar que a promessa não veio, que o cenário não corresponde, que o mundo tem defeitos e nós, coitados, temos sensibilidade a mais. E, nessa narrativa, a saudade má faz o seu trabalho sujo: oferece uma desculpa com boa dicção para a paralisia.

Se o modelo é um passado de fantasia então o presente falha sempre, se o desejo é um futuro irreal então tudo o que se faz agora parece mesquinho, insuficiente, tardio, e assim nasce o fatalismo confortável, o encolher de ombros com currículo, a desistência transformada em opinião, o que se lixe como filosofia de bolso, e aqui entra o lado colectivo da coisa, porque um povo a viver desta saudade é um povo que começa a confundir nostalgia com solução, que troca projectos por recordações, que prefere o relato ao trabalho, que se torna vulnerável a quem aparece com voz firme e frases curtas a vender regressos a uma idade de ouro que nunca existiu para quase ninguém, mas que soa sempre mais simples, mais limpa, mais decente. Quando a conversa pública vira procissão de queixas e campeonato de indignações, ninguém devia fingir surpresa, porque a saudade má não constrói pontes, não reforma nada, não melhora um serviço, não paga uma escola, não resolve um processo, só produz uma espécie de gozo triste em afirmar que isto não tem remédio.

O mais irónico, quase ofensivo, é que a saudade tinha condições de ser outra coisa: podia ser continuidade em vez de algema, podia ser respeito sem repetição, podia ser aprendizagem em vez de idolatria, mas nós temos uma inclinação antiga para transformar tudo em destino, e o destino é apenas a maneira mais confortável de não assumir responsabilidade. O antídoto não é amputar a saudade, porque isso seria amputar a parte de nós que sabe amar e perder, o antídoto é separar o que ilumina do que envenena, recusar a saudade que infantiliza, escolher a que obriga a estar presente, porque a saudade boa pede acção, pede cuidado, pede uma espécie de coragem quotidiana, e a saudade má pede rendição, pede que a pessoa se deite no chão e chame a isso lucidez. Há ainda um detalhe prático que raramente se diz por parecer pouco poético, a saudade má cresce no ócio da cabeça e na falta de projecto, quando não se constrói nada começam-se a construir fantasmas, quando não há direcção passa-se a venerar miragens, por isso um futuro minimamente decente exige disciplina emocional, essa coisa pouco romântica que consiste em decidir o que se alimenta, transformar a falta em gesto, a memória em cuidado, a perda em sentido.

No fim a diferença entre as duas saudades é quase moral, uma honra e liga, a outra corrói e reduz, e um país reduzido, a suspirar por vidas que nunca viveu, entrega o presente ao primeiro discurso fácil que lhe prometa uma mentira confortável, a saudade não é o problema, o problema é fazer dela um álibi para não viver e é aqui que a saudade má se torna não apenas um sentimento mas um método, uma forma de governo íntimo, uma administração da alma feita a recibos falsos, porque ela não se limita a doer, ela organiza a dor, dá-lhe horário, dá-lhe liturgia, dá-lhe aquela solenidade pacóvia que o leitor já viu mil vezes na televisão, no comentário de café, no discurso de ocasião, como se a tristeza fosse uma profissão e a desistência um diploma. E há o espectáculo, sempre o espectáculo, o país a representar-se a si próprio como um velho cansado sentado num banco de jardim a olhar para os pombos, enquanto lá dentro, no sítio onde a vida devia mexer, se instala a preguiça moral, essa coisa que não é apenas falta de energia, é falta de coragem para admitir que o presente, com todas as suas manchas, é o único lugar onde se pode agir, e por isso a saudade má é tão útil a tanta gente, serve ao político que não quer reformar nada porque reforma dá trabalho e dá chatices, serve ao comentador que precisa de frases redondas para encher minutos, serve ao cidadão que prefere o conforto de estar certo na sua amargura ao risco de falhar numa tentativa, e serve sobretudo àquele impulso nacional de transformar a impotência em identidade, como se dizer que isto está perdido fosse uma prova de inteligência, quando muitas vezes é apenas uma forma de evitar a responsabilidade de tentar. A saudade má, nesse sentido, é uma economia paralela, troca-se futuro por lamento, troca-se projecto por queixume, troca-se esforço por indignação, e a moeda corrente chama-se sempre o mesmo, o “que se lixe”, dito com aquela pose de quem já viu tudo e por isso já não deve nada a ninguém, e isto é uma mentira, porque deve, deve ao filho que ainda não nasceu, deve ao amigo que ainda existe, deve à rua onde mora, deve ao velho que não tem culpa de envelhecer num país que se entretém a chorar o que nunca teve, deve ao próprio corpo que um dia vai pedir contas por ter sido tratado como um saco onde se despeja desalento, e depois há a outra face, mais íntima e mais cruel, a saudade má fabrica comparações impossíveis, a mulher que se torna sombra de uma mulher ideal que nunca existiu, o homem que se mede por um homem imaginário que nunca foi, a vida que se avalia por uma vida de romance barato. A pessoa acorda já derrotada, antes do café, antes da luz entrar pela janela, já com o peso do que não viveu a comprimir-lhe o peito, e vai andando, e vai funcionando, e vai dizendo que se aguenta, mas por dentro está a prestar culto a um fantasma, e um fantasma é uma coisa terrível porque não se discute com ele, não se negocia com ele, não se melhora, só se obedece, e quando a saudade má se instala como culto, tudo o resto parece profanação, trabalhar parece inútil, amar parece pouco, decidir parece imprudência, rir parece falta de seriedade. De repente o país enche-se de gente que confunde tristeza com profundidade, como se a alegria fosse uma vulgaridade e a esperança uma ingenuidade de criança, e aqui a minha consciência, que é basicamente um fiscal de costumes com paciência curta, diria que isto é uma comédia triste, porque nós gostamos de parecer sofisticados na nossa desgraça, gostamos de vestir luto mesmo quando não houve morte, gostamos de dizer que isto é assim porque sempre foi assim.

E volto à consciência, que não perdoa a ninguém o autoengano, encosto o dedo à ferida e lembro que esta saudade má não é poesia, é doença, é uma espécie de anemia do espírito. O sangue não chega às mãos, não chega às pernas, não chega ao acto, e fica tudo na cabeça, a cabeça a ruminar, a cabeça a inventar, a cabeça a justificar, e entretanto o tempo passa, e o tempo, ao contrário das nossas frases bonitas, não tem piedade, o tempo não espera que a gente resolva a nossa estética da derrota, o tempo leva, e quando se dá por isso já não é só saudade, é remorso, e o remorso é a saudade de um gesto que não fizemos quando ainda estava ao nosso alcance.

Por isso eu insisto, mesmo sabendo que insistir cansa e que o leitor tem a sua vida e não pediu sermões, a saudade boa é a única que nos deixa inteiros, porque ela não nos pede para negar o real, pede-nos para cuidar dele, para lhe dar forma, para lhe dar continuidade, e isso pode ser pequeno, pode ser quase ridículo na sua simplicidade, pode ser um telefonema, uma visita, uma carta, uma fotografia organizada, uma história contada a alguém mais novo, um hábito mantido, um compromisso cumprido, e o futuro, esse grande animal que a saudade má finge que ama mas na verdade detesta, constrói-se com estas coisas mínimas, com actos que não aparecem no telejornal, com escolhas que não dão likes, com uma espécie de teimosia civil que é a única alternativa ao fatalismo, porque a saudade má gosta muito de palavras e odeia actos, e nós precisamos do contrário, precisamos de menos frase feita e mais músculo, músculo emocional, músculo cívico, músculo de presença. Sim, isto soa a moral, eu sei, mas é apenas higiene, é lavar as mãos antes de cozinhar, é não beber veneno só porque vem num copo bonito, é aprender, finalmente, que há saudades que nos honram e saudades que nos usam, e que a diferença entre viver e representar a vida começa muitas vezes nesta escolha silenciosa, diária, quase invisível: escolher não transformar a falta numa prisão, escolher não fazer da nostalgia um sofá onde se adormece, escolher, com a teimosia de quem ainda não desistiu, que a saudade seja memória com pés, e não um peso a puxar-nos para baixo.