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Tame Impala na MEO Arena: em casa, do lado de cá do mundo

Durante mais de duas horas, Kevin Parker e companhia deixaram Lisboa num transe musical e visual. Uma pista de dança megalómana, rock de estádio e psicadelia pop à boleia do novo álbum, “Deadbeat”.

Ricardo Farinha
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João Porfírio
photography

Depois de passarem por festivais como o Super Bock Super Rock, o NOS Alive, o Paredes de Coura ou o Primavera Sound, os Tame Impala finalmente estrearam-se em Lisboa com um concerto em nome próprio. Aconteceu este domingo, 5 de abril, na MEO Arena — uma noite após tocarem na Super Bock Arena — Pavilhão Rosa Mota, no Porto. Referimo-nos aos Tame Impala como uma entidade coletiva por ao vivo serem uma banda, mas, em bom rigor, esta música é o resultado da criação e visão de um homem só. O concerto explica-o e reforça-o.

Kevin Parker é o fundador e o autor de Tame Impala, projeto australiano que está em digressão pela Europa a apresentar o álbum Deadbeat. Editado em outubro de 2025, representa um certo ponto de viragem no som: já havia fartos indícios eletrónicos nos discos anteriores, Currents e The Slow Rush, mas Deadbeat arrastou definitivamente o universo de Tame Impala para a cultura da pista (e da música) de dança. Afinal, a psicadelia que marca a identidade do projeto não pode ser estranha a música repetitiva, hipnótica e imersiva.

Perante uma MEO Arena esgotada, Kevin Parker e os cinco músicos que o acompanham são recebidos em estado de graça. Estão num palco oval que transborda cabos elétricos, da parafernália dos muitos sintetizadores aos equipamentos de luzes e lasers que rodeiam a plataforma. O próprio palco tem focos de luz no interior que permitem iluminar a banda: é como um coração pulsante que vai batendo e mudando de cor consoante os temas. A experiência é altamente envolvente e sensorial, com novos efeitos de luz desvendados a cada canção. Ora são potentes raios de laser de todas as cores que atravessam a sala, ora é um arco-íris em movimento que parece exponenciar a canção, ora são explosões de confetti que arrebatam a audiência.

O operador de câmara em palco vai acompanhando e transmitindo em direto os movimentos dos músicos para os dois grandes ecrãs verticais — são imagens próximas, íntimas, profundamente cinematográficas, quase que em câmara lenta, captadas como se o próprio espetador estivesse a escassos metros de Kevin Parker e companhia, como se o fã os estivesse a filmar com o telefone. Parker pode ser (e é) o grande protagonista da noite, mas, tal como na música de Tame Impala, a voz não sobressai exageradamente face aos instrumentos; é uma das muitas camadas e texturas de uma densa atmosfera sonora.

Tame Impala é um dos melhores exemplos possíveis para contar a história recente da música popular num único projeto. Em palco, escutamos uma bateria, baixo e guitarras; mas também instrumentos de outras eras, dos sintetizadores modulares aos teclados, dos pads digitais a sequências pré-programadas, entre uma miríade de efeitos sónicos. Este é um concerto de rock de estádio que ao mesmo tempo tem uma profunda sensibilidade pop e momentos em que a arena se transforma num megalómano clube de dança. Pode soar confuso, mas a produção moderna e sofisticada é como uma cola coerente que junta e entrelaça todos estes elementos numa mesma linguagem musical.

Todos os momentos-chave de uma grande performance pop estão lá. Let It Happen, Feels Like We Only Go Backwards e Eventually são hinos que provocam a euforia e reúnem instantaneamente um coro de milhares de pessoas. Yes I’m Changing é a balada, com um Kevin Parker sentado a cantar na beira do palco, debaixo do outro efeito de luz que estava garantido embora não contratualizado — milhares de flashes de telemóveis numa arena às escuras, e três ou quatro lágrimas a escorrer por alguns rostos.

O apelo sedutor, refrescante e mais transgressivo chega nos segmentos mais dançáveis. Dracula, Afterthought, Ethereal Connection e Not My World são dos momentos mais próximos do espírito de rave. Os dois últimos temas são, aliás, tocados a solo por Kevin Parker numa secção do alinhamento em que o músico se desloca sozinho para o centro da MEO Arena e ocupa um pequeno palco secundário.

Aquela é a perfeita representação visual do bedroom producer, a infame figura que emergiu neste milénio com a ascensão do digital e a democratização das ferramentas tecnológicas e que levou a que projetos como Tame Impala pudessem ser inteiramente criados por uma única pessoa num quarto. De repente, já não eram necessários inúmeros músicos, técnicos e dezenas de horas num estúdio dispendioso e pouco acessível para fazer um disco — e isso mudou a história da música em mais aspetos do que é possível contar.

Com quatro sintetizadores espalhados sobre os tapetes, ladeado por quatro pequenos candeeiros a meia luz, Kevin Parker canta deitado, de barriga para cima, cabeça encostada a uma almofada, como se estivesse no conforto do lar em Perth, a sua cidade-natal, onde ergueu todo este universo. Mesmo do outro lado do planeta, os Tame Impala estão em casa.

Pelo meio, no caminho que percorreu entre palcos, e só para juntar mais um ingrediente à receita, Parker teve ainda a atitude punk de transmitir em direto a sua ida à casa de banho, provando que tem a bexiga menos tímida da música contemporânea mundial. Outro instante de puro rock’n’roll, mesmo que performático, foi quando demonstrou à câmara como parecia cool acender e fumar um cigarro, num gesto audiovisual típico do cinema clássico e que hoje provavelmente seria proibido ou censurado em qualquer outro contexto de acordo com as normas em vigor.

Voltemos à ideia de Tame Impala como espelho da evolução da música popular ao longo das décadas. Kevin Parker inspirou-se na psicadelia dos Beatles ou dos Pink Floyd, música que o pai ouvia em casa, mas pertence à geração que cresceu com o rock alternativo e indie dos anos 90 e 2000. A influência da pop, da eletrónica e do próprio hip hop também se fizeram sentir no seu método, desde a forma suave como usa a voz aguda à cadência das batidas, passando pelo espetáculo que funde o rock de estádio com a performance eletrónica de grande festival. Às vezes, o riff de guitarra é indubitavelmente rock’n’roll, pés a bater no chão e ginga no corpo. Noutros casos, parece que uma nave espacial de outra galáxia se prepara para aterrar no Parque das Nações. O som híbrido de Tame Impala é retro, contemporâneo e futurista em simultâneo.

Não fosse esta música marcada por uma melancolia característica, uma certa nostalgia e solidão, uma introspeção profundamente humana, e poderíamos desconfiar que Kevin Parker era o prompt perfeito num algoritmo musical de inteligência artificial. O facto de ser um projeto criado, gravado e produzido por uma única pessoa em casa, com base nas suas reflexões interiores e sem sequer precisar de qualquer psicadelismo exterior — a Austrália até se poderia revelar rica nesse aspeto, dos vastos desertos repletos de animais venenosos ao imaginário cinéfilo de Mad Max —, prova ainda mais que esta é a obra de alguém inteiro, de carne e osso, coração e cérebro, alegrias e infortúnios. E é decididamente música do seu tempo, num mundo pós-géneros, em que as categorias musicais convencionais cada vez menos importam, em que as fusões dominam, em que tudo recicla e é reciclado num permanente círculo criativo.

O resultado é uma paisagem sonora abundante, turva e difusa, porque ninguém sabe bem onde acaba (nem onde começa) ou que limites possui. A quantidade de camadas em jogo nestas canções é bem visível quando temos uma dúzia de mãos em palco sempre atarefadas, a tocar em teclas, em cordas, a manipular efeitos ou a mexer em botões, tudo para materializar uma visão individual.

Ao vivo, Parker consegue ter uma presença magnética e um carisma natural, sem aparentar qualquer esforço. “Olhem só para vocês, são tantos!”, exclamou logo no início, perante as bancadas preenchidas e levantadas do início ao fim. Haveria de despejar o seu gin com refrigerante para cima dos seus pedais e brincar com o acidente. Logo de seguida alterava o tom ao sinalizar que alguém na plateia necessitava de ajuda médica depois de se sentir mal. “Portugal é um dos meus sítios favoritos do mundo”, declarou, num amor que foi sempre recíproco, ao longo de mais de duas horas de espetáculo.

Quando ao fim das duas horas certas deixam o palco para o tradicional encore, não há margem para dúvidas de que o público deseja mais daquilo que acabou de experienciar. As palmas e os gritos preenchem a arena e chegam aos bastidores, onde os músicos só estiveram um ou dois minutos. “É difícil pôr em palavras, mas isto é bastante mágico”, atira Parker, ovacionado em pé por cerca de 20 mil pessoas. “Alguém aí faz anos? Parabéns!”, congratula um fã após ler um cartaz. Depois, um outro admirador consegue um ambicionado autógrafo na camisola. “A minha vida é insana, ver-vos todos a cantar… Sinto-me mesmo muito grato.”

O encore arranca com a vibrante My Old Ways, a canção que também inicia Deadbeat. Um ligeiro problema técnico interrompe o tema a meio, mas rapidamente é resolvido. “Desculpem, isto costuma ser rápido”, apressa-se Kevin Parker. “Mas não faz mal, não queremos saber, desde que consigamos tocar alguma coisa estamos aqui bem”, disse, despreocupado, revelando mais uma vez tanto a sua autenticidade como as suas muitas valências musicais.

O regresso de My Old Ways, agora sim, acontece com o drop eletrónico que deixa inevitavelmente a multidão a dançar. Será Kevin Parker também um evangelizador da cultura clubbing, ao aproximar públicos distintos destas linguagens musicais? End of Summer, uma abordagem acid house que nos transporta para o cenário de uma rave primal, parece indicar isso mesmo.

A outra que faltava e não podia falhar era The Less I Know The Better, uma das emblemáticas canções que tornaram Tame Impala num projeto de referência e influência global. Enquanto inclina o corpo para trás e encara as centenas de luzes que mandou instalar no ar, esquecendo-se por uns segundos de onde está, Kevin Parker parece desfrutar de um momento de elevação espiritual, de puro transe musical e visual. Esta noite, na sua grande festa, os Tame Impala deixaram-nos a todos nesse estado.