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Temer a húbris

O exercício de recordar a nossa natureza imperfeita é essencial para não cairmos na tentação de querer determinar o critério do bem e do mal. Temer a húbris, diziam os gregos.

Patrícia Fernandes
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Por razões que nos desviariam do nosso propósito, Zeus patrocinou o casamento da nereide Tétis com Peleu, um dos argonautas que se deslocaram à Cólquida em busca do Tosão de ouro. Deste casal abençoado pelos deuses viria a nascer Aquiles, de pés velozes e temperamento violento, um dos protagonistas da Guerra de Troia cantada por Homero na Ilíada. Mas a sua importância no conflito não reside apenas nos seus feitos como guerreiro: a verdade é que foi no casamento dos seus pais que o conflito começou.

Terão sido convidados para a cerimónia todos os deuses, com exceção de Éris, a deusa da discórdia – o que é compreensível. Mas o que é igualmente compreensível é que Éris não tivesse ficado agradada com a falta de convite, pelo que interrompeu a festa para entregar aos deuses uma maçã das Hespérides com a seguinte gravação: “Para a mais bela.” Já sabemos como os deuses gregos eram demasiado humanos e, por isso, não é surpreendente que Hera, Atenas e Afrodite, entendendo ser as destinatárias do objeto, tivessem entrado numa disputa competitiva pelo que viria a ser chamado “pomo da discórdia”.

Peter Paul Rubens, The Wedding of Peleus and Thetis (1636)

Hermes propõe que seja um pastor, reconhecido como justo, a decidir a qual das três deusas o pomo devia ser entregue e cada uma delas oferece a Páris uma recompensa pela escolha: Hera promete-lhe o poder sobre o mundo e Atenas a vitória em todas as guerras; já Afrodite, a deusa da beleza e do amor, garante-lhe a mulher mais bonita do mundo.

São recompensas que tentariam qualquer homem, mas Páris acaba por entregar a maçã a Afrodite, que cumpriu a promessa quando o jovem pastor – que afinal era filho de Príamo, rei de Troia – visitou Esparta e a bela Helena se apaixonou por ele. Foi para vingar este rapto e a afronta que ele constituía que os gregos se juntaram para atacar os troianos na planície de Ílion durante dez anos, até que Ulisses tivesse inventado o ardil do cavalo de madeira com que garantiu a vitória dos gregos.

O pomo da discórdia simboliza, assim, a desavença entre Hera, Atena e Afrodite, por um lado, e a disputa entre gregos e troianos, por outro, num conflito que marcará, como já vimos, o início do distanciamento entre os deuses e as suas criaturas – pelo que também representa a discórdia entre o Olimpo e os homens.

Será por acaso que encontramos igualmente no Livro do Génesis a referência a um pomo? Curiosamente tendemos a pensar nele como uma maçã, mas o texto sagrado não especifica de que fruto se trata. Pela boca de Eva ficamos a saber que:

“Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: “Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis”.” (Gn 3,2)

Também este fruto se revelará um pomo da discórdia, pois ele simboliza a primeira desobediência, a caída em pecado de seres criados em perfeição. Como é afirmado na encíclica Gaudium et Spes,

“Estabelecido por Deus num estado de santidade, o homem, seduzido pelo maligno, logo no começo da sua história abusou da própria liberdade, levantando-se contra Deus e desejando alcançar o seu fim fora d’Ele.” (13, itálico meu)

Como devemos interpretar esta proibição e a respetiva desobediência? O Papa João Paulo II dedicou-se em particular a este tema, afirmando:

“A árvore do conhecimento do bem e do mal recorda simbolicamente o limite absoluto que o homem, enquanto criatura, deve reconhecer e respeitar. O homem depende do Criador e está sujeito às leis pelas quais o Criador estabeleceu a ordem do mundo que criou, a ordem essencial da existência (ordo rerum); por isso, o homem está também sujeito às normas morais que regulam o uso da liberdade.”

A dúvida de Platão conhecida como o dilema Eutífron – algo é bom porque Deus ordena ou Deus ordena-o porque é bom? – dissolver-se-ia, assim, num Deus que é a fonte do bem:

“desde o início, o Criador revela-se a um ser racional e livre como o Deus da Aliança e, por conseguinte, da amizade e da alegria, mas também como a fonte do bem e, portanto, da distinção entre o bem e o mal no sentido moral.”

A proibição de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal representaria o perigo de o homem querer reivindicar para si o critério que permite distinguir o bem e o mal. Como chama a atenção o bispo Robert Barron numa das suas homilias, esta é a queda primitiva: reivindicar para si a prerrogativa de determinar o bem e o mal e acreditar que é nisso que consiste a liberdade humana. Contudo, quando nos apropriamos desse critério, limitamo-nos a abrir a porta ao individualismo e à subjetividade, à tentativa de legitimar todas as vontades momentâneas e desejos mesquinhos, ao atrevimento de determinar para si o significado de uma vida boa.

Os gregos tinham um nome para isso, para essa arrogância ou essa soberba de querer ocupar o lugar dos deuses: chamavam-lhe hybris (húbris) e era o comportamento mais severamente castigado, como o provam Sísifo, Tântalo ou Belerofonte. Já o Cristianismo ensinou outro caminho, trocando uma postura penalizadora por uma atitude evangelizadora, ao recordar-nos permanentemente da nossa natureza pecadora: não para nos menorizar, mas para que não nos esqueçamos de que somos seres limitados.

E é por esta razão que tenho muitas dúvidas sobre a nova tendência, sobretudo prevalecente entre os párocos mais novos, de sobrevalorizar a natureza bondosa do ser humano. O motivo pode ser nobre, mas é perigoso e contraproducente por tender a alimentar a húbris. Em sentido contrário, o exercício de recordar a nossa natureza imperfeita é essencial para não cairmos na tentação de querer determinar o critério do bem e do mal. Temer a húbris, diziam os gregos.