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Sobreviver, evadir-se, resistir e escapar. Os quatro pilares do treino da Força Aérea dos EUA atrás das linhas do inimigo

Militares das forças especiais são treinados para resistir em terreno inimigo. O treino SERE tem 4 pilares e envolve situações adversas, como aquela em que estava o piloto resgatado com vida do Irão.

Tiago Caeiro
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O SERE é uma das componentes mais importantes da formação dada pelas forças armadas norte-americanas às forças especiais. Trata-se de um treino intenso que ensina os militares a sobreviver em situações adversas, detrás das linhas inimigas. O objetivo é resistir e regressar com vida. “A missão do sobrevivente é regressar com honra”, segundo a Força Aérea norte-americana.

A estratégia de sobrevivência é ensinada nos vários ramos das forças especiais, mas sobretudo na Força Aérea, e tem quatro componentes-chave: (S)urvive, (E)vade, (R)esist e (E)scape [Sobreviver, evadir-se, resistir e escapar, em português].

“Para os aviadores, o treino SERE é considerado fundamental pelas Forças Armadas porque os pilotos podem acabar sozinhos, atrás das linhas inimigas ou em território hostil com pouco aviso prévio”, diz ao Wall Street Journal David A. Deptula, tenente-general aposentado da Força Aérea e atual reitor do Instituto Mitchell de Estudos Aeroespaciais, um think tank, em Arlington, Virgínia. “O treino visa prepará-los para sobreviver, evitar a captura sempre que possível, resistir à exploração caso sejam capturados e aumentar as hipóteses de recuperação”, frisou o responsável.

https://observador.pt/2026/04/05/escondido-nas-montanhas-e-ferido-piloto-dos-eua-foi-resgatado-com-a-ajuda-da-cia-numa-das-missoes-mais-complexas-das-operacoes-especiais/

Terá sido com base nestas diretrizes que um dos pilotos norte-americanos que estava a bordo do caça F-15 — abatido na sexta-feira pelo Irão — conseguiu sobreviver, durante um dia e meio, ferido, numa cordilheira montanhosa em território inimigo.

No primeiro dos pilares do SERE — sobreviver —, os militares são instruídos a priorizar as necessidades primárias para minimizar o stress e o gasto calórico. Devem avaliar a situação, tratar eventuais ferimentos e perceber como e onde se esconder. De acordo com um vídeo de recrutamento da Força Aérea norte-americana, citado pelo WSJ, o treino SERE expõe os militares a múltiplos ambientes hostis, desde desertos até ao Ártico. Nas imagens, pode ver-se os militares a montarem tendas na floresta, a acenderem fogueiras, a nadarem para o exterior de uma estrutura submersa ou a escalar uma encosta.

https://www.youtube.com/watch?v=nL6zL8lKcOI

O segundo pilar — evadir-se —, destina-se exclusivamente a evitar que o militar seja capturado pelas forças inimigas. Cada plano de missão inclui contingências para um resgate que são acordadas antes do voo entre o piloto e a base, de modo que este consiga, ao mesmo tempo, evitar o inimigo e levar a cabo uma estratégia de fuga. Os militares são instruídos a colocarem-se sempre na melhor posição possível para serem resgatados — algo que terá acontecido no resgate do piloto dos EUA que caiu nas montanhas do sul do Irão, e que, de acordo com as informações avançadas pela imprensa norte-americana, subiu uma encosta com mais de dois mil metros para ser mais facilmente localizável.

Segundo o WSJ, o caso mais conhecido de uma utilização bem sucedida do SERE foi protagonizado pelo capitão Scott F. O’Grady em 1995, quando o caça F-16C em que seguia foi abatido durante a Guerra da Bósnia. O militar passou seis dias em território hostil, comendo formigas e deslocando-se apenas durante a noite, antes de ser resgatado.

O terceiro pilar — resistir —, é particularmente importante caso o militar seja avistado pelo inimigo. São ensinadas técnicas de artes marciais e os militares são treinados em regras de combate, de acordo com a Convenção de Genebra.

O conceito que norteia o SERE surgiu em resposta às dificuldades enfrentadas pelas forças norte-americanas feitos prisioneiras durante a Guerra da Coreia. Uma ordem executiva do então Presidente Dwight D. Eisenhower estabeleceu um conjunto de normas que os militares capturados pelo inimigo deveriam seguir, nomeadamente divulgar apenas nome, patente, data de nascimento e número de serviço “Se for capturado, continuarei a resistir por todos os meios disponíveis”, dizia uma das normas.

O quarto pilar — escapar —, define que os militares devem usar todos os dispositivos à sua disposição (sinalizadores ou rádios) para escapar ao inimigo e regressar em segurança.