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(A) :: Alan Greenspan (1926-2026). O "maestro" da política monetária que, no final, admitiu que a "auto-regulação" dos bancos não basta

Alan Greenspan (1926-2026). O "maestro" da política monetária que, no final, admitiu que a "auto-regulação" dos bancos não basta

Alan Greenspan foi presidente da Reserva Federal durante 19 anos, a partir de 1987. Reagiu bem à crise que enfrentou mal tomou posse, mas deixou uma ainda maior para estourar pouco depois de sair.

Edgar Caetano
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Todos os dias, pelas seis da manhã, Alan Greenspan abria a torneira. E assim que acabava de encher a banheira com água quente, o mais quente possível, submergia o corpo durante cerca de uma hora. O então presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed) sofria, desde jovem, de dor crónica nas costas e aquele banho matinal, recomendado por um médico, ajudava-o a enfrentar o dia. Mas aquele tempo não era desperdiçado, pelo contrário: mandou construir um pequeno escaparate ao lado da banheira onde organizava os relatórios técnicos que aproveitava para ler. “Escrevi vários discursos naquela banheira“, admitiu o icónico presidente da Fed, que morreu nesta segunda-feira, aos 100 anos.

O que sempre atormentou Greenspan foi uma acumulação de hérnias discais, além de sofrer de estenose lombar da coluna vertebral. O homem que foi presidente da Fed entre 1987 e 2006 nunca quis ser submetido a cirurgias, que à época envolviam um maior risco de não correrem bem e o doente ficar incapacitado para o resto da vida.

Não sendo uma dor insuportável, o banqueiro habituou-se a geri-la – tal como geriu a inflação que, da mesma forma, também nunca deixou descontrolar-se ao longo dos quase 19 anos em que esteve ao leme do banco central.

Cerca de dois meses após assumir a liderança da Reserva Federal (sucedendo a outra lenda dos bancos centrais, Paul Volcker), Greenspan sofreu imediatamente um “teste de fogo” com um dos maiores colapsos bolsistas da história dos EUA, em 19 de outubro de 1987 – um colapso que abalou os mercados acionistas de todo o mundo, até o português.

O índice Dow Jones, um dos principais da bolsa de Nova Iorque, afundou 22,6% num só dia. E Greenspan, incentivado pelos assessores a publicar um longo comunicado em que se detalhava as origens daquela turbulência e se propunha medidas de resposta, decidiu fazer exatamente o contrário: emitir uma declaração com apenas uma frase.

A Reserva Federal, em conformidade com as suas responsabilidades como banco central da nação, afirmou hoje a sua prontidão para servir como fonte de liquidez para apoiar o sistema económico e financeiro“.

Uma frase apenas, com 27 palavras (no original em inglês), que transmitiu aos mercados uma sensação de segurança que foi decisiva para conter a crise financeira. Foi como dizer aos bancos: “Podem emprestar dinheiro à vontade e manter a economia a funcionar porque, se ficarem sem liquidez, eu farei com que a Fed imprima o dinheiro que for preciso” – mas na linguagem cifrada que habitualmente é usada pelos bancos centrais.

Greenspan percebeu que, quando há um incêndio, as pessoas não querem saber como é que o fogo começou, só querem saber se os bombeiros têm água suficiente e se as mangueiras estão a funcionar.

Foi o primeiro triunfo do homem que viria a ser chamado “Maestro“, pela forma metódica como orientava as pessoas que trabalhavam com ele – pessoas que, ao fim de algum tempo, deixaram de estranhar receber do “chefe”, logo pela manhã, instruções escritas em pequenas notas em papel, com pequenas pingas de água e a tinta esborratada.

Alan Greenspan nasceu em Nova Iorque a 6 de março de 1926, num bairro de classe média-alta em Manhattan. Não nasceu, porém, numa família onde o dinheiro fosse especialmente abundante – e teve uma infância traumatizada pelo divórcio dos pais, quando Alan ainda era uma criança pequena.

O pai era corretor bolsista e, apesar de não ter passado muito tempo com o filho enquanto crescia, conseguiu incutir-lhe o gosto pelos números. Fanático por beisebol, o pequeno Alan passava, porém, pouco tempo a jogar com os amigos da sua idade. Era mais divertido memorizar as estatísticas de todos os jogadores da liga (MLB) e tentar encontrar padrões numéricos que permitiam antecipar os graus de sucesso que cada atleta e cada equipa poderiam ter.

Ao mesmo tempo, embora estivesse já a germinar o gosto pela Economia, a sua grande paixão era a música. Tocava vários instrumentos, uma polivalência que, depois do liceu, lhe garantiu a entrada na prestigiada Julliard School, com uma bolsa para estudar clarinete e saxofone.

Nos intervalos dos estudos viajava pelos EUA com a banda de jazz de Henry Jerome. Mas também aí mostrou que tinha um perfil fora do vulgar: enquanto os outros músicos gastavam o dinheiro em festas e álcool, Greenspan passava as horas mortas a ler livros de Economia e a ajudar vários colegas da banca com as suas declarações anuais de impostos.

No entanto, esse período permitiu-lhe perceber que, embora fosse um músico talentoso, muito dificilmente algum dia conseguiria afirmar-se como um “génio” do jazz de improviso. Foi aí que, com a frieza que sempre foi seu apanágio, decidiu abandonar a Julliard School e matricular-se na Universidade de Nova Iorque (NYU), para um curso de comércio e finanças.

Licenciou-se em 1948 e obteve o mestrado em 1950, em pleno pós-guerra. Algures pelo caminho, entrou no círculo próximo da filósofa Ayn Rand, cuja ideologia de objetivismo e capitalismo laissez-faire moldaria a sua visão do mundo para sempre. Décadas mais tarde, viria a reconhecer que não estava totalmente correto nessa crença absoluta na auto-regulação dos bancos e dos mercados – mas isso foi muito mais tarde.

Antes de chegar ao cargo que é, provavelmente, o mais importante do sistema financeiro mundial, Greenspan construiu uma carreira sólida no setor privado com a sua consultora Townsend-Greenspan & Co. Mas foi desafiado por um antigo colega da banda de música, o advogado Leonard Garment, a juntar-se a ele na equipa de assessores económicos do então candidato presidencial Richard Nixon.

Greenspan e Nixon eram o oposto um do outro. Nixon era um político clássico, focado em sondagens e estratégia, ao passo que Greenspan nunca fingiu ser outra coisa que não um técnico – falava em percentagens e tendências de longo prazo. No entanto, Nixon terá ficado impressionado com a capacidade de Greenspan de explicar problemas complexos de forma simples e com um pragmatismo invulgar.

Nixon venceria as eleições de 1968 e, embora lhe tenha oferecido vários cargos na administração, Greenspan preferiu manter a independência e a atividade na consultora privada. Manteve-se, porém, como conselheiro externo informal, ajudando a definir políticas públicas que ajudassem a reduzir a inflação elevada que tinha sido herdada da administração (Lyndon) Johnson, o democrata que assumiu a Presidência após o assassinato de John F. Kennedy.

Só muito perto do fim da presidência Nixon, em julho de 1974, é que Greenspan aceitou, finalmente, um cargo formal na Casa Branca: como presidente do Conselho de Consultores Económicos. Foi nomeado ainda durante a administração Nixon, porém só tomou posse várias semanas depois. E, nessas semanas, rebentou o escândalo Watergate pelo que foi o sucessor de Nixon, Gerald Ford, que lhe deu posse (e o manteve no cargo até 1977).

Na memória de Greenspan ficou, no entanto, algo que teve a oportunidade de testemunhar pessoalmente: a pressão que Nixon fez sobre o então presidente da Fed, Arthur Burns, para que a política monetária fosse definida de modo a ajudar o Presidente a obter a reeleição em 1972 – uma pressão para obter taxas de juro mais baixas (à qual Burns cedeu) e que, mais tarde, seria tornada pública nas chamadas Nixon Tapes.

Com a vitória do democrata Jimmy Carter nas eleições de 1976, que travou a reeleição de Ford, Greenspan saiu da Casa Branca no início de 1977, voltando a dedicar-se à atividade no setor privado. Mas assim que os republicanos voltaram ao poder, com Ronald Reagan, o telefone voltou a tocar.

Primeiro, em 1981, Reagan chamou-o para presidir à Comissão Nacional para a Reforma da Segurança Social – um conselho que levou a uma importante reestruturação do sistema de pensões que mostrou a capacidade de Greenspan para forjar acordos entre os dois grandes partidos políticos. Depois, alguns anos mais tarde, chegou o grande prémio: em junho de 1987, o Presidente nomeou-o para suceder ao lendário Paul Volcker como rosto da Reserva Federal.

Greenspan foi confirmado pelo Senado e assumiu o cargo a 11 de agosto de 1987. Mas poucos esperavam que ele permanecesse no posto por 18 anos e meio, trabalhando com quatro Presidentes diferentes (Reagan, Bush pai, Clinton e Bush filho). O seu “reinado” ficou conhecido como o período da “Grande Moderação”, caracterizado por uma baixa inflação e crescimento económico estável.

A partir daquela primeira intervenção, no colapso bolsista de 1987, gerou-se a perceção nos mercados de que a Fed interviria sempre para baixar os juros e lançar políticas de estímulo de emergência em tempos de crise – o chamado “Greenspan put“. Isso encorajou o investimento, mas também, segundo os críticos de Greenspan, fomentou a tomada de riscos excessivos, contribuindo para a grande crise financeira que aconteceu em 2008, poucos anos depois da sua saída.

Greenspan foi um forte defensor da desregulamentação financeira, acreditando que os bancos eram capazes de se auto-regular. Sob a sua influência, assistiu-se à revogação da Lei Glass-Steagall, que separava a banca comercial da banca de investimento.

Por outro lado, na era Greenspan, a Fed interveio em crises fora dos EUA como a Crise Mexicana (1994) e a Crise Asiática (1997). Em 1998, a Fed interveio no fundo Long-Term Capital Management, um hedge fund que usava táticas de investimento altamente alavancadas e arriscadas que, quando teve dificuldades por causa do default russo, teve de ser resgatado – o banco central não injetou dinheiro no fundo (não podia fazê-lo) mas Greenspan orquestrou o salvamento da instituição.

Foi noticiado, nessa altura de crise, que a Fed convocou os presidentes dos 16 maiores bancos de Wall Street (incluindo Goldman Sachs, J.P. Morgan e Merrill Lynch) para uma reunião de emergência na sede da Fed de Nova Iorque. E a mensagem que Greenspan lhes transmitiu, com a frieza do costume, terá sido muito simples e direta. “Se este fundo cair, vocês caem todos a seguir. Resolvam isto.“. E eles resolveram.

https://observador.pt/especiais/nobel-da-economia-resgatar-bancos-e-mau-mas-deixa-los-cair-e-pior/

Em 2004, foi nomeado para um quinto mandato na Fed, algo inédito, mas já se sabia, aquando dessa nomeação, que ele não iria cumprir todo o mandato. Já estava nos planos que iria aposentar-se em 2006, ano em que viria a ser substituído pelo economista Ben Bernanke (nos últimos anos galardoado com o Prémio Nobel da Economia).

Pelas quase duas décadas em que ocupou o cargo mais importante no mundo financeiro, o legado de Greenspan reconhece a sua importância no controlo da inflação (mesmo em períodos complexos, de crise energética) e na criação de condições para um crescimento económico sólido, sobretudo na década de 90. Porém, as taxas de juro que manteve em níveis muito baixos nos anos após o 11 de setembro e a sua resistência em regular o mercado de derivados e as hipotecas subprime é frequentemente apontada como uma das principais causas da bolha imobiliária que viria a estoirar em 2007/2008.

No final desse ano de 2008, já depois do colapso do Lehman Brothers, Greenspan, na altura com 82 anos, foi ouvido no Congresso dos EUA. E, aí, admitiu que havia uma “falha” no seu modelo ideológico sobre a auto-regulação dos mercados.

“Sim, encontrei uma falha” nesse modelo, reconheceu, continuando: “E foi precisamente por isso que fiquei tão chocado, porque estive a trabalhar durante 40 anos ou mais com provas consideráveis de que [o meu modelo] estava a funcionar extremamente bem”. “Foi um erro presumir” que as empresas financeiras e os bancos se regulariam, sempre, a si próprios, admitiu.