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Fact Check. Imagem mostra Irão a preparar cinco mil sepulturas para soldados norte-americanos?

Imagem publicada nas redes sociais mostra obras no cemitério Behesht-e Zahra, em Teerão. Foto está a ser associada à construção de cinco mil sepulturas para soldados dos EUA. Será mesmo assim?

José Carlos Duarte
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A frase

Cinco mil túmulos foram preparados para soldados americanos nos arredores de Teerão. CEO do Beheshte Zahraa, o maior cemitério de Teerão, diz que era necessária uma localização separada, já que os soldados americanos não podem ser enterrados num cemitério muçulmano

— Utilizador de Facebook, 19 de fevereiro de 2026

Seria um aviso em tom de ameaça do regime iraniano. Foi preparado um local para receber os corpos de soldados norte-americanos que seriam supostamente mortos em consequência da ofensiva entre os Estados Unidos, Israel e o Irão.

“Cinco mil sepulturas foram preparados para soldados norte-americanos nos arredores de Teerão”, lê-se em várias publicações nas redes sociais, que incluem uma imagem de obras no que parece ser verdadeiramente um cemitério.

Segundo as publicações, Mohammad Javad Tajik, responsável pelo cemitério Behesht-e Zahra — o maior no Irão —, teria afirmado que seria um “local separado” das restantes campas. Tal era necessário, já que, segundo os posts, os soldados norte-americanos “não podem ser enterrados num cemitério muçulmano”.

Adicionalmente, as publicações apresentam um alegado porta-voz de que se depreende ser do cemitério de Teerão. Alegadamente, esse porta-voz teria dito que o regime iraniano se estava a “preparar para todos os cenários”.

Os posts nas redes sociais foram publicados em meados de fevereiro de 2026, antes de os Estados Unidos e Israel terem começado a operação conjunta contra o Irão. Nessa lógica, o porta-voz teria dito que “a acontecer, este cemitério proporcionará um local de descanso digno para o inimigo”.

As afirmações do responsável pelo cemitério Behesht-e Zahran transmitidas nas redes sociais são regra geral verdadeiras, ainda que os posts não tenham dado o contexto apropriado. Em declarações à agência de notícias iraniana Mehr a 31 de janeiro de 2026, Mohammad Javad Tajik confirmou que “se os soldados americanos forem mortos em solo iraniano, não será possível enterrá-los num cemitério muçulmano”. “Um local nos arredores com um cemitério não muçulmano ao redor de Teerão foi planeado para esse fim.”

Os corpos não vão ser transferidos para o cemitério Behesht-e Zahra e não houve obras nesse espaço, como sugerem as publicações e as imagem publicada que as acompanha. Aquele cemitério é muçulmano e até acolhe campas de militares que morreram durante a guerra entre o Irão e o Iraque nos anos 80. Além disso, Mohammad Javad Tajik indicou que já foram preparados efetivamente o “armazenamento temporário” dos corpos com “capacidade para cinco mil sepulturas, até que o seu destino seja totalmente definido”.

A imagem que está a ser publicada nas redes sociais que seria no cemitério Behesht-e Zahra mostra efetivamente obras naquela infraestrutura de Teerão. No entanto, a fotografia já é antiga: é de 2021. O cemitério foi obras de ampliação há cinco anos devido aos efeitos da mortalidade da pandemia de Covid-19 no Irão.

A fotografia em questão foi tirada por um fotojornalista da Associated Press e foi publicada, por exemplo, numa fotogaleria da Al Jazeera em abril de 2021. Nessa altura, o cemitério sofreu obras para construir mais campas e locais onde seriam sepultadas muitas das vítimas da Covid-19.

Aliás, citado pela imprensa iraniana, Mohammad Javad Tajik assegurou que não seriam reveladas fotografias dos locais onde poderiam ser enterrados soldados norte-americanos. A decisão, garantiu o responsável, não está “relacionada com questões de sigilo ou de segurança”, mas enquadra-se “antes na gestão do espaço mediático e na prevenção de reações emocionais”.

Apesar de Mohammad Javad Tajik assegurar que haveria este local onde seriam enterrados os soldados norte-americanos, não há prova que tenha sido verdadeiramente construído. O regime iraniano poderia querer estar a intimidar os Estados Unidos a não avançar com uma operação militar, no que poderia ser definido como uma manobra de propaganda.

Conclusão

O responsável pelo cemitério Behesht-e Zahra assegurou, em declarações na imprensa estatal controlada pelo regime iraniano, que haveria efetivamente um local que estaria a ser preparado para albergar cinco mil corpos de soldados norte-americanos, caso os Estados Unidos atacassem o Irão. Contudo, não existe nenhuma prova que esse local exista mesmo — e certamente não será no cemitério Behesht-e Zahra, uma vez que é muçulmano. Além disso, a fotografia que está a ser publicada nas redes sociais e está a ser associada a esta notícia não tem ligação direta com a guerra no Irão. A imagem mostra antes a ampliação do cemitério decorrente dos efeitos da pandemia de Covid-19.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.