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(A) :: 40 minutos "às cegas", recorde de distância e um cenário nunca visto por humanos. O que a tripulação da Artemis II vai ver na volta à Lua

40 minutos "às cegas", recorde de distância e um cenário nunca visto por humanos. O que a tripulação da Artemis II vai ver na volta à Lua

Os quatro astronautas — que bateram o recorde de distância face à Terra —, vão encontrar um eclipse solar e crateras que os olhos humanos nunca viram em décadas de exploração espacial.

Martim Andrade
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Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen vão ver algo que nenhum outro humano teve a oportunidade de observar diretamente. Os quatro astronautas que integram a tripulação da missão Artemis II acabam de bater o recorde de maior distância da Terra alguma vez viajada pelo ser humano. Ao mesmo tempo, vão ser os primeiros a ter a oportunidade de olhar, captar imagens e registar informações de pontos do lado oculto da Lua nunca antes vistos sem intermediações pelo olho humano.

Aquele recorde foi batido pelas 18h56 (hora de Lisboa). Nesse momento, ultrapassaram a distância percorrida pela tripulação da Apollo 13, que deveria ter alunado em 1970. A missão ficou impedida de alcançar o seu destino final na sequência de uma explosão a bordo, no caminho até à superfície lunar, e obrigou a NASA a fazer uma passagem muito semelhante à que foi desenhada para a Artemis II (porém, bastante mais afastada da Lua).

Nesta missão que marca oficialmente o regresso da humanidade à Lua, a tripulação, transportada pela cápsula Orion, vai passar a cerca de 6.500 km da superfície lunar na sua passagem mais próxima. Será como ver “uma bola de basquetebol a ser segurada com o braço esticado”, comparou a NASA. Só que o momento em que vão estar a observar esta bola de basquetebol tem uma particularidade: vai coincidir com um eclipse solar, o que irá permitir todo um novo género de observações inéditas para juntar à lista de afazeres durante cerca de seis horas.

https://twitter.com/NASASolarSystem/status/2040922935460823546

O momento dedicado unicamente à observação lunar terá início pelas 19h45 e só terminará após as 2h00, pouco tempo depois de terem reestabelecido contacto com o centro de controlo em Houston para passar a informação observada durante aquele período em que as comunicações estiveram cortadas. Entre as 23h44 e as 0h25, estima-se que a Orion deixe de conseguir comunicar com a NASA e com as equipas que têm acompanhado a missão durante os últimos quatro dias. Será só com o “nascer da Terra”, quando o planeta voltar a ficar visível a partir daquela cápsula, que o contacto vai regressar. E, a partir desse momento, a equipa poderá transmitir tudo aquilo que observou os momentos anteriores.

Serão 40 minutos “às cegas”, como descreve a NASA — sem qualquer possibilidade de comunicação com a tripulação a bordo. No entanto, têm a certeza de que durante aqueles 40 minutos não será feita outra coisa senão a observação do satélite natural da Terra e que, daquelas seis horas que dedicarão a esta tarefa, podem sair dados com o potencial de vir a aprofundar o nosso conhecimento sobre a formação da Lua, da Terra e de todo o Sistema Solar.

Um eclipse, uma grande cratera e a réplica de uma fotografia icónica: as observações dos astronautas no lado oculto da Lua

Os objetivos foram definidos ainda antes de se saber exatamente qual seria a data de partida dos quatro astronautas. Assim, quando foi inicialmente desenhado o plano da missão, não contava nos planos a possibilidade de encontrar um eclipse solar durante esta passagem. Só puderam começar a estudar o que iria estar visível a partir da Orion no dia 1 de abril, quando o lançamento acabou mesmo por acontecer. Mas os principais contornos não se alteraram.

Ao longo destas seis horas de observação, os quatro astronautas vão captar imagens que podem vir a ajudar as equipas de cientistas da NASA em Terra a perceber melhor como a Lua e o Sistema Solar foram formados, através da análise de crateras e de outras formações geológicas visíveis na superfície lunar.

Um dos grandes focos desta parte da missão será a bacia Orientale, uma cratera provocada por colisões com outros corpos celestes e que, apesar de existirem imagens captadas por robôs — tanto da NASA como da Agência Espacial Chinesa —, é um local que nunca foi visto por olhos humanos.

Mesmo que já existam fotografias desta grande cratera, a NASA defende que o cérebro e os olhos da tripulação poderão complementar a informação já registada sobre os diferentes pontos de interesse, porque são “altamente sensíveis a mudanças subtis de cor, textura e outras características da superfície lunar”. “Ao termos os olhos de astronautas a observar a superfície lunar diretamente, em conjunto com todos os avanços científicos feitos sobre a Lua ao longo das últimas décadas, poderá levar a novas descobertas e a uma apreciação mais detalhada das características da superfície da Lua”, escreve a agência.

Para além da cratera que tem mais de 650 km de diâmetro, um outro objetivo das seis horas de observação será a possibilidade de tirar uma fotografia da Terra por cima da superfície lunar — replicar a famosa Earthrise, captada pela tripulação da Apollo 8.

O eclipse solar vai durar pouco menos de uma hora. O sol será bloqueado pela Lua e este fenómeno só será visto pelos quatro astronautas a bordo da Orion. Durante estes 57 minutos, a superfície do satélite não terá qualquer iluminação do ângulo observado pela tripulação, pelo que será uma oportunidade para estudar algo nunca antes testado.

Com uma Lua “às escuras”, vão ter a oportunidade de procurar “flashes de luz” refletidos por meteoróides a atingir a superfície lunar, algum tipo de poeiras que sejam levantadas ou, simplesmente, aproveitar a oportunidade para observar outros alvos de interesse, como planetas.

Todas as imagens e observações deste período observacional não serão imediatamente divulgadas ao público, mas a NASA garante que a informação será transmitida no arquivo multimédia assim que chegarem desde a Orion, sem dar uma previsão horária. A agência refere, também, que este arquivo online continuará a ser alimentado até ao regresso à Terra e ainda numa fase posterior, quando todos os dados forem processados pelos especialistas.

No final desta atividade, quando terminarem a passagem de informação à equipa em Houston, a equipa assinala oficialmente o caminho de regresso à Terra, esperando-se o splashdown às 1h00 de sexta-feira, próximo da costa de San Diego, na Califórnia.

Texto atualizado às 18h58 de 6 de abril com a informação de que a Artemis II acabara de bater o recorde de maior distância de um ser humano em relação à Terra.