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(A) :: Menos dourados e 2 centímetros mais baixo que o de Francisco. O cadeirão português que vai receber o Papa Leão XIV em Angola

Menos dourados e 2 centímetros mais baixo que o de Francisco. O cadeirão português que vai receber o Papa Leão XIV em Angola

Da pedra argilosa rosada do Santuário da Muxima e madeira de Longui do norte de Angola, o cadeirão, o altar e o ambão que serão usados por Leão XIV foram mais uma vez produzidos pela Antarte.

Sâmia Fiates
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Quando em 2010 o Papa Bento XVI esteve no Porto, na sua única visita oficial a Portugal, gostou tanto da cadeira de descanso que lhe foi oferecida que quis mesmo levá-la consigo. “Sentiu-se bem e pediu para trazer para o Vaticano. E eu sei que a usou bastantes vezes, usava-a com frequência“, recorda Mário Rocha, o CEO da Antarte, ao Observador. Aquela foi a primeira vez que a marca de Rebordosa, fundada em 1998, forneceu mobiliário para o Vaticano. Desde então, produziu peças em outras duas ocasiões — e prepara-se para a quarta colaboração. Esta quinta-feira, envia de Portugal para Angola o cadeirão, o ambão e o altar no qual o Papa Leão XIV vai rezar o terço com os fiéis, durante a visita oficial ao país africano entre 18 a 21 de abril.

Em 2023, a marca portuguesa materializou uma instalação de arte de 12 esculturas desenhadas pelo arquiteto Siza Vieira para o Pavilhão do Vaticano na Bienal de Veneza. Já em 2024, criou o cadeirão que o Papa Francisco utilizou durante a visita oficial a Timor-Leste. Um convite que partiu, na altura, do Presidente do país, José Ramos-Horta. Agora, mais uma vez, foi a organização da visita em Angola a solicitar as peças à Antarte — a marca portuguesa já tem loja em Luanda há 20 anos. “Quando falámos com a pessoa representante da Igreja em Angola, nós perguntámos, já que íamos utilizar matérias-primas angolanas, se tinham alguma indicação que gostavam de fazer. E disseram-me: ‘há aqui uma extração de pedra argilosa rosada junto ao santuário da Nossa Senhora da Muxima, será que pode incorporar nas peças do mobiliário?'”, recorda o CEO da empresa, que destaca outras matérias-primas locais para a produção, como a madeira de Longui, presente no norte de Angola. Já o tecido de fibras de algodão e linho, feito em tear manual, é português.

O projeto levou cerca de três meses, mobilizou uma equipa multidisciplinar de 12 profissionais e totalizou mais de 160 horas de trabalho, em Portugal. “Trouxe uma amostra da pedra em janeiro. Depois procurei aqui uma pedra idêntica para podermos simular os protótipos. Os desenhos já em 3D foram para Luanda e contratámos lá uma empresa que trabalha os mármores. A madeira de Longui existia cá e nós procurámos a madeira no mercado, mas não foi propriamente fácil. As peças foram desmontadas para Luanda e vai ser feita lá a montagem final“, explica o também fundador da marca de mobiliário.

Diferente do que se pode pensar, apesar de serem móveis para ritos de uma instituição cercada de protocolos, o design da peça não segue diretrizes tão rígidas — e nem a cor foi uma exigência. “Por acaso na cor não falaram. Nós optámos sim por utilizar as cores mais neutras, neste caso o pérola. Mas claro, nós fizemos a imagem virtual do projeto, enviámos para lá e foi aprovada à primeira. Tivemos, sim, essa liberdade”, revela o CEO da Antarte. “As regras que devemos respeitar são: utilizar matérias-primas sustentáveis ao máximo, produtos naturais, ter o cuidado com o meio ambiente”, conta Mário Rocha, que depois destaca no que o Vaticano é, afinal, “muito rigoroso”. “Nas medidas, nomeadamente do cadeirão para a sua santidade, o Papa”. Um detalhe curioso é que as medidas não são sempre as mesmas, e seguem as particularidades de Leão XIV. “Por acaso, reparei nisto logo que comecei a estudar o design desta peça, que é a altura. É dois centímetros mais baixo do que o cadeirão do Papa Francisco. E depois recebemos outra orientação que era para ser o mais simples possível, um design mais clean. Não quiseram tantos dourados, um pouco diferente do Papa Francisco. E nós também queríamos fazer diferente.”

De acordo com Mário Rocha, depois da celebração do Papa Leão XIV, no dia 19 de abril, as três peças vão ficar no Santuário da Nossa Senhora da Muxima, assim como aconteceu com o cadeirão do Papa Francisco, que ficou no Palácio da Presidência de Dili, no Timor Leste. “Entretanto, na audiência que tive a oportunidade de ter com ele (o Papa Francisco), foi simpático e disse-me que gostou imenso do design. Perguntei-lhe se gostava de ter uma no Vaticano e ele disse que sim. E nós mandámos, e pensamos que terá sido enviada para o Museu do Vaticano”. O CEO da Antarte embarca para Angola na próxima semana: vai acompanhar a montagem, visitar o Santuário de Nossa Senhora de Muxima, já tem o convite para assistir à missa do dia 19, onde quer oferecer um cadeirão ao novo Papa. “Espero ter essa oportunidade. Agora não sei, vamos ver o que é que diz o Papa Leão XIV. Porque os papas não devem ter cadeiras de todos os países que visitam. Esperemos que escolha a cadeira, e se escolher, nós enviaremos para o Vaticano com muito gosto. Se não escolher, o nosso principal objetivo era realmente fazer aquilo que fizemos, produzir mais uma cadeira para mais um papa. No fundo, produzimos para os três papas que estiveram no Vaticano nos últimos 20 anos”.